Notícia

Jornal do Brasil

PAÍS JÁ TEM BANCOS DE TECIDOS

Publicado em 16 junho 1996

Por ALICIA IVANISSEVICH
Os brasileiros contam com uma nova alternativa para recuperar partes de tecido perdidas em cirurgias, acidentes ou doenças degenerativas. Nada de próteses metálicas ou intervenções biônicas. São ossos, cartilagens e tendões humanos que podem ser transplantados com alta probabilidade de êxito e baixo índice de rejeição. O Banco de Tecidos do Hospital das Clinicas, de São Paulo, inaugurado há pouco mais de um ano, acumula até agora, como pioneiro na área, cinco operações - todas bem-sucedidas. "Começamos a trabalhar no projeto do banco em 1993, mas só no ano passado pudemos fazer o primeiro transplante", conta o ortopedista José Otávio C. Teixeira, responsável pelo Banco de Tecidos do Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo (USP). Teixeira diz que os transplantes são indicados em diversos casos. "As pessoas que foram submetidas a várias cirurgias perdem massa óssea. Isso é comum nos pacientes que trocam a articulação entre o fêmur e a bacia por uma prótese: o osso é gradativamente reabsorvido (atrofiado) pelo movimento da prótese e, sobretudo, pelo peso que sustenta", exemplifica o médico. "Já o osso humano é mais facilmente aceito pelo organismo." Artrite - Pessoas com artrite, principalmente no quadril, também se beneficiam com o transplante. Teixeira lembra que a população brasileira está envelhecendo e que, aos 75 anos, de 80% a 90% das pessoas têm artrite. "A colocação de próteses nesses casos é muito comum, mas elas só duram 10 anos, enquanto que o transplante ósseo é para o fim da vida", destaca. Para poderem ser estocados no banco, os ossos passam por um processo de liofilização: são desidratados como comida de astronautas. Os restos de células que poderiam vir a causar rejeição também são retirados. Sobram apenas a estrutura colágena e o cálcio. Só então os ossos são irradiados para sua esterilização e empacotados a vácuo. Esses procedimentos evitam que se deteriorem e possam ser armazenados por até cinco anos. "Quando o transplante é indicado para um paciente traça-se o plano cirúrgico: estudamos que ossos serão usados na operação e, em seguida, os esculpimos para obter o tamanho e o formato desejado", explica Teixeira. O ortopedista da USP lembra que o colágeno - o tecido que forma todas as estruturas de sustentação do corpo, como ossos, cartilagens e tendões - é muito parecido dentro da espécie humana. Por isso, a probabilidade de rejeição é muito baixa. De 5% a 10% dos que recebem transplantes podem ter problemas de reabsorção. "Isso ocorre quando o receptor ataca o tecido transplantado, destruindo-o até desaparecer. Mas, nesses casos, pode-se planejar uma nova cirurgia", diz Teixeira. Operações - Desde que foi inaugurado, o Banco de Tecidos já realizou cinco transplantes. Houve dois casos de substituição de quadril. "As pessoas estão andando normalmente", comenta o médico responsável. Outro paciente, vítima de atropelamento, recebeu um liga-mento cruzado de joelho. Outra pessoa teve 50% de seu fêmur reconstituído. O último caso foi o de um paciente que leve um tumor no fêmur quando criança e perdeu massa óssea. O buraco formado pelo tumor foi preenchido com osso. A doação de tecidos é feita após a morte do paciente. O ortopedista tranqüiliza aqueles que pensam que os corpos ficam destruídos após a retirada do material: "O cadáver não é desmontado: todas as partes do esqueleto recolhidas são substituídas por estruturas de madeira". O Banco de Tecidos se prepara agora para fazer as culturas de cartilagem. Elas são importantes para que as articulações funcionem sem atrito. '"Uma vez perdida, a cartilagem não se recupera", avisa Teixeira. "Esperamos que, dentro de um ano, tenhamos toda a estrutura montada", diz. Ele adianta que a capacidade de estoque do banco - bastante pequena - vai ser ampliada em breve. HTO é pioneiro no Rio No próximo dia 26 será inaugurado o primeiro banco de ossos do Rio de Janeiro, no Hospital de Traumato-Ortopedia (HTO). O novo serviço possibilitará os transplantes de ossos, indicados em certos tipos de tumor ósseo, na troca de prótese e em acidentes com grandes perdas ósseas. "Pretendemos em breve fazer a distribuição dos ossos para que outros hospitais também possam realizar transplantes", revelou o coordenador do HTO, o ortopedista Edilberto Ramalho. Além de reativar o banco, o HTO - que já teve um banco de ossos entre 1989 e 1992 - vai reinaugurar as novas salas de cirurgia de ortopedia, equipadas para fazer intervenções de grande porte, como a de coluna e de enxerto. "A meta do hospital é diminuir o tempo entre as cirurgias para 20 minutos e, desse modo, atender um número maior de pacientes", conta Ramalho. Na maioria dos hospitais públicos o intervalo entre as operações é de uma hora e meia. As doações dos ossos usados nos transplantes do HTO serão coordenadas pelo Rio Transplante, órgão da Secretaria de listado e Saúde. "Quando recebemos um aviso de que uma pessoa está com morte cerebral, em qualquer hospital público do Rio, vamos até lá para fazer a retirada dos ossos, se a família autorizar", explica o vice-coordenador do Rio Transplante e chefe do serviço do banco de ossos do HTO, o ortopedista Sérgio Côrtez. Ele explica que diversos exames são realizados para comprovar a morte cerebral e que a doação pode ser feita até seis horas após a morte. "Depois da retirada, é feita uma reconstituição do cadáver com ossos plásticos", afirma. Antes dos ossos serem utilizados nos transplantes são feitos vários exames para verificar se existe alguma infecção no tecido. "Só então ele está preparado para ser usado", conclui.