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Revista Valor Especial

Ousadia para integrar projetos

Publicado em 21 novembro 2017

Por Ediane Tiago

Insatisfeitos com seus empregos, três jovens engenheiros pediram demissão e improvisaram um laboratório na casa da mãe de Wataru Ueda, fundador e CEO da Magnamed. Eles já trabalhavam na área médica e perceberam que havia espaço para inovar. "Queríamos desenvolver um produto com mais tecnologia. Seguir nossa vontade", diz Ueda. O arroubo empreendedor aconteceu em 2005. No ano seguinte, a empresa migrou para o Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), entidade gestora da incubadora de empresas de base tecnológica de São Paulo, ligada à Universidade de São Paulo (USP).

"Lá o projeto começou a tomar corpo. A meta era atender o mercado internacional. O ambiente da incubadora reforçou essa visão", destaca o executivo. Além de um local para desenvolver o negócio, a incubadora reunia informações e assessoria para a Magnarned ter acesso às linhas de fomento, como o programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para pesquisa inovativa em pequenas empresas, o Pipe.

Em uma primeira fase, a Magnarned recebeu recursos de R$100 mil para provar a viabilidade do produto: um ventilador pulmonar de transporte e emergência, capaz de atender desde um paciente neonatal até um adulto. Em geral, as unidades móveis de socorro possuíam ventilador para adulto ou criança. "O aparelho permite que uma ambulância atenda diferentes casos, otimizando o recurso."

Sem dificuldade em demonstrar o potencial da solução, a Magnamed seguiu para a segunda etapa do Pipe. Receberam recursos da ordem de R$ 500 mil e tocaram o desenvolvimento. Em 2008, já com o produto formatado, a startup se lançou em rodadas de negócios e atraiu fundos de investimento. Capitalizada, deixou a incubadora. Ueda explica que era hora de montar a fábrica, licenciar os produtos e começar a industrialização. Em 2011, lançaram o produto no mercado. "O tempo para iniciar a comercialização de um produto de saúde é longo. Sem o suporte público inicial, seria impossível tocar o projeto", diz Ueda.

O processo para a certificação da fábrica, por exemplo, durou dois anos. O registro brasileiro do ventilador pulmonar saiu seis meses depois que a União Europeia enviou o selo de certificação do produto. "Primeiro exportamos, depois chegamos ao mercado interno", lembra Ueda. A Magnamed atende mais de 50 países, está presente na Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia. Recentemente recebeu autorização para construir uma fábrica nos Estados Unidos. "Estamos na fase final do licenciamento dos produtos." O objetivo da subsidiária é atender o mercado americano e os países com tratado de livre-comércio com os Estados Unidos. No ano passado, a Magnamed faturou R$ 34milhões e registrou crescimento de 84% em relação a 2015. "A meta é quintuplicar a receita em cinco anos", revela Ueda.

Investir em inovação também ajudou a Apis Flora, especializada em fitoterápicos e alimentação natural, a ampliar a presença nos mercados interno e externo. Fundada em 1982 em Ribeirão Preto (SP), a empresa dedicou-se à comercialização de mel e seus subprodutos. "Fomos o primeiro apiário a embalar o mel em potes", comenta Andresa Berretta, farmacêutica responsável pela Apis Flora. Os negócios com mel iam bem, e a Apis Flora começou a estudar as propriedades do própolis. "Lançamos o extrato no Brasil, outra inovação", diz Andresa.

Em 2007, explica o diretor-geral Raul de Barros Ferreira, a empresa decidiu dar um novo passo: ter uma unidade farmacêutica. ''Apoiados por nossas pesquisas, percebemos a oportunidade de entrar no mercado de fitoterápicos e apiterápicos", lembra Ferreira. Como empresa de pequeno porte- com faturamento anual à época na casa de R$ 7 milhões-, a Apis Flora buscou as linhas de fomento à inovação disponível. Inscreveu projetos na Fapesp, na Finep, no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq) e no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Fizemos projetos simultâneos quando percebermos que cada uma das iniciativas responderia a uma parte de nosso projeto", explica Andresa.

No BNDES, a empresa se beneficiou dos recursos do Profarma- programa federal de apoio à indústria farmacêutica- para construir a fábrica de medicamentos. "Transferimos a unidade alimentícia, ampliamos o laboratório e adequamos a estrutura para atender às normas farmacêuticas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária ( Anvisa )", afirma Ferreira. Enquanto construía a unidade fabril, a Apis Flora pesquisava princípios ativos em produtos das colmeias e da biodiversidade brasileira. Para estas etapas, contou com os programas Pipe, da Fapesp, e também com recursos do CNPq-que liberou bolsas para pagar pesquisadores na empresa.

Dez anos após entrar na área farmacêutica, a Apis Flora exporta produtos-incluindo extrato de própolis -para 15 países e está presente, nas Américas, Europa e Ásia. "Os estudos publicados são essenciais para fortalecer a presença no mercado externo. Realizamos pesquisas clínicas com própolis, algo extremamente raro no mundo", comenta Andresa. Ferreira relaciona o crescimento da empresa à ousadia em integrar a farmácia à operação. No ano passado, a receita registrada foi de R$ 40 milhões. "Sem inovação, não há como sobreviver", resume Ferreira.

Para ampliar as possibilidades de ganhos, a Apis Flora incubou a Eleve-uma spinoff -,que transfere os conhecimentos adquiridos na fito terapia para estudar moléculas químicas, utilizadas na farmácia tradicional. "É um outro conceito. Queremos trabalhar com químicos fármacos e depois vender a empresa para investidores", resume Andresa.

Em Botucatu (SP), a pesquisa científica da biomédica Débora Colombi foi o embrião para o Grupo Genotyping. A holding, que recebeu investimentos da ordem de R$ 4 milhões do Fundo de Inovação Paulista, controla duas empresas: a Genotyping Diagnósticos Genéticos, especializada em testes genéticos para humanos, e a BPI - Biotecnologia Pesquisa e Inovação, prestadora de serviços para indústrias, universidades e institutos de pesquisa. "Abri a empresa para aplicar meus conhecimentos no mercado", diz Débora.

A cientista empreendedora se mudou de São Paulo para Botucatu quando o marido assumiu um cargo na Universidade Estadual Paulista (Unesp ). Com graduação em ciências biológicas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp ), ela concluiu mestrado e doutorado em bioquímica e biologia molecular na USP. De endereço novo, partiu para um pós-doutorado em genética na Unesp. "Fiquei empolgada com a ideia de abrir a empresa e busquei apoio na incubadora tecnológica Prospecta, aqui em Botucatu mesmo", conta.

Débora resolveu, então, submeter seu projeto para a Fapesp -onde pleiteou recursos do Pipe-e para a Finep, que mantém o Programa Primeira Empresa Inovadora (Prime). As duas linhas aplicam recursos não reembolsáveis em projetos de base tecnológica. Na primeira rodada conseguiu, na soma, R$ 208 mil, que aplicou no desenvolvimento de marcadores genéticos para leveduras. O mercado-alvo seria o sucroalcooleiro. "Era o dinheiro necessário para tocar as pesquisas", diz.

Após provar a viabilidade do negócio, Débora solicitou recursos do Pipe novamente. Conseguiu mais R$ 247 mil e desenvolveu a solução. A empresa já estava no radar dos fundos de investimento quando, em 2013, identificou a oportunidade de utilizar a tecnologia para trabalhar também com diagnósticos genéticos humanos. Em 2015, quando o Fundo Paulista de Inovação se interessou pelo negócio, a recomendação foi de criar o Grupo Genotyping, separando as unidades de negócio em duas empresas, uma focada em saúde humana e outra no agro negócio. "Estamos indo bem. As duas empresas estão chegando ao ponto de equilíbrio", diz a cientista, lembrando que a Genotyping atende clientes no Brasil inteiro.

Em São Carlos (SP), outro negócio surgiu diretamente das bancadas da universidade. A pesquisa do físico e químico Sérgio Mascarenhas, professor emérito do Instituto de Física de São Carlos (USP), é a base dos negócios da Braincare. A empresa desenvolveu um sistema não invasivo para monitorar a pressão intracraniana (PIC). O método reduz os riscos, os custos e as complicações associadas ao procedimento, indicado em casos como trauma, hidrocefalia e derrame. "A medição tradicional é feita por meio de incisão no crânio ou cirurgia", explica Plínio Targa, CEO da Braincare.

A startup inventou uma forma eficaz e indolor para medir a PIC. "Basta encostar o sensor na cabeça do paciente e realizar a leitura", diz Targa. A missão da empresa, esclarece o executivo, é transformar a leitura da PIC em um sinal vital tão simples como a aferição da pressão arterial e da temperatura. "Podemos prevenir muitas doenças", comenta. Durante a medição, o senso r envia dados, por meio de um aplicativo, para os sistemas da Braincare. Os softwares fazem a leitura dos sinais e enviam, de volta, o laudo para o médico.

A Braincare obteve recursos do Pipe, da Fapesp, para a fase de pesquisa. Com a viabilidade da tecnologia provada, busca investidores. Neste ano, participou do programa de aceleração de empresas da Singularity University, no Vale do Silício (EUA). "Temos uma tecnologia transformadora, que traz segurança para o paciente", afirma Targa. Pelos planos, o produto entrará no mercado em 2019. "Neste prazo, a Braincare estará pronta para a expansão internacional."

Há ainda uma vantagem científica. Como o método é não invasivo, será possível reunir informações para que médicos na academia estudem a PlC e sua relação com a saúde dos pacientes. "Vamos criar um banco de dados para prevenção", destaca Targa.

O desenvolvimento de um senso r para ler sinais vitais também está no cerne do novo projeto da Ventrix. No mercado desde 201 O, a empresa comercializa aparelhos para exames de eletrocardiograma. "Nossa solução é conectada. O aparelho envia informações para uma central com médicos que preparam os laudos, 24 horas por dia", afirma o fundador da empresa, Roberto Castro Júnior. O sistema, diz, orienta o atendimento remoto. "Muitas unidades de saúde não possuem especialistas, e é preciso examinar rapidamente pacientes com sintomas cardíacos", exemplifica.

Formado em engenharia elétrica, Castro Júnior fez mestrado e doutorado em engenharia biomédica, mas não tem alma acadêmica. É empreendedor. inquieto, resolveu apostar em um sensor capaz de monitorar os sinais cardíacos. Trata-se de um adesivo para ser colado ao corpo do paciente. Conectado à internet, o aparelho envia dados, em tempo real, para os sistemas de monitoramento remoto do paciente. O adesivo pode, por exemplo, substituir os aparelhos utilizados para monitorar a pressão arterial por 24 horas (conhecidos como Holter ). "É um aparelho grande e desconfortável, o paciente tem de ficar carregando. Já o senso r, basta colar no corpo e realizar as atividades do dia a dia", afirma Castro Júnior. Para o projeto do sensor, a Ventrix solicitou recursos do Pipe, da Fapesp.