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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Ourinhos avalia perfil da Covid-19

Publicado em 03 março 2021

Por Estadão Conteúdo

Equipamento usado no teste pioneiro é projetado para medir diferentes parâmetros moleculares em apenas uma gota de sangue

Ourinhos - Um experimento inédito na América Latina que começa a ser desenvolvido em Ourinhos (130 quilômetros de Bauru) poderá identificar de forma mais rápida perfil imunológico de pessoas que foram contaminadas com Covid-19, ou já vacinadas, o que abre a possibilidade de avaliar se elas precisarão ser revacinadas. O equipamento, desenvolvido pela empresa norte-americana Novilytic, é projetado para medir uma série de diferentes parâmetros moleculares em apenas uma gota de sangue de um furinho no dedo. Não há necessidade de mandar o material para laboratório e a leitura dos resultados pode ser feita com um celular.

A iniciativa faz parte de um projeto global da Universidade do Nebraska e do Imperial College de Londres - que, no Brasil, conta com a parceria da Unesp de Botucatu - para testar, no contexto da pandemia, o novo dispositivo, que funciona como um laboratório portátil de resultado em cinco minutos. A ideia é também conseguir antecipar se a pessoa pode desenvolver um quadro mais grave da doença. Em outra vertente, pesquisadores querem antecipar se bebês gestados na pandemia podem desenvolver problemas quando adultos.

De baixo custo, ele é capaz de revelar, entre outros dados, não somente se a pessoa tem anticorpos contra o coronavírus Sars-CoV-2, mas quantos e se ainda são protetores, o que pode ajudar a traçar seu perfil imunológico e identificar sua eventual vulnerabilidade a novas variantes do vírus. A bióloga Juliana Floriano, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu e do Imperial College, explica que o experimento poderá ajudar a visualizar o que ocorre com o perfil imunológico das pessoas.

"Poderemos ver com dados quantitativos se a imunidade é duradoura ou se, com o tempo, perdemos isso. Hoje, as análises sorológicas mais comuns são qualitativas, dizem se é reagente ou não, se tem IgM (anticorpo que aparece alguns dias após a contaminação) ou IgG (de longa duração). Mas esse dispositivo vai permitir medir também as quantidades", diz. Se forem muito baixas, a pessoa pode precisar ser revacinada.

No estudo piloto, o objetivo é quantificar esses anticorpos, mas, a longo prazo, se o estudo for bem sucedido e se a oferta de dispositivos for possibilitada com financiamento - hoje o grupo tenta obter recursos junto aos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) -, a ideia é fazer análises mais complexas.

O equipamento tem capacidade de identificar dezenas de proteínas presentes naquela gota de sangue em pouco tempo, o que pode ajudar a medir outros parâmetros, não só da Covid, como de outras doenças, como a dengue, por exemplo.

"Imagine se com uma única gota de sangue e um tempo de cinco minutos um médico pudesse saber se um paciente foi exposto à gripe ou a Covid. Isso é gigante. Porque as duas doenças são similares, mas têm um tratamento diferente", explicou o pesquisador Jiri Adamec, da Universidade de Nebrasca e um dos fundadores da Novilytic.

"Alternativamente, a mesma gota de sangue e mais 5 minutos pode identificar a Covid-19 e também uma doença cardíaca de risco potencialmente alto (por ser capaz de medir alterações provocadas pelas doenças, por exemplo). O médico então trataria o paciente com rapidez e precisão, sem ter de esperar horas, dias ou semanas para ver os sintomas. Essa é a promessa do dispositivo", diz Adamec.

Além do Brasil, serão feitos testes em pelo menos outros sete países: África do Sul, Áustria, Cingapura, Itália, Inglaterra, Polônia e República Checa.

Em Ourinhos, o projeto, que contou com a colaboração do prefeito Lucas Pocay (PSD), vai coletar amostras de plasma (material usado no dispositivo) de dois mil pacientes acima de 18 anos que passarem pelo Hospital Covid e pela Santa Casa. As amostras já estão sendo coletadas e guardadas em um freezer para iniciar os testes tão logo os dispositivos cheguem ao país. Adamec e colegas estão buscando financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e de fundos privados para aumentar a produção dos dispositivos para os testes.

'Geração Covid'

Juliana também está aproveitando o estudo em Ourinhos para alimentar um biorepositório com amostras perinatais (de antes e após o nascimento) com o objetivo de entender o impacto da doença a médio e longo prazo em bebês gestados quando a mãe teve Covid-19.

"Queremos checar se pode ocorrer algo que foi observado após a gripe espanhola, de 1918. Anos depois, se percebeu que os bebês que estavam no útero durante a pandemia apresentaram posteriormente alterações cardíacas e mortes precoces. Nossa hipótese é que isso também possa ocorrer agora, uma vez que a Covid-19 também afeta a saúde cardiovascular", afirma.

"Nosso objetivo e esperança é identificar biomarcadores que podem ajudar a prever, monitorar e tratar alterações no coração e nos vasos sanguíneos de bebês da geração Covid conforme eles crescem até a fase adulta. As mães também serão estudadas", explica a pesquisadora Costanza Emanueli, da British Heart Foundation e do Imperial College.

O biorepositório, desenvolvido com recursos da Fapesp (agência de fomento à ciência de São Paulo), pode armazenar amostras de alta qualidade para um estudo de pelo menos 20 anos, provendo informações importantes sobre a pandemia e o impacto na saúde de mães e filhos.