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G1

Pandemia pode causar alta no consumo de álcool no médio prazo, aponta pesquisa

Publicado em 20 maio 2020

Por André Julião, da Agência FAPESP

Os autores alertam para um possível aumento da violência doméstica pelo fato de o consumo se dar mais dentro das residências.

A pandemia de coronavírus pode diminuir no curto prazo e aumentar no médio e longo prazos, aponta uma pesquisa publicada no começo de maio na revista "Alcohol and Drug Review".

Sete pesquisadores assinam o estudo. Eles são do Brasil, Canadá, Estados Unidos e África do Sul, e pertencem a entidades como a Organização Mundial da Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde . Eles se basearam em dados referentes ao consumo de álcool de crises de saúde e financeira dos últimos anos.

“Com as restrições atuais em oferta de álcool, o cenário mais previsível é o segundo, e os problemas do primeiro devem ser mais relevantes no médio e longo prazos”, afirmaram.

Será importante, dizem eles, monitorar o nível de consumo durante e após a pandemia para entender o efeito em diferentes grupos e distinguir essas populações entre as que aparecerem a partir de políticas de controle que já existem.

O momento dos efeitos precisa ser levado em conta: alguns impactos podem ser imediatos, durante a crise, quando há restrição financeira e menos oferta de álcool, já que os bares estão fechados.

Outras consequências devem acontecer em meses ou mesmo anos.

A carga psicológica da pandemia pode ser forte, especialmente para homens, de acordo com a literatura científica. No entanto, a restrição orçamentária e mecanismos de controle têm efeito em todas as subpopulações.

Não há evidência empírica do efeito da deterioração da situação econômica, do medo por perder emprego e mais tempo livre.

A epidemia de Sars na China em 2003 teve um efeito de alta depois de um ano. Em Hong Kong, depois de 12 meses, 4,7% dos homens estavam bebendo mais, e 14,8% das mulheres.

Funcionários de um hospital de Pequim passaram a usar mais álcool depois de três anos.

Ou seja, dois estudos apontam uma alta depois de um prazo médio e longo.

O que isso significa para a pandemia de Covid-19? Os autores dizem que esperam que o nível de uso caia no futuro imediato. Os governos podem relaxar as restrições em entrega e vendas pela internet. Dada a história de controle do uso de álcool em países ricos, essas facilidades podem se manter depois da pandemia, o que pode aumentar o consumo.

A crise econômica de 2008 não teve impacto no consumo global –ao menos não até 2017.

Os autores alertam para um possível aumento da violência doméstica pelo fato de o consumo se dar mais dentro das residências.

No Brasil

No Brasil, onde não há controle sobre acesso a bebidas alcoólicas, diz a pesquisadora Zila Sanchez, uma das autoras do estudo, e o consumo pode aumentar mesmo durante a pandemia.

“Há quem veja no álcool uma forma de se ‘automedicar’ para tratar a ansiedade”, afirma.

Outros países, como a África do Sul, restringiram a venda, segundo ela. A ideia não é proibir ou acabar com o consumo, mas, sim, controlar.

Há um perigo imediato em aumento da violência doméstica na situação brasileira, afirma Sanchez, e, a longo prazo, o risco é o de uma alta na dependência.