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O Debate - Diário de Macaé online

Países precisam se adaptar às mudanças climáticas

Publicado em 07 abril 2014

Por Martinho Santafé

De acordo com o Relatório sobre Impactos Adaptação e Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), os efeitos das mudanças climáticas já são percebidos e sentidos em diversos países e regiões do mundo, inclusive no Brasil. É necessário, portanto, que os governos comecem a implementar de forma urgente medidas de mitigação e adaptação para diminuir a vulnerabilidade de suas populações e de setores econômicos às variações do clima.

Apresentado nesta semana na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, o documento, com 44 páginas, é um resumo do relatório de cerca de mil páginas sobre impactos, adaptação e vulnerabilidades climáticas preparado pelo IPCC e apresentado no domingo passado em Yokohama, no Japão.

"O relatório foi escrito especialmente para os tomadores de decisão dos países", disse José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos 1.719 autores do relatório geral. Marengo é o único representante brasileiro que redigiu a conclusão do sumário para formuladores de políticas.

"Uma das principais mensagens do documento é que as mudanças climáticas já estão acontecendo e afetando as populações. Não vamos precisar esperar mais 20 ou 30 anos para ver a ocorrência de eventos climáticos extremos, como inundações ou secas intensas e ondas de calor, como as que temos observado no Brasil nos últimos anos", afirmou Marengo, durante o evento.

De acordo com o pesquisador, esses fenômenos climáticos extremos vivenciados neste e em outros países têm ajudado a entender a magnitude das variações do clima e estimulado as nações a adotarem medidas de adaptação.

O Brasil implantou um programa de agricultura de subsistência no Nordeste de melhoramento de plantas adaptadas às mudanças climáticas e tem se dedicado a conservar seus principais ecossistemas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, por meio do estabelecimento de corredores biológicos.

O país, contudo, precisa implementar ações de adaptação permanentes, que solucionem, de forma definitiva, problemas relacionados às mudanças climáticas que afetam a população, segundo Marengo.

"A primeira etapa para a adaptação é reduzir a vulnerabilidade à exposição ao clima no presente e isso está acontecendo no Brasil de forma lenta", avaliou. "A população no Nordeste é afetada frequentemente pela seca, um problema que sempre ocorreu na região."

Algumas medidas de adaptação à seca que têm sido implementadas no Nordeste são a construção de cisternas para acumular a água de chuvas, exemplificou o pesquisador.

O problema, no entanto, é que, quando a seca perdura muito tempo, como tem acontecido na região nos últimos anos, não há como acumular água porque quase não há estação chuvosa, avaliou.

"A adaptação às mudanças climáticas têm de ser uma medida permanente. Não é algo que se resolve agora, sobre um determinado problema climático que afeta uma população, e depois, no próximo ano, se avalia o que pode ser feito caso o problema volte a surgir", afirmou.

Capacidade de adaptação ainda é baixa

De acordo com os pesquisadores autores do relatório, a capacidade de adaptação às mudanças climáticas dos países das Américas do Sul e Central nos últimos anos melhorou, em parte em razão de iniciativas implantadas por algumas nações, mas também por causa da redução da pobreza.

As condições socioeconômicas nas Américas do Sul e Central melhoraram, ainda que em um ritmo lento, desde a publicação, em 2007, do Quarto Relatório de Avaliação (AR4) do IPCC, apontaram os pesquisadores.

Há ainda, contudo, um elevado e persistente nível de pobreza e de desigualdade socioeconômica na maioria dos países das duas regiões, que resulta em dificuldades de acesso à água potável, saneamento e habitação adequada, especialmente para os grupos mais vulneráveis.

Esse conjunto de fatores contribui para a baixa capacidade de adaptação às mudanças climáticas dessas populações, indica o relatório. "As mudanças climáticas deverão afetar, em maior parte, as populações mais pobres e situadas nas regiões mais tropicais do planeta", disse Marengo.

O relatório ressalta que as projeções climáticas realizadas após o AR4 preveem aumento de temperatura de 1,7 ºC a 6,7 ºC na América do Sul e entre 1,6 ºC a 4 ºC na América Central em 2100.

Já as chuvas devem diminuir em 22% no Nordeste do Brasil e entre 22% a 7% na América Central também em 2100. Por sua vez, aumentarão os períodos de seca na região tropical da América do Sul e leste dos Andes, e a frequência de dias e noites quentes na maioria das regiões da América do Sul.

Ainda de acordo com o relatório, deverá aumentar a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos, como secas persistentes, chuvas fortes e inundações.

Alguns possíveis impactos dessas alterações climáticas nas duas regiões serão a extinção de hábitats e de espécies significativas, principalmente na região tropical da América Latina; substituição de florestas tropicais por savanas e vegetação semiárida por árida; aumento do número de pessoas em situação de estresse hídrico (com falta de água); e aumento de pragas em culturas agrícolas e de doenças, como a dengue e malária nas populações.

"Os maiores impactos das mudanças climáticas na América do Sul deverão ser na segurança hídrica e alimentar e na saúde da população", avaliou Marengo.

Mudanças no uso da terra

Segundo os pesquisadores autores do relatório, as mudanças no uso da terra nas duas regiões - como o desmatamento e a degradação ambiental - contribuem significativamente para a piora ambiental e deverão agravar os impactos negativos das alterações climáticas.

Apesar das taxas de desmatamento na Amazônia terem diminuído substancialmente desde 2004 para uma média de 4.656 quilômetros quadrados em 2012, regiões como o Cerrado brasileiro ainda apresentam altos índices de desmatamento, com taxas médias de 14.179 quilômetros quadrados por ano no período de 2002 a 2008, aponta o relatório.

"Os riscos das mudanças climáticas podem aumentar com a elevação das emissões de gás carbônico geradas pela queima de combustível fóssil", disse Marengo.

Os altos níveis de desmatamento e degradação do solo observados na maioria dos países da região são atribuídos, principalmente, à expansão da agricultura extensiva e intensiva para atender a crescente demanda mundial por alimentos.

As duas atividades que tradicionalmente dominam a expansão agropecuária da América do Sul são a soja e a carne, no Brasil, e algumas das áreas mais afetadas pela expansão da fronteira agrícola no país estão nas bordas da Floresta Amazônica, no Brasil, Colômbia, Equador, Peru e nos Andes tropicais.

"É importante considerar as necessidades políticas e legais para manter esse processo de mudança de terra em grande escala sob controle tanto quanto for possível", destaca o relatório.

Na avaliação dos pesquisadores brasileiros, autores do relatório, uma das mudanças sensíveis do Quinto Relatório do IPCC em relação ao AR4 é o foco em adaptação e mitigação.

Para cada projeção de mudanças climáticas para diversas partes do mundo feita no relatório há indicações de ações de adaptação e mitigação, destacou Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do capítulo 27 do relatório, sobre os impactos das mudanças climáticas nas Américas do Sul e Central.

"O relatório deixa muito claro que o problema das mudanças climáticas é irreversível e, portanto, é necessário adotar e implementar medidas adaptativas", disse Buckeridge, à Agência FAPESP.

"A fase de mitigação está diminuindo e a de adaptar está chegando, porque os países não conseguiram fazer mitigação dentro do que era necessário para que os impactos diminuíssem", avaliou.

Além de Buckeridge e Marengo, outros pesquisadores brasileiros que participaram da elaboração do relatório do IPCC foram Carlos Afonso Nobre, secretário de Políticas e Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); Maria Assunção Silva Dias, da USP; Carolina Dubeux, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Fábio Scarano, da Conservação Internacional; Jean Pierre Ometto, do Inpe, e Daniel Nepstad, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Especialistas defendem racionamento de energia Usina hidrelétrica de Itaipu Binacional

De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste - responsáveis pela geração de 70% da energia consumida no país - estão com 36% da capacidade máxima. E admitiu que, se não chegarem a 43% no final de abril, o resto do ano será complicado.

A preocupação existe, e o governo parece não conseguir esconder. Em entrevista ao jornal americano Wall Street Journal no final de março, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, chegou a dizer que, caso as reservas das hidrelétricas não aumentassem nos próximos meses, o governo iria pedir à população que reduzisse o consumo de energia.

A declaração de Lobão logo foi desmentida pelo Planalto. Mas especialistas dizem que racionamento não é apenas uma possibilidade real, como também, se aplicada de forma gradual desde já, poderia evitar problemas mais sérios no final do ano - a exemplo do que aconteceu em 2002, quando o governo se viu forçado a decretar duras medidas para reduzir o consumo.

"Mesmo com o período de chuvas ao longo do mês de março, os reservatórios dessas regiões subiram somente 1,7%, num mês em que se esperava que o nível fosse aumentar muito mais", diz Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, especializado no sistema elétrico brasileiro. "Dificilmente podemos esperar que a chuva seja tão forte e traga os reservatórios para o patamar de 43%".

Por essa razão, vários especialistas afirmam que o governo federal já deveria incentivar desde agora uma redução voluntária de pelo menos 5% de energia. Assim, consumidores residenciais e empresas não seriam atingidos de surpresa, no fim do ano, por um racionamento de 20% ou mais.

"O governo deveria se comunicar melhor com a sociedade para que ela tenha clareza e possa se mobilizar na direção da economia de energia", diz Sales. "Isso é uma crítica que faço ao governo: ele continua tentando dar a entender que tem segurança absoluta com relação ao abastecimento, coisa que os números provam o contrário." Em 2002, governo se viu forçado a decretar duras medidas para reduzir consumo

Para Roberto Schäffer, professor de planejamento energético da Coppe/UFRJ, o Brasil está entrando numa zona perigosa.

Segundo ele, a situação atual está exigindo que o governo federal acione as usinas térmicas em níveis mais elevados do que até agora, já que os reservatórios estão mais baixos do que historicamente estariam nesta época do ano.

"Neste momento, a chance de faltar energia no Brasil é maior do que nos anos anteriores. Parece pouco provável que exista um racionamento ou falta de energia antes ou durante a Copa do Mundo. O que me preocupa mais é o período após o Mundial", afirma Schäffer. "Eventualmente o Brasil quer passar uma impressão internacional de que está tudo bem, mas depois do Mundial devem vir medidas mais duras."

Com os reservatórios das hidrelétricas baixos e o sistema elétrico operando no limite, o governo vem sendo forçado a usar com mais frequência as termelétricas, que costumam ser acionadas apenas sazonalmente e são mais caras e poluentes.

Atualmente, mais de 17.500 dos 21.670 megawatts disponíveis nas termelétricas estão em operação. De acordo com Ildo Luís Sauer, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), o custo da energia proveniente das usinas hidrelétricas e eólicas é de cerca de 100 reais por megawatt-hora (MWh). Já nas termelétricas, o valor ultrapassa os 800 reais por MWh.

"Isso gera um elevado custo para o país. São bilhões de reais sendo gastos em combustíveis, como óleo diesel e gás natural importado, num momento de estresse no mercado mundial", diz Sauer. "Além disso, há o problema das emissões ambientais elevadas por causa da queima desses combustíveis. O alto custo esvazia recursos do Tesouro Nacional que deveriam ser destinados a outras prioridades".

Como os custos extras estão ficando maiores, é provável que o Tesouro Nacional fique com a parcela mais elevada do uso da energia termelétrica e, assim, o repasse para o consumidor final seja menor