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Agência USP de Notícias

Palestrantes defendem novo modelo de gestão de pessoas na Universidade

Publicado em 14 outubro 2008

Por Tiago Ribas / USP Online

Nesta terça-feira (14) foi aberto o segundo módulo do workshop Planejando o Futuro: USP 2034, realizado na sala do Conselho Universitário, na Reitoria da Universidade. O evento, que faz parte das comemorações dos 75 anos da USP, visa planejar estratégias para que a instituição chegue ao seu centenário ainda mais consolidada entre as melhores instituições de ensino superior existentes.

“Gestão Universitária” foi o tema das palestras no período da manhã. Na abertura do workshop, Glaucius Oliva, presidente da Comissão de Planejamento e professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), lembrou que este planejamento era “a oportunidade de tornar a USP um paradigma universitário para o Brasil e para o mundo”.

Joel Souza Dutra, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), foi o primeiro a falar. Especialista em recursos humanos e gestão de competência, ele lembrou que o desenvolvimento de uma instituição só se dá com o desenvolvimento dos profissionais que trabalham nela, destacando a importância da USP e de seus funcionários buscarem juntos esta meta.

Para Dutra, o sistema de trabalho nas universidades atualmente é diferente do que era no passado. Antigamente, as pessoas definiam suas carreiras e permaneciam nelas até a aposentadoria. Hoje, segundo o professor, “cada vez mais as pessoas entram e saem de um trabalho, mudam de carreira, têm carreiras paralelas. Mesmo professores universitários vêem a carreira acadêmica como uma segunda ou terceira carreira, ou então começam na carreira acadêmica e depois saem para outras áreas”.

Ele também ressaltou a importância de se desafiar os funcionários, mantendo neles o estímulo para o desenvolvimento pessoal. Para o docente, os professores não necessitam de tanto estímulo, pois as próprias pesquisas os mantêm estimulados. Mas o mesmo não acontece com os funcionários da Universidade. Ele defendeu a criação de um sistema de gestão de pessoas que pense no desenvolvimento dos funcionários e premie as pessoas que realmente ajudam no desenvolvimento da Universidade.

Foi então a vez do professor Pedro Antônio de Melo, vice-diretor do Instituto de Pesquisa e Administração Universitária (Ipau) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), fazer sua exposição sobre gestão administrativa. Ele destacou a complexidade da administração de uma universidade e lembrou que as universidades são, essencialmente, instituições burocráticas, o que não deveria ocorrer.

Melo definiu cinco pontos principais que deveriam nortear o desenvolvimento da USP nos próximos 25 anos. O primeiro seria a “gestão da mudança”, que consiste em preparar as pessoas para as mudanças que devem acontecer e fazer com que elas ajudem a tornar os projetos de mudança em realidade. O segundo ponto destacado foi a abertura e internacionalização da Universidade, que consiste em: divulgar e difundir a marca USP internacionalmente; aumentar a cooperação científica internacional, principalmente com nações do oriente; trazer professores e pesquisadores de outros lugares do mundo; e conhecer outros sistemas de gestão universitária. O terceiro ponto diz respeito à implementação de uma cultura empreendedora na gestão de pessoas, profissionalizando a gestão, criando um sistema de capacitação de docentes para a gestão e desburocratizando e descentralizando a estrutura universitária. O quarto ponto, intitulado “gestão da ciência para o desenvolvimento sustentável”, defende a transferência dos conhecimentos obtidos na Universidade para gerar uma melhora na qualidade de vida geral, aumentando a participação da USP na sociedade. O último ponto, “interação com a sociedade”, lembra o compromisso social da Universidade e estabelece como objetivo das pesquisas a diminuição da miséria mundial.

O professor afirmou ainda que “a USP sempre foi - e continuará sendo - o caminho para o desenvolvimento do país, da América Latina e, quem sabe no futuro, do mundo”.

Após a apresentação, o professor Filipe Cassapo, superintendente da Fundação Nacional de Qualidade (FNQ), conceituou o conhecimento como um recurso estratégico agregando valor à organização. Ele defendeu a criação de uma rede de conhecimento que proponha idéias para o desenvolvimento da gestão, e lembrou que as rápidas mudanças no mundo fazem com que as organizações sejam obrigadas a mudar.

"Em uma universidade, é necessário pensar meios de tornar o conhecimento em um valor real. Por isso ele não pode ser armazenado como uma coisa - tem que ser compartilhado. Se eu tenho um lápis e alguém tem um lápis, nós temos dois lápis. Com o conhecimento isso não acontece. Se eu tenho uma idéia e alguém tem uma idéia, nós podemos ter várias idéias. Eu posso compartilhar minha idéia com alguém e desenvolver várias outras”, refletiu Cassapo. Para ele, a Universidade deve criar condições para a geração, transferência e aplicação do conhecimento, possibilitando assim sua socialização e o surgimento de novas idéias.

O último expositor foi o diretor da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e membro do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), professor Eduardo Moacyr Krieger, que falou sobre as fontes de financiamento da Universidade.

Ele destacou o grande gasto da USP com pessoal (cerca de 80% do orçamento) e lembrou que a Universidade tem 25% de seu orçamento proveniente de financiamento externo de pesquisa, mais do que muitas universidades do mundo. Mas lembrou a pequena participação das empresas privadas nesse tipo de financiamento: apenas 10% dos investimentos externos para pesquisa vêm desse tipo de empresa.

Por isso, Krieger acredita que as fontes de recursos a serem exploradas pela Universidade são as empresas de capital privado. Não se pode esperar um aumento substancial do setor público, que, quando comparado aos dados de outros países, investe uma boa porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) em ciência e tecnologia. Lembrou porém, que para as empresas do setor privado investirem na Universidade é necessário que a USP acompanhe as demandas de ciência e tecnologia da sociedade - coisa que não acontece como deveria. A evidência disso é a porcentagem do orçamento da USP proveniente das patentes: apenas 0,0001%.

Após a última apresentação, foi aberto espaço para perguntas do público. Em suas respostas, os membros da mesa defenderam um aumento no registro de patentes pela USP, parcerias com o setor privado e também uma maior profissionalização na administração da Universidade.