Notícia

Cruzeiro do Sul

Ouvido biônico detecta vazamentos de água

Publicado em 15 agosto 2018

As grandes distribuidoras são responsáveis por uma prática arrojada de retirar água de um manancial e fazê-la chegar às torneiras das residências, a muitos quilômetros de distância — um sistema complexo, moderno, de alta tecnologia.

Porém, junto a ele, se mantém uma forma quase que arcaica de detectar quando essa água está sendo perdida, por causa de vazamentos nos canos. “É preciso uma pessoa com ouvido treinado, que vai passar pela rua escutando barulho de vazamento. Assim funciona no mundo todo, com a ajuda do geofone, uma espécie de estetoscópio de asfalto”, conta Marília Lara. E foi exatamente para desenvolver um aparelho deste tipo que ela, administradora de empresas, e o marido, o engenheiro eletrônico e matemático Antônio Oliveira, foram contratados há alguns anos, por meio da empresa na qual trabalhavam. “Quando a gente fez esse produto e começou a testar, vimos a dificuldade.

O Antônio propôs criarmos uma espécie de ouvido biônico. Foi quando decidimos trabalhar com isso. A gente sempre quis empreender, mas queria ter um propósito. Não queremos ganhar dinheiro por ganhar, queremos também mudar o mundo.” Essa história aconteceu há três anos e, de lá para cá, Marília e Antônio criaram a startup Stattus4, a incubaram no Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS) e hoje têm como objetivo ajudar a acabar com a escassez de água nos centros urbanos. “Quando decidimos fazer isso ainda não sabíamos se a perda de água era um problema. Descobrimos que sim, já que se perde por vazamentos cerca de 38% de água no Brasil.

Esse volume é capaz de abastecer todo o Estado de São Paulo e só 20% dele abasteceriam os 35 milhões de brasileiros que não têm acesso à água potável”, diz Marília. Para isso, o casal desenvolveu um sistema de inteligência artificial para encontrar vazamentos. Um sensor, ao ser encostado nos hidrômetros, emite após 15 segundo informações sobre a rede e aponta possíveis problemas. O dado é coletado com base na mesma informação — as vibrações diferentes produzidas nos casos de tubulação regular e com vazamento de água —, mas com maior precisão e de maneira eletrônica, com os resultados num mapa da região e produzindo um grande banco de dados.

Projeto em mãos, a startup bateu nas portas da Sabesp, de onde saiu com uma carta de intenção de compra, que significou a primeira oportunidade para investimentos — neste caso, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “Vendemos nossa casa em São Paulo, colocamos todo o dinheiro do projeto e viemos para Sorocaba.” Durante o ano passado, realizaram um projeto piloto na Águas de Votorantim e já chegaram a 100 mil amostras analisadas. Hoje, a Stattus4 coleciona prêmios de inovação, investidores, já existe comercialmente e comemora o contrato fechado com o município de Itabirito, em Minas Gerais. “O mundo inteiro tem os mesmos problemas e usa as mesmas tecnologias”, diz Marília, para quem, chegar até aqui, só foi possível com pitadas de insistência, troca de informações com outras pessoas e experiência obtida por meio do estudo a fundo daquilo que pretendiam gerar. Essas características, neste momento, voltam a ser exigidas, pois o desafio atual é desenrolar o tramite burocrático complexo e necessário para que a Stattus4 — e sua inovação — possam ser contratadas pelo poder público. “Não temos concorrentes, o que complica os processos de licitação. Estamos trabalhando para desenvolver esse contrato com toda a legislação sendo atendida.”