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A Tribuna - At Revista

Para além da lógica

Publicado em 04 agosto 2019

Um satélite do tamanho de uma fatia de pão de forma — e com assinatura brasileira — será lançado no espaço com o objetivo de contribuir para os estudos das mudanças climáticas na Terra. O equipamento coletará dados sobre a influência de partículas suspensas na atmosfera na formação de nuvens e sua relação com variações registradas nas últimas décadas no clima.

O dispositivo embarcará em outubro numa missão não tripulada da Nasa, em projeto liderado pelo físico brasileiro Vanderlei Martins, professor da Universidade de Maryland, Baltimore County (UMBC), nos Estados Unidos.

Chamado de Harp CubeSat, o satélite permitirá observar o mesmo ponto na superfície da Terra sob 60 ângulos diferentes. Ele ficará no espaço por um ano. Segundo Martins, o tema do estudo é pouco compreendido na comunidade científica e pode ajudar a alavancar novas pesquisas.

— O efeito dessas partículas na formação de nuvens é hoje a maior incerteza quando se fala em projetos sobre a mudança climática — diz Martins, que foi bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e colabora no desenvolvimento do algoritmo que analisará as medidas feitas pelo satélite.

As pequenas partículas suspensas na atmosfera terrestre, como poeira, fuligem, fumaça e poluição urbana, são chamadas de aerossóis atmosféricos. Eles influenciam diretamente o balanço de radiação da atmosfera, causando um efeito de resfriamento da Terra, e foram, ao longo do século, determinantes no crescimento ou na diminuição da temperatura global do planeta. Mas podem ser também poderosos poluentes, no caso dos aerossóis produzidos pelo homem, como a poluição, com efeitos diretos na saúde pública.

A exposição frequente a essas partículas pode causar uma série de complicações — e mata cerca de 30 milhões de pessoas por ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

— Quando tipos de partículas mais claras, como poeira ou pólen, ficam na Terra, podem refletir a radiação solar de volta para o espaço, o que reduz a quantidade de energia solar no planeta. Se são partículas mais escuras, como fuligem e fumaça, elas absorvem radiação solar, causando aquecimento na atmosfera — explica o físico brasileiro.

As partículas suspensas na atmosfera também influenciam na formação de nuvens. Cada gota da nuvem, diz Martins, é formada em volta de partícula de aerossol atmosférico, que pode ou não ser maléfico. A questão é que, quanto mais se emitem aerossóis poluentes na atmosfera, mais se alteram não só a composição e o balanço de água, como também o tempo de vida das nuvens e a probabilidade de chuva.

— Sabemos que existe forte correlação entre concentração de certos aerossóis e a ocorrência de mortes prematuras em certas regiões. Mas, nos casos de balanço de energia e de formação de nuvens, ainda precisamos descobrir como se dá essa influência, e em quais casos será benéfica ou não. Dependerá do tipo de aerossol e das condições meteorológicas de cada lugar. É algo complexo, e ainda estamos estudando isso — diz Martins.

O pequeno satélite registrará e enviará à Terra imagens e dados de lugares específicos do planeta, como centros urbanos, locais de queimadas e regiões desérticas. As informações serão usadas para reproduzir parâmetros como a quantidade e o tipo de poluição da atmosfera.

— Em uma região de céu aberto, o satélite enviará a quantidade de partículas. Em um cenário só de nuvens, saberemos o tamanho das gotas e sua composição. Isso nos permitirá fazer uma associação entre quantidade, tipo de aerossóis e tipo de nuvens em cada região — conta o físico brasileiro.

Curta duração

A tecnologia do Harp CubeSat já respondeu bem a testes embarcado em aviões, uma exigência da Nasa, que apoia o projeto. A próxima fase virá em dois meses, com a missão da agência espacial americana para levar suprimentos à Estação Espacial Internacional (ISS). Ao chegar lá, será lançado no espaço junto a outros pequenos satélites desenvolvidos por diferentes grupos de pesquisa a partir de uma miniestação de lançamento.

— Esse ainda não será um satélite de monitoramento contínuo. Devido à forma e ao peso, o Harp deve durar cerca de um ano. Com o tempo, começará a cair e se desintegrar na atmosfera. Enquanto isso não acontece, coletaremos os dados, que serão processados e validados aqui — explica Martins.

No futuro, a tecnologia pode ser implementada em outros satélites da Nasa, com um novo dispositivo já em desenvolvimento, o Harp 2.

— Já estamos trabalhando em um novo sensor para um satélite maior. Ele terá mais recursos, como potência elétrica, captura de energia solar, manutenção de órbita e quantidade e qualidade de transmissão de dados. A grande vantagem, também, é que conseguiremos monitorar todo o planeta a cada dois dias. E por muito mais tempo — conta.

A próxima geração do Harp deve viajar a bordo do satélite Pace, uma nova missão da Nasa que medirá propriedades do oceano e da atmosfera e que tem lançamento previsto para 2023.

Pesquisador fundou instituto

Vanderlei Martins, de 53 anos, trabalha com a Nasa desde o doutorado, em 1995. Na época, desenvolvia uma pesquisa sobre queimadas e nuvens na Amazônia pela Universidade de São Paulo (USP), onde fez também mestrado em Física Nuclear.

— Sempre gostei da pesquisa científica, com medidas a partir do espaço. Ganhei uma bolsa sanduíche na Universidade de Washington e no Centro Nasa Goddard. Depois, voltei para a USP e fiz pós-doutorado na Nasa, por meio da Universidade de Maryland, Baltimore County (UMBC), minha atual universidade — conta o físico, nascido na cidade paulista de São Caetano do Sul.

Na UMBC, o pesquisador fundou o Earth and Space Institute, para desenvolver projetos relacionados à Terra a partir do espaço, como os sensores de satélite. O lançamento do Harp 1 é um marco, mas não o fim do desafio:

— O trabalho da pesquisa é desenvolver algo novo, como uma tecnologia, que é aplicada, e analisar os dados. Depois, é a hora de pensar no próximo.

À frente da equipe criadora do satélite que coletará dados sobre a influência de partículas suspensas na atmosfera na formação de nuvens e sua relação com mudanças registradas no clima do planeta, Martins diz que o risco de lançar um satélite no espaço é alto.

— Há muitos casos de lançamento com falhas. E, às vezes, o satélite chega, mas perde a comunicação —  admite.

A expectativa com o lançamento do Harp, porém, diz ele, é maior que o medo.

SÃO PAULO