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'Pai da Luzia' cria núcleo para popularizar informações sobre a evolução humana

Publicado em 13 janeiro 2021

Por Silvana Salles | Jornal da USP

O bioantropólogo Walter Neves conta que sempre dedicou parte de seu tempo à divulgação científica. Mas foi apenas depois de se aposentar como professor do Instituto de Biociências (IB) da USP que ele pôde desenvolver essa atividade sem ter de lidar com o julgamento de colegas que viam o esforço de popularização da ciência como uma perda do tempo destinado às aulas e à pesquisa.

Ele é conhecido como o “pai da Luzia”, por seus estudos com o fóssil humano de cerca de 11 mil anos. O crânio de Luzia foi encontrado em uma escavação em Lagoa Santa, Minas Gerais, na década de 1970

“Quando tem um corte de verba no CNPq, na Capes, na Fapesp, aí os cientistas (dizem) ‘temos que procurar o apoio da população’. Como procurar o apoio da população? Nunca perdeu cinco minutos do seu tempo para levar sua ciência para o povo, como é que você vai querer ter o apoio da população?”, afirma Neves, que desde 2018 trabalha no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, onde acaba de criar o novíssimo Núcleo de Popularização dos Conhecimentos sobre Evolução Humana.

O objetivo central do novo núcleo é levar conhecimentos científicos sobre a evolução da nossa espécie ao maior número possível de pessoas. Nesse sentido, a equipe desenvolverá ações para escolas públicas, estudantes de graduação e para o público geral.

Walter Neves pretende montar pequenas exposições em shopping centers, que têm alta circulação de pessoas e seguem abertos durante a pandemia de Covid-19. Ele entende que esse tipo de ação é uma contribuição importante, ainda que modesta, para combater o negacionismo e o anticientificismo que circulam pelo país junto com o coronavírus.

“Nós estamos vivendo um momento muito paradoxal. Nunca houve tanto negacionismo científico no país, realmente estamos vivendo um momento de trevas. Mas, por outro lado, por causa da pandemia, também nunca se falou tanto em ciência e nunca se falou tanto em cientistas. Eu acho que a gente deve aproveitar o lado bom. Com a pandemia, as pessoas estão valorizando a ciência e estão valorizando os cientistas.”

Para quem dedicou toda a vida profissional à biologia evolutiva, combater o negacionismo científico significa fazer o contraponto às ideias criacionistas.

“Eu tenho uma posição muito distinta dos meus colegas sobre essa coisa de criacionismo e evolucionismo. Eu acho que as pessoas atribuem significados às suas vidas de maneiras muito distintas. Algumas pessoas atribuem significado através da religião; outros, através da ciência. Eu acho que você optar por uma visão religiosa, ou seja, pelo criacionismo, ou você optar por uma versão científica, que é o evolucionismo, é uma decisão de foro íntimo. Mas eu acho que as pessoas têm que fazer isso de maneira informada”, diz.

O problema, ele avalia, é que enquanto os criacionistas estão fazendo um trabalho consistente para levar ideias religiosas à população, as ações da academia são insuficientes para popularizar os conhecimentos científicos.

“As pessoas já são expostas no seu cotidiano às ideias criacionistas, principalmente através das suas religiões fundamentalistas, mas elas não têm acesso ao que a ciência tem a dizer sobre o surgimento da espécie humana no planeta. Então, o núcleo, ainda que modestamente, quer contribuir para isso, para que as pessoas tenham acesso fácil ao que a ciência tem a dizer sobre a nossa existência no planeta”, diz Neves.

O Núcleo de Popularização dos Conhecimentos sobre Evolução Humana do IEA começa com nove integrantes — cinco professores e quatro estudantes — e se dedicará a promover exposições, cursos e palestras, todas gratuitas.

A iniciativa é uma grande novidade no IEA, onde a programação é, por norma, composta por “discussão acadêmica frenética”. “Acho que ninguém nunca lá propôs uma linha de popularização da ciência. Para minha grata surpresa, foi aprovado”, conta o professor aposentado.

Por serem atividades presenciais, a previsão é de que a programação pública do núcleo comece apenas no segundo semestre, devido às restrições impostas pela pandemia. Até lá, os integrantes aproveitarão o tempo para receber agendamentos e preparar os cursos e o catálogo de palestras, bem como planejar o acervo e a logística das exposições.

Uma das expectativas do grupo é a de produzir uma grande exposição sobre evolução humana na Avenida Paulista, em São Paulo. Walter Neves conta que o IEA negocia essa possibilidade com o Itaú Cultural desde 2019.

Enquanto o sonho não se concretiza, o núcleo já trabalha com a ideia de organizar uma pequena mostra itinerante em duas cidades do interior. Essa mostra deverá reunir o material que hoje está em exposição no saguão do IEA e inclui uma réplica do esqueleto completo da famosa Lucy, o fóssil de Australopithecus afarensis encontrado em 1974 na Etiópia.

 

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