Notícia

Gazeta Mercantil

Papanicolau reduz risco de câncer de colo de útero

Publicado em 31 janeiro 2000

Por MARIA LIGIA PAGENOTTO - de São Paulo
Se por volta dos 35 anos de idade toda mulher fizesse um exame Papanicolau - mesmo que fosse o único ao longo de toda sua vida -, ela teria conseguido reduzir em 50% a sua chance de vir a morrer de câncer de colo de útero, a região que liga a vagina ao útero. Apesar do caráter altamente preventivo dessa doença, o câncer de colo de útero, ao lado do de mama, figura na lista dos que mais vítimas faz no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. A culpa é da falta de informação, dos hábitos de higiene precários e da falta de atendimento básico, segundo especialistas no assunto. "Muitas pessoas nem se quer sabem do que se trata o exame conhecido como Papanicolau", afirma o ginecologista José Focchi, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, o Papanicolau permite ao médico saber se a mulher apresenta verrugas e lesões decorrentes da presença do vírus HPV (sigla em inglês para vírus da verruga humana), conhecido também como papilomavírus. A relação do câncer de colo de útero, e também dos tumores de vagina e vulva, com o vírus HPV - basicamente de transmissão sexual, embora existam outras formas de se adquirir o microrganismo - é bastante estreita. Em quase 100% das mulheres vítimas desses tipos de câncer o HPV está presente. Essa alta incidência fez com que, há cerca de 25 anos, os especialistas no assunto chegassem à conclusão de que o vírus conspira mesmo para o aparecimento desses tumores. Mas ele não é o único vilão da doença. Hábitos ruins de higiene, troca exagerada de parceiros sexuais, contato com roupas íntimas usadas por outras pessoas e prática de relação sexual sem preservativo também contribuem para o desenvolvimento do câncer de colo do útero. Não é a toa que países subdesenvolvidos e regiões mais pobres dos países em desenvolvimento sejam campeões nesse tipo de tumor. No Brasil, os Estados do Norte e Nordeste são os que concentram as maiores vítimas de câncer do colo do útero. O Pará é o campeão, de acordo com estatísticas, com 5,7 mulheres para cada grupo de 100 mil. "Infelizmente, a falta de acesso à educação, a carência de informação e a quase ausência de profissionais de saúde nessas regiões acabam por aumentar o número de casos", lamenta Focchi. Ele considera um absurdo o fato de ainda morrerem mulheres vítimas desses tipos de câncer. "São formas fáceis de serem evitadas e, quando tratadas no início, têm um alto índice de cura". Se a relação entre HPV e câncer pode ser considerada uma descoberta relativamente recente, o conhecimento sobre o vírus já vem de longa data. De acordo com Focchi, existem cerca de 70 tipos de HPV, sendo que 30 deles acometem os genitais. Desse total, aproximadamente 12 têm potencial maligno, podendo levar a uma lesão precursora de câncer na vagina ou colo do útero. Os tipos menos agressivos produzem em geral um condiloma - uma espécie de verruga. Por causa dessa característica, a doença, especialmente em sua forma masculina, é conhecida popularmente como crista-de-galo. SAIBA MAIS SOBRE O HPV - 95% das mulheres com câncer de colo de útero apresentam HPV. - Apenas 1% das que têm o vírus irão desenvolver a doença. - O HPV não é transmitido apenas por via sexual - embora essa seja a forma preferencial. O vírus também pode ser adquirido por meio de toalhas e roupas íntimas contaminadas, da mãe para o filho na hora do parto e provavelmente também por meio do beijo. - O HPV já foi encontrado em mulheres virgens, em conjuntivas oculares, em laringes e até na pele da palma das mãos. - Um único exame Papanicolau feito por volta dos 35 anos - idade em que a incidência da doença é maior - pode reduzir em até 50% as chances de a mulher morrer vítima do câncer de colo de útero. - O Pará é um dos estados brasileiros com maior incidência da doença: 5,7 mulheres para cada 100 mil. PREVENÇÃO - Mulheres devem realizar o exame Papanicolau anualmente, especialmente se são ativas sexualmente. - Reduzir o número de parceiras (os) sexuais. - Praticar sexo apenas com preservativo. - Evitar o contato com roupas íntimas e toalhas de outra pessoa. - Parceiros de mulheres portadoras do vírus também devem procurar o médico para ver se estão contaminados e se tratar. COMO É O PAPANICOLAU: - O médico raspa o interior do útero para arrancar células e procurar eventuais alterações. - A célula normal, vista pelo microscópio, não apresenta um halo escuro e tem um único núcleo. - A célula suspeita de estar infectada pelo HPV apresenta o halo e o seu núcleo está duplicado. - Detectado o vírus, é feita uma biópsia do útero para que o médico localize exatamente o lugar onde ele está e que tipos de lesão provocou. - Quando ele invade a camada mais profunda da parede uterina, o risco é menor para a paciente. - Na camada intermediária, é preciso ficar alerta. - Podem transcorrer muitos anos até que o vírus chegue à camada mais superficial, mas quando isso acontece ele faz o caminho de volta (retoma em direção à camada mais profunda) e então dá início a um tumor. BOA NOTÍCIA NA ÁREA DE PESQUISA Há mais de quatro anos a pesquisadora Luisa Villa, do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, trabalha no desenvolvimento de uma vacina capaz de evitar a contaminação por dois tipos de HPV - justamente os que estão associados a 70% dos tipos de câncer. Os primeiros ensaios clínicos feitos em humanos com a vacina demonstraram que ela tem um forte caráter protetor. Em cinco anos, segundo a pesquisadora, já será possível analisar os primeiros resultados dos ensaios clínicos realizados em populações devidamente selecionadas, que indicarão se a vacina é realmente eficaz. As mulheres já contaminadas também devem se beneficiar. A vacina, neste caso, interferiria diretamente para evitar o aparecimento de alguma lesão ou mesmo a sua evolução. A publicitária L.P., de 29 anos, descobriu que era portadora do HPV quando estava prestes a engravidar pela primeira vez. A gravidez teve de ser adiada, pois o bebê poderia se contaminar caso ela não estivesse totalmente curada. (M.L.P.) VERRUGAS SÃO ÚNICOS SINAIS Para controlar o surgimento de lesões é preciso fazer o exame Papanicolau uma vez por ano. Por meio desse teste, o ginecologista colhe secreção do colo do útero e investiga a presença de possíveis alterações nas células provocadas pelo HPV. Se há alguma suspeita, a mulher deve ser submetida a uma colposcopia - um exame que permite ao médico visualizar a vagina e o colo do útero, a fim de investigar a presença ou não de lesões e verrugas. Se estas estão presentes, é necessário que a mulher se submeta a uma biópsia da região afetada, para uma investigação mais detalhada. Os exames mais sofisticados permitem ainda ao especialista ver se o HPV presente é de alto ou baixo risco para o desenvolvimento do câncer. Essa mulher deverá ser acompanhada mais de perto pelo médico. Alguns tipos de verruga, especialmente no homem, são visíveis a olho nu e já indicam a presença do HPV. Quando essas aparecem, porém, trazem um bom presságio. Segundo Focchi, essa forma de manifestação do HPV indica, de forma geral, que ele não é maligno. As verrugas, aliás, são os únicos sinais da presença do papiloma vírus. "Ele não provoca corrimentos, coceira nem ardor, como muitas outras doenças sexualmente transmissíveis, por isso a importância dos exames ginecológicos de rotina", alerta Fauzer Simão Abrão. Os especialistas também chamam a atenção para o comportamento dos casais quando um dos parceiros está infectado com o HPV. "Não dá para entrar num jogo de acusações, pois o vírus pode ficar incubado até 20 anos", explica Focchi. No homem, os estragos costumam ser menores, pois o HPV dificilmente irá predispor ao surgimento do câncer. Mas para evitar a recontaminação da parceira ele também deve se tratar. Quando o que existe são apenas verrugas, elas devem ser destruídas ou retiradas. Vale lembrar que, quanto mais tempo o vírus ficar no material genético das células, mais ele colabora para o aparecimento do câncer. "A eliminação das lesões é feita por meio de medicamentos, cauterizações ou pequenas incisões, a fim de que se retire o tecido atingido", diz Focchi. Segundo ele, quando já foi detectada alguma lesão precursora do câncer do colo do útero - lesões suspeitas mas que ainda não têm atestada sua malignidade -, depois de tratada a mulher deve se submeter ao Papanicolau primeiro a cada três meses, depois a cada seis e, em seguida, anualmente. Segundo o especialista, entre o contágio com o HPV e o surgimento do câncer, em geral são necessários de 10 anos a 20 anos. Apesar de a transmissão sexual ser a mais importante, acredita-se que toalhas de banho, roupas íntimas e material ginecológico mal esterilizado também possam ajudar a passar o vírus. (M.L.P.) FORMAS VARIADAS E FÁCIL TRANSMISSÃO Além de se apresentar sob formas variadas, o HPV é também facilmente transmitido de uma pessoa para outra. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 30% da população sexualmente ativa (dos 13 aos 45 anos) é portadora do vírus. Mas nada de pânico: isso não significa que todo esse contingente populacional seja potencialmente portador de câncer, de acordo com o ginecologista José Focchi. "Estima-se que, desse total de pessoas, apenas 1% irá desenvolver o tumor", diz o médico. Nos restantes, o vírus fica incubado na sua forma latente, sem causar problemas. E, segundo o médico, a maioria nem sabe que tem o HPV, pois, nessa forma, para ser detectado, ele exige exames muito sofisticados, como o PCR e o de captura híbrida. Valendo-se desse primeiro, é possível achar uma única partícula de vírus em meio a 1 milhão de células. Já no segundo, de captura híbrida, o DNA do vírus é misturado ao DNA retirado da célula suspeita. Se ela estiver infectada, seu material genético irá grudar no gene do vírus existente nela. Esse exame, mais caro que o Papanicolau, é feito como forma de controlar a evolução da contaminação em mulheres que apresentam o vírus latente. Segundo Focchi, eleja vem sendo feito nos Estados Unidos com certa freqüência - aqui também já existe - e o governo norte-americano estuda a possibilidade de estendê-lo a toda a população. Aqui no Brasil, acredita Focchi, o exame de captura híbrida também não deverá demorar muito tempo para chegar a mais pessoas. "Ele é útil na medida em que indica com mais precisão as mulheres que apresentam maior risco para o câncer de colo de útero." Isso porque, ao dar positivo, a paciente passa a fazer um acompanhamento mais rígido por meio do Papanicolau. Quem apresenta resultado negativo pode ficar um pouco mais descansada e realizar o Papanicolau com uma periodicidade maior do que a anual. (M.LP.) MAIS JOVENS CORREM MAIOR RISCO Uma vez constatada a presença do HPV, não dá para descuidar do preservativo na hora do sexo. Sempre existe a possibilidade de a contaminação evoluir para uma forma mais agressiva. Isso ocorre especialmente com pessoas que estão com o seu sistema de defesa do organismo debilitado por algum motivo. Mulheres que tomam algum tipo de remédio que acaba interferindo na resposta do sistema imunológico, como aquelas que passaram por algum transplante ou fazem quimioterapia, também estão mais sujeitas a apresentar problemas. As jovens, mesmo saudáveis, são as que correm mais risco. Entre os 15 e 25 anos de idade é mais freqüente a mulher apresentar lesões - que ainda nada têm a ver com câncer - por conta do papiloma vírus. Isso porque nessa idade o sistema de defesa do organismo não está pronto para resistir a todos os tipos de ataque, segundo Focchi. Segundo o médico Fauzer Simão Abrão, diretor do departamento de ginecologia do Hospital do Câncer A.C. Camargo, de São Paulo, alguns tipos de vírus podem sair mais facilmente da sua fase latente, provocar lesões e essas evoluírem para câncer. Nas mulheres mais jovens, o risco de evolução também é maior - as altas taxas de estrógeno (hormônio feminino) no sangue nessa idade facilitam o crescimento de tumores em mulheres predispostas. (M.L.P.)