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“Países não levam mudanças climáticas a sério”, diz especialista

Publicado em 28 maio 2021

Por Lucas Agrela

O aquecimento global não é um tema novo para empresas e especialmente para pesquisadores. O assunto é estudado, pelo menos, desde os anos 1970, quando foi detectado aumento na temperatura do planeta, relacionado ao conjunto de fenômenos conhecido como mudanças climáticas. Um dos principais pesquisadores sobre o tema é Stefan Rahmstorf, professor do Instituto Potsdam de Pesquisa dos Impactos do Clima, na Alemanha.

Participante do 9º Diálogo Brasil-Alemanha sobre Ciência, Pesquisa e Inovação, realizado na última semana pela Fapesp e pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo, Rahmstorf lembra que ondas de calor podem causar tantas mortes quanto uma pandemia, como aconteceu na França, em 2003, quando 70 mil pessoas morreram devido à alteração climática.

Mesmo com a existência de tratados de redução de emissões de carbono, como o Acordo de Paris, o especialista não acredita que os países levem a sério a necessidade de medidas para mitigação dos efeitos negativos das mudanças climáticas, o que pode gerar problemas para cidades costeiras, ondas de calor em cidades e morte de corais.

“A pandemia do novo coronavírus mostrou claramente que você ignora a ciência por sua conta e risco. É bom discordar e debater sobre as melhores políticas, mas elas devem sempre ser baseadas na compreensão da realidade, e não na negação de verdades inconvenientes”, afirma. Para o pesquisador, a única saída para barrar o aquecimento global é parar o desmatamento e deixar de usar combustíveis fósseis, desse modo, evitando os efeitos das emissões de carbono na atmosfera.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva de Rahmstorf para a EXAME.

EXAME: Na sua visão, quais são os principais riscos para cidades envolvidos na elevação do nível do mar?

Stefan Rahmstorf: Dois efeitos estão preocupando as cidades costeiras já hoje. Em primeiro lugar, o risco aumentado de inundações causadas por tempestades Um exemplo disso foi supertempestade Sandy, em Nova York, que teve a maior parte dos danos atribuída ao aumento do nível do mar. Em segundo lugar, a chamada ‘inundação incômoda’, que ocorre especialmente durante as marés altas, mesmo sem uma tempestade, e pode inundar partes baixas das cidades. No longo prazo, a elevação do nível do mar incorrerá em custos massivos de proteção costeira ou forçará a realocação de muitos milhões de pessoas, dependendo das condições locais.

Você acredita que os países levam a mitigação das mudanças climáticas a sério o suficiente hoje em dia?

Obviamente, não. As emissões globais ainda estão aumentando, embora precisem ser cortadas pela metade na próxima década para atingir as metas do Acordo de Paris.

Quais políticas da Alemanha ajudam a prevenir o aquecimento global e poderiam (ou deveriam) ser aplicadas em todos os países, como o Brasil?

A Alemanha está no meio de uma transição energética dos combustíveis fósseis para fontes de energia renováveis. Nosso fornecimento de eletricidade ultrapassou 50% das renováveis ??no ano passado. A única maneira de parar o aquecimento global é abandonar as fontes de energia fóssil e parar o desmatamento, já que essas são as duas principais causas do aquecimento global.

Qual a sua opinião sobre a política de mudanças climáticas adotada pelo governo brasileiro atualmente?

Não sou nenhum especialista em política brasileira, mas absolutamente fundamental para o Brasil é proteger a floresta tropical remanescente. Caso contrário, o país pode cruzar um ponto de inflexão, levando a grandes problemas de seca e morte florestal.

O que precisa ser feito por governos, empresas privadas e cidadãos em todo o mundo que ainda não está sendo feito ou não seja feito suficientemente para reduzir os riscos das mudanças climáticas?

Governos e empresas devem levar a sério o que foi decidido por unanimidade no Acordo de Paris, após décadas de discussão e negociação. Todos devem fazer um plano e implementar medidas concretas para reduzir as emissões de dióxido de carbono a zero até 2050, no máximo. A hora de começar é agora.

Como o aquecimento global pode impactar a vida marinha?

Já estamos no meio da – há muito prevista – morte mundial dos corais, e praticamente nenhum recife de coral sobreviverá nem mesmo a 2° C de aquecimento global. Da mesma forma, o ecossistema do Oceano Ártico está passando por uma transformação completa, visto que a cobertura de gelo do mar no verão já encolheu pela metade nas últimas décadas e provavelmente desaparecerá em mais algumas décadas. Além disso, temos a acidificação dos oceanos, porque um quarto do CO2 fóssil que adicionamos à atmosfera é dissolvido na água do mar e forma ácido carbônico. Isso ameaça as cadeias alimentares marinhas, uma vez que todo microplâncton que forma conchas de carbonato de cálcio enfrenta dificuldades crescentes. No extremo, as águas do oceano ficarão tão ácidas que as conchas do mar se dissolverão.

Quais são os riscos para a sociedade relacionados ao aumento da descrença na ciência?

A pandemia do novo coronavírus mostrou claramente que você ignora a ciência por sua conta e risco. É bom discordar e debater sobre as melhores políticas, mas elas devem sempre ser baseadas na compreensão da realidade, e não na negação de verdades inconvenientes.

Movimentos como Fridays for Future (movimento internacional de estudantes que faltam às aulas nas sextas-feiras para exigir transição energética e ações para evitar as mudanças climáticas) realmente podem aumentar a conscientização sobre a importância das mudanças climáticas?

Com certeza. Isso certamente aconteceu na Alemanha, onde de repente quase todos os partidos viraram grandes apoiadores da política climática (ou pelo menos dizem isso), e medidas políticas foram decididas de forma que seria impensável alguns anos atrás.

Observamos uma queda de 7% nas emissões de carbono durante o lockdown, no ano passado, para controlar a pandemia covid-19. O que podemos aprender com esse evento para lidar com a emissão de carbono no longo prazo?

A lição é que precisamos de mudanças estruturais para colocar a crise climática sob controle. Ficar em casa e reduzir o ritmo da economia, como aconteceu durante a pandemia, tem um impacto mínimo nas emissões de CO2. A chave para deter o aquecimento global é transformar todo o nosso sistema de energia em fontes livres de carbono e preservar sumidouros naturais de carbono, como as florestas. Mas acho que a lição principal realmente é: leve a ciência a sério.

Fonte: Exame