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Otto Richard Gottlieb: um outro olhar

Publicado em 08 outubro 2020

Por Nidia Franca Roque

Artigo de Nidia Franca Roque, professora titular aposentada da USP e da UFBA

Otto Gottlieb nasceu no ano de 1920 em Brno, cidade hoje localizada na República Tcheca, filho de mãe brasileira. Quando tinha 19 anos junta-se à família que migrara para o Brasil, radicando-se no Rio de Janeiro. Aqui, opta, aos 21 anos, pela nacionalidade brasileira e inicia o Curso de Química Industrial na então Universidade do Brasil. Forma-se em 1945 e trabalha durante dez anos na indústria. Trabalhando com óleos essenciais, seu pendor para a pesquisa já se fazia notar; isola das espécies Aniba canelilla e Ocotea pretiosa uma substância raríssima em plantas, o 1-nitro-2-feniletano. Em 1955, como bolsista, vai para o Instituto de Química Agrícola, Embrapa. Aí desenvolve vários trabalhos na área da fitoquímica.

Por ocasião das homenagens decorrentes dos cem anos de seu nascimento, muito se tem falado sobre o cientista Otto Gottlieb, sobre suas pesquisas visando conhecer a natureza através da composição química das plantas, sobre o desenvolvimento de conceitos e métodos para uma classificação das plantas por meio de seus constituintes químicos, classificação esta que pode racionalizar a busca de substâncias de interesses, seja biológico ou outro qualquer. Suas pesquisas visando conhecer os aspectos evolutivos do reino vegetal, assim como os ecogeográficos que interferem no metabolismo dos produtos naturais e seu interesse pela biodiversidade tão ameaçada hoje e tantas outras levaram Gottlieb a ser indicado a concorrer ao Prêmio Nobel em Química em 1999.

Nos meados do século XX a Química Orgânica passa por um período de grandes revoluções não só em suas teorias como sobretudo em seus métodos de análise. Otto percebe essas mudanças e decide conhecê-las; para isto vai para o Instituto Weizmann e durante dois anos (1959-1960) toma conhecimento da química orgânica moderna. De volta ao Brasil é contratado pelo IQA onde continua com suas pesquisas. Nessa época inicia sua missão como professor de Química Orgânica.

Em 1962, ainda trabalhando no IQA, ele começa a viajar pelo Brasil, indo inicialmente a Belo Horizonte onde estabelece um grupo de pesquisa na Faculdade de Farmácia. Ali, como nos outros locais onde formou grupos de pesquisa, dá aulas de química orgânica moderna, mostrando de uma maneira clara e racional como as substâncias reagem. Os métodos espectrométricos de análise orgânica, sobretudo a recentíssima espectrometria de massa, também faziam parte do seu repertório. Aulas acompanhadas pelas práticas de extração e isolamento de substâncias de plantas. Suas brilhantes aulas fascinavam os estudantes que agora conseguiam entender e não apenas memorizar a enorme quantidade de reações orgânicas. O Professor Otto transmitia seus conhecimentos com vibração, mostrando a beleza oculta na Ciência Química. Depois de Minas Gerais seguem cursos ministrados no IMPA em Manaus, ali ao lado da floresta amazônica, fonte inesgotável de suas pesquisas. Ministra também cursos na Universidade Federal do Ceará, mais tarde na Universidade do Recife, hoje Federal de Pernambuco, no Núcleo de Pesquisas em Produtos Naturais da Universidade do Brasil, na Universidade Rural do Rio de Janeiro e tantos outros mais. Nesses locais deixava a semente onde depois germinariam os grupos de pesquisa em Produtos Naturais que de certa forma ele acompanhou a vida inteira, fosse dando cursos ou orientando estudantes. Não seria exagero dizer que o Professor Otto mudou a visão da Química Orgânica no Brasil. Sem detrimento de outros professores que também compartilhavam essa nova visão da Química, sua importância foi muito grande devido a sua mobilidade que no transcorrer de sua vida como professor/pesquisador foi do Oiapoque ao Chuí.

Em 1964, atualiza ainda mais os seus conhecimentos em análise orgânica, indo à Indiana University nos Estados Unidos e à University of Sheffield na Inglaterra onde conhece a moderníssima técnica de análise de substâncias orgânicas, a Ressonância Magnética Nuclear – ferramenta que se tornou indispensável para a determinação das complexas estruturas das moléculas das substâncias orgânicas – e passa a ensiná-la em primeira mão aqui no Brasil. Todo esse conhecimento transmitido pelo Prof. Otto foi imprescindível para a formação dos pesquisadores que começavam a atuar nas diferentes universidades brasileiras.

Sua fama de professor é então bem conhecida e ainda em 1964 é convidado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira para dirigir o Instituto de Química da recém criada Universidade de Brasília. Em janeiro e fevereiro de 1965 ministra um curso juntamente com o Prof. Mauro Taveira Magalhães, na Universidade Federal da Bahia, para estudantes dos mais diversos estados brasileiros. O curso tinha a finalidade de recrutar estudantes interessados em ir para a UNB dar aulas e fazer mestrado na área da Fitoquímica. O curso é um sucesso e cerca de quinze estudantes seguem em março daquele ano para a Universidade plantada no planalto central do Brasil no meio de um lamaçal terrível. Como narrado pelo Prof. Roberto Salmeron, diretor do Instituto de Física da UNB, no livro “A Universidade Interrompida”, em outubro deste mesmo ano de 1965, após a prisão de dez professores, cerca de 200 pedem demissão, inclusive o Prof. Otto. A ditadura militar acabara de inviabilizar, naquele momento, uma Universidade planejada pelas melhores cabeças do Brasil.

Perdeu a UnB, ganhou o resto do Brasil. Prof. Otto volta a pegar sua pasta preta onde coloca seu caderno de anotações, seus manuscritos e suas aulas muito bem preparadas e volta a percorrer as várias universidades onde deixara a semente da pesquisa com os produtos naturais.

Em 1967, a UFRRJ convida o Otto para instalar um grupo de pesquisa no Instituto de Química, com possibilidade de contratações. Ao mesmo tempo o Prof. Senise o convida para instalar um laboratório de pesquisa, financiado pela FAPESP, no IQ USP. A FAPESP dava toda condição financeira para a montagem e manutenção do laboratório. O Laboratório de Química de Produtos Naturais recebeu possivelmente uma centena de estudantes vindos de todas as regiões do Brasil, da América Latina, da Europa e até mesmo da Tailândia. Na década de 70 ele é assimilado pela USP e o professor Otto torna-se docente desta universidade. Otto e os estudantes que orientou fizeram uma rede de pesquisadores na área de produtos naturais que hoje já chega à quarta geração. E tudo isso começou com as aulas ministradas de universidade em universidade pelo Otto que, como um caixeiro viajante distribuía seus conhecimentos. Hoje as pesquisas realizadas pelos seus seguidores são muito mais complexas, as técnicas analíticas cada vez mais sensíveis e precisas, as interações com as outras áreas de conhecimento tornaram-se imprescindíveis, mas a busca por novas substâncias continua porque, como ele dizia, “Plantas Contêm Centenas de Substâncias e uma Delas Pode Ser Mais Importante Que Uma Galáxia”.

Sobre a autora:

Nidia Franca Roque é professora titular aposentada da USP e da UFBA. Foi a primeira estudante a defender tese de doutorado (1971) sob orientação de Otto Gottlieb na USP.

*O artigo expressa exclusivamente a opinião da autora