Notícia

A Cidade (Ribeirão Preto)

‘Ovo de Colombo’ chega à Europa

Publicado em 18 novembro 2012

Um método brasileiro que mede a pressão interna da cabeça, sem furar o crânio – aferição necessária para impedir a morte do paciente – começa a ganhar o mundo: “É o ovo de Colombo. Depois de se colocar o ovo em pé, todo mundo acha fácil, só que ninguém pensou nisso antes” – define Maria Celeste Dias, médica intensivista da cidade do Porto, Portugal, que levará o método para o hospital onde trabalha. Ela participou durante dois dias, na ultima semana, junto com pesquisadores do Brasil, Inglaterra, Estados Unidos, Suiça e Coréia, no campus da USP de Ribeirão Preto, do 2° Workshop sobre pressão intracraniana.

O método minimamente invasivo, desenvolvido pelo professor Sérgio Mascarenhas Oliveira, da USP- -São Carlos, foi testado em mais de cem animais e em 14 pacientes do HC de Ribeirão Preto.

O apoio do professor Marek Czosnyka, da Universidade de Cambridge, maior autoridade mundial na área de clínica do cérebro, decisivo na aceitação do método, permitirá a criação de programas conjuntos com a universidade inglesa. Para o especialista, “esse método ajuda a decidir rapidamente o tratamento, em situações que não se pode fazer uso do método invasivo”

É possível monitorar a pressão do crânio de pacientes com traumas na cabeça ou em casos de patologias como hidrocefalia, infecções e tumores. Segundo o especialista inglês, com mais de 30 anos de experiência na área, o método desenvolvido pelo professor Mascarenhas “é coisa nova, diferente do que se faz no restante do mundo’. Luiza Lopes, profa. de neuroanatomia da Medicina USP de RP alerta: “Se a pressão dentro da cabeça ficar muito alta, o sangue que irriga o cérebro consegue entrar no crânio. O cérebro morre de fome e asfixiado, por falta de glicose e oxigênio’.

Para Marcos Signori, engenheiro do Ministério da Saúde, o interesse do Governo é atender as demandas do SUS de urgência e emergência, com baixo custo.

O método brasileiro, desenvolvido há seis anos por Sergio Mascarenhas Oliveira, chegará à Europa no ano que vem, com o apoio da USP, Federal de São Carlos, Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Fapesp, CNPq, Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde.

Custa dez vezes menos

O novo método é dez vezes mais barato que o convencional, utilizado em todo o mundo: a diferença é de R$ 5 mil para R$ 50 mil. O próximo passo é usar em pacientes atendidos por um hospital de São Paulo. O professor Sérgio Mascarenhas destaca que cerca de 50 mil pessoas morrem no Brasil por ano por causa do trânsito e que seu sonho é ver ambulâncias e atendimentos de emergência podendo medir a pressão do crânio logo depois do trauma. Com esse método basta uma pequena incisão no couro cabeludo.

Graças à hidrocefalia

Sergio Mascarenhas de Oliveira idealizou e participou da criação da Universidade Federal e da Embrapa agropecuária de São Carlos, entre outros institutos, em meio a uma carreira reconhecida internacionalmente, com descobertas e prêmios. Mas, aos 84 anos, se sente recompensado como poucas vezes na vida.

É idealizador e orientador de um projeto que trará benefícios sociais e coloca o País, nessa área, à frente do Primeiro Mundo. A pesquisa foi provocada por uma indignação, quando tiveram que furar seu crânio para aferir a pressão, por causa de uma hidrocefalia. Mascarenhas admite que se inspirou na engenharia de materiais. Em sua própria casa, acoplou um aparelho para medir a deformação das vigas de concreto a um crânio emprestado da Universidade. Simulou a pressão dentro do crânio, inflando uma bexiga na cavidade vazia e usando medidores de pressão arterial e de pressão de milímetros de mercúrio. Finalizou o projeto com uma equipe multidisciplinar.