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Pantanal, eventos extremos e as conexões com as Mudanças Climáticas

Publicado em 04 setembro 2021

Os sucessivos eventos climáticos extremos no Pantanal, ao longo dos últimos anos, tiveram ou têm relação com as mudanças climáticas globais?

André Luiz Siqueira, biólogo e mestre em Estudos Fronteiriços pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, diretor presidente da Ecoa Paula Isla Martins, bióloga, mestre em Biologia Vegetal e doutoranda em Ecologia e Conservação na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pesquisadora da Ecoa Alcides Faria, biólogo graduado pela Universidade de Brasília e Diretor Executivo da Ecoa

Para adentrar esse difícil terreno é preciso entender que o Pantanal é parte de uma unidade ambiental, no centro da América do Sul, com cerca de 600 mil km² – a Bacia do Alto rio Paraguai (BAP) – um território distribuído entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Para melhor compreensão é possível pensar essa unidade dividida em parte alta e parte baixa, sendo a planície pantaneira, com aproximadamente 200 mil km2, a parte baixa e para onde as águas dos rios nascidos na parte alta são drenadas – fluem em direção ao rio Paraguai.

Outros elementos ambientais devem ser entendidos. O primeiro deles é que o Pantanal é parte do maior sistema de áreas úmidas do mundo, o Sistema Paraguai-Paraná de Áreas Úmidas, com 400 mil km², situado no vale central da América do Sul e territórios distribuídos por Bolívia, Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Quanto aos ‘encontros’ da Bacia do Alto Paraguai, ela tem a oeste a Cordilheira dos Andes; ao norte a Bacia Amazônica; ao leste limita-se com a Bacia Araguaia-Tocantins e parte da Bacia do rio Paraná, que é também seu limite ao sul. Quanto à biologia, a região tem seus elementos particulares de uma área úmida e conta com a influência do Cerrado – a maior -, da Amazônia, do Chaco, da Mata Atlântica e do Bosque Seco Chiquitano.

As ações humanas degradantes sobre os ecossistemas da BAP e do Pantanal são, certamente, fatores que multiplicam os efeitos de alterações climáticas em determinados períodos anuais ou plurianuais. O tempo a ser contado – e percebido mais claramente – é o do início da pecuária intensiva com a chegada da gramínea braquiária para o pastoreio no Cerrado e a seguir com a expansão da agricultura industrial na produção de grãos, ambos eventos da parte alta da bacia. As duas atividades podem ser situadas mais corretamente nas últimas 4 décadas e seu efeito maior é o do desmatamento, da degradação do solo e a consequente aceleração do transporte de sedimentos e carreamento de agrotóxicos para a bacia pantaneira. A esses processos destrutivos deve-se somar a construção de represas para geração elétrica, as quais para operar, como é óbvio, retém a água que faltará na planície, principalmente em tempos de baixa precipitação. Na parte baixa, no Pantanal propriamente dito, nos últimos anos avança o desmatamento para a implantação da pecuária intensiva, em oposição à pecuária tradicional, tocada ao ritmo das águas.

O fato de ser o Pantanal parte de uma grande unidade ambiental com localização central na América do Sul, conectando diferentes biomas e sob o impacto danoso de ações antrópicas, permite inferir que é possível aproximar de respostas para a conexão entre os eventos climáticos extremos na região e as mudanças climáticas globais a partir de estudos climáticos que abarcaram, direta ou indiretamente, a região, incluindo aqueles que trabalham com cenários sobre mudanças climáticas e publicados mais recentemente, ‘ligando-os’ a eventos importantes em regiões que “tocam” a Bacia do Alto Paraguai.

Outra rota que serve como suporte a essa análise é a observacional. A Ecoa está há dezenas de anos na região, trabalhando em redes por todo o território e em estreito contato com moradores, desenvolvendo projetos baseados no Ciência Cidadã, dentre outras metodologias. Nesse processo, a Ecoa têm registrado cheias e secas extremas, bem como suas consequências econômicas e sociais. Em 2019, por exemplo, a Ecoa alertou para os riscos dos incêndios devastadores de 2020, pois monitorou a baixa precipitação em toda bacia e consequentes níveis muito baixos do rio Paraguai. Nos anos de 2011 e 2014, acompanhou de perto cheias excepcionais, com águas muito altas, as quais trouxeram perdas significativas para as comunidades ribeirinhas e os criadores de gado – em algumas partes do Pantanal o alagamento se manteve por largo período, impedindo que atividades como a pesca, o turismo e o pastoreio do gado ocorressem por muitos meses.

Foto: Jean Fernandes

É claro que para saber mais da dinâmica climática da Bacia do Alto Paraguai, do Pantanal e do Sistema de Áreas Úmidas precisa-se de estudos mais específicos. Mas o que já se pode colocar no campo das certezas é que os eventos extremos estão em linha com o impacto da ação humana direta sobre esses territórios. O desmatamento, por exemplo, exacerba todos os processos naturais da menor quantidade de chuva, o que altera os serviços ambientais das áreas úmidas, que atuam como reguladores das mudanças climáticas. Vale lembrar que o Pantanal responde 3% das áreas úmidas do Planeta.

Marcando nas árvores?

Um dos estudos recentes e que pode ser tomado como indicativos de conexões entre as mudanças climáticas e eventos extremos no Pantanal e na BAP é o publicado em junho de 2020 na PNAS (Procedings of the National Academy of Sciences of United States of America): “Six hundred years of South American tree rings reveal an increase in severe hydroclimatic events since mid-20th century.” O trabalho, que resultou no primeiro Atlas de Secas da América do Sul, recopila dados de árvores, de doze espécies diferentes, de florestas nos dois lados da cordilheira dos Andes, do sul do Peru (S12) à Terra do Fogo, no sul do continente sul-americano. Os autores afirmam que as espécies escolhidas têm em comum uma alta sensibilidade às mudanças hidro climáticas e “grande longevidade, às vezes superior a mil anos”. Como é sabido, os anéis das árvores marcam os anos de sua existência e a largura desses anéis indica maior ou menor crescimento de acordo com a disponibilidade de água. Anéis maiores mostram mais chuvas e menores, a falta dela.

Apesar de não terem analisado especificamente a região da bacia do Alto Paraguai e do Pantanal, as conclusões trazem fortes indícios de que os eventos climáticos extremos dos últimos anos podem ter conexões climáticas globais.

Na publicação os autores comentam que tem ocorrido um aumento constante na frequência de secas generalizadas desde cerca de 1930, com a maior frequência (um evento por ~10 anos) desde 1960, enquanto que o tempo de retorno de severas chuvas generalizadas permaneceu relativamente estável em 16 a 34 anos ao longo o período de estudo. Uma análise do tempo de retorno da extensão espacial de secas e chuvas identifica a maior frequência de eventos generalizados severos a cada ~5 anos após 1960.

Em entrevista ao periódico espanhol El País, Mariano Morales, coordenador do trabalho, afirma que “desde a década de sessenta os eventos hidro climáticos extremos estão aumentando no tempo”. Ressalta ainda que o “Atlas por si só não fornece evidências sobre quanto das mudanças observadas se devem aos efeitos provocados pelas atividades humanas, mas sabemos que existe uma associação estreita. As emissões de gases de efeito estufa estão causando maiores eventos extremos e podemos prever o que continuará no tempo”.

Alguns estudos tratam dos efeitos de alterações na floresta amazônica e seus impactos sobre outras regiões, trazendo desequilíbrios em várias atividades humanas, dentre elas a geração de energia hidrelétrica, a agricultura e abastecimento de cidades.?O Pantanal, tendo conexão direta com o bioma amazônico, poderá sofrer os efeitos dos danos causados à Amazônia.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), que conta com cientistas de todo o mundo, analisou mais de 14.000 artigos de pesquisa de diferentes regiões e no início de agosto publicou o relatório que analisa as evidências físicas das mudanças climáticas. As conclusões não deixam dúvidas: todas as regiões do planeta que já são impactadas pelas mudanças climáticas globais.

A Agência FAPESP, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, publicou a declaração do pesquisador Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que afirma que “a América do Sul e, em particular, o Brasil já mostram sinais das mudanças climáticas, incluindo o aumento das temperaturas da superfície, mudanças nos padrões de precipitação, derretimento das geleiras andinas e elevação no número e intensidade de extremos climáticos”. O pesquisador, que é também coautor do artigo “Assessment of CMIP6 Performance and Projected Temperature and Precipitation Changes Over South America”, publicado na revista Earth Systems and Environment, em consonância com outros estudos e o que temos observado nos últimos anos, conclui que “essas variações nas características climáticas são precursoras do que pode estar por vir nas próximas décadas se a escalada sem precedentes nas emissões de gases de efeito estufa continuar”.

Ecoa, as mudanças climáticas e eventos extremos no Pantanal

No início da década passada, a Ecoa entendeu que deveria preparar-se para um novo ‘clima’ nos territórios em que atua, particularmente no Pantanal: o dos eventos climáticos extremos. Tal entendimento veio da percepção empírica trazida por vários trabalhos de campo e observações sobre o papel das ações humanas e seus reflexos diretos e indiretos sobre o conjunto os ecossistemas da planície pantaneira.

No Pantanal as características ambientais sempre moldaram as atividades econômicas, particularmente o regime de cheias e secas anuais. As águas da bacia do Alto rio Paraguai e os biomas que o cercam fazem da região uma “joia da biodiversidade da América do Sul”, como apontado pelo National Geographic.

Entre 2019 e 2021, a região foi marcada por baixa precipitação na bacia do Alto Paraguai (BAP), condição essencial para que seus grandes rios extravasem e as águas ocupem territórios suficientes para servir como barreira para o fogo vindo das fazendas de gado, prática que se tornou comum depois da chegada dos pecuaristas na segunda metade do século 19, ocupação gradativamente mais ampla dos territórios do que em tempos anteriores. A prática de uso do fogo para limpa de pastagens sempre preocupou a Ecoa devido ao impacto sobre a biodiversidade e os danos para a saúde humana. Em 2020 foram mais 4 milhões de hectares devastados por incêndios, situação criada pela convergência entre a ação humana e situação uma seca muito forte.

Os imensos desastres para a vida causados pelos incêndios foram crescentes ano a ano – cidades cobertas por fumaça por meses passaram a ser comuns – e por essa razão a Ecoa lançou uma primeira campanha denominada “Queimada Mata” e a seguir, na primeira década do século, deu um passo à frente, iniciando com o Prevfogo/Ibama e Corpos de Bombeiros a formação de Brigadas Comunitárias de combate aos incêndios, devidamente equipadas, como uma ‘ferramenta’ para que, em diferentes regiões, as pessoas estivessem preparadas para fazer o primeiro combate ao fogo. A importância das brigadas ficou demonstrada logo de início quando uma delas, a da Comunidade Barra do rio São Lourenço, atuou fortemente para salvar o Parque Nacional do Pantanal de incêndios devastadores. Hoje são 15 brigadas comunitárias que se mostraram fundamentais para a luta contra o fogo nos anos de 2019 e 2020, como mostrado pelo jornal Folha de São Paulo, retratando os brigadistas como heroicos.

Fotos: Victor Sanches

A importância das brigadas ficou demonstrada logo de início quando uma delas, a da Comunidade Barra do rio São Lourenço, atuou fortemente para salvar o Parque Nacional do Pantanal de incêndios devastadores. Hoje são 15 brigadas comunitárias que se mostraram fundamentais para a luta contra o fogo nos anos de 2019 e 2020, como mostrado pelo jornal Folha de São Paulo, retratando os brigadistas como heroicos.

Registro importante: a estratégia da Ecoa, originada, como visto, na primeira década desse século, foi abraçada por outras organizações e pecuaristas em 2021, ampliando o número e a presença de brigadistas em várias regiões.