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Jornal de Jundiaí online

Papel feito de plástico é criado no Brasil

Publicado em 09 março 2009

Por Valter Tozetto Jr

Pesquisa da Ufscar resultou em papel sintético criado a partir do plástico

 

Imagine escrever em uma folha de papel que, ao invés de usar madeira para ser confeccionada, utiliza plástico reciclado. Saiba que esta idéia foi colocada em prática e já foi produzida. E, o melhor: aqui no Brasil. A idéia surgiu da professora e pesquisadora Sati Manrich, do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), no interior de São Paulo. "A idéia de fabricar um papel sintético ecológico surgiu em 1995, quando a apresentei à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)." Ela explica que confecção de papel a partir de películas plásticas é uma tecnologia amplamente conhecida, mas exige o uso de matéria-prima virgem para a confecção das folhas sintéticas.

"Quando comecei minhas pesquisas, queria utilizar o plástico já utilizado, ou seja, uma forma de reciclar resíduos urbanos." Após vários estudos, Sati conseguiu um feito inédito: criar um papel sintético à base de plástico reciclado. "Ele apresenta características nobres, como o papel couché."

Financiado pela Fapesp, o projeto, que levou cerca de três anos para ser desenvolvido, foi adotado em caráter experimental pela fabricante de papel sintético Vitopel (a empresa já desenvolve filmes plásticos para papel sintético utilizando somente matérias-primas virgens). "A empresa aceitou fazer o teste e fabricou o papel sintético em escala piloto."

Para a confecção, foram usados diversos materiais descartados, como potes de sorvete, garrafas pet, embalagens de CD e restos de canetas ou cartões bancários. "Mas é possível utilizar diversos outros materiais, como sacolas plásticas, sacos de lixo, potes de iogurte, copos descartáveis, enfim, tudo que é de plástico e vai para o lixo", frisou a professora.

Fabricação - Alguns processos para se chegar ao papel sintético são semelhantes ao da reciclagem do plástico. Primeiro faz-se a limpeza (lavagem) do material. Em seguida, ele passa pela secagem. Após estar completamente seco, é moído. "Depois desta etapa é submetido a um tratamento químico desenvolvido pela universidade. O resultado é a produção de uma película de alta qualidade, similar às produzidas com matéria-prima virgem."

Para se ter uma idéia, para produzir uma tonelada de papel comum, é preciso derrubar de 25 a 30 árvores. Já com o papel sintético, para cada tonelada retira-se até 850 kgs de lixo urbano. "Além de poupar madeira, evita que muito material plástico seja jogado fora e deixado em aterros e lixões."

Vantagens - Como o papel foi fabricado inicialmente em escala piloto, não é possível escrever nele com tintas à base d'água. "Grafite, giz de cera e caneta esferográfica podem ser usadas neste tipo de papel. Inclusive, quando o criamos, apresentamos para várias pessoas e todos concordaram que a escrita fica bem melhor, pois a caneta desliza mais fácil." Além de pequenas folhas, é possível criar, através do plástico reciclado, cartazes, rótulos, etiquetas, outdoors, etiquetas, tabuleiros de jogos, livros, cadernos e até cédulas de dinheiro. Além disso, pode ser produzido em diversas cores, basta aplicar pigmento durante o processo de fabricação.

"Apesar de ser muito semelhante ao papel comum, ele é mais durável, já que não se decompõe tão facilmente." A idéia, segundo Sati, é aplicar a criação em bens duráveis. "Dessa forma, reutiliza-se resíduos urbanos e utiliza educação ambiental ao mesmo tempo." O papel sintético comercializado atualmente é produzido com derivados de petróleo. "Existem várias patentes e produtos comercializados com matéria-prima virgem, mas não encontramos nenhuma patente ou papel sintético feito a partir de material plástico reciclado, o que é muito bom", diz Sati.

Vendas - Apesar de já ter sido criado, o papel sintético ecológico ainda não é produzido em escala industrial. "Precisamos definir o licenciamento com a empresa que fez os testes. Estamos em fase de negociação, mas há muito interesse por parte dela. E se tudo der certo, em abril começa a produção", destaca a pesquisadora. Quanto ao valor que poderá custar, Sati adianta que o grupo de pesquisadores envolvidos no projeto não fizeram esta avaliação. "A empresa ficou de fazer um levantamento de custos, mas ainda não nos passou nada."

Outra vantagem destacada pela pesquisadora é em relação ao reuso. "O plástico sintético ecológico pode ser reciclado e virar novamente papel ou outro material plástico."