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Planeta Universitário

Otto Gottlieb morre aos 91 anos

Publicado em 21 junho 2011


Faleceu na madrugada de 20 de junho, no Rio de Janeiro, aos 90 anos, o quí­mico, pesquisador e professor Otto Richard Gottlieb. O sepultamento está marcado para as 12h desta terça-feira (21/06), no Cemitério Comunal Israelita do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro. Considerado o maior nome em quí­mica de produtos naturais da América Latina, Gottlieb foi indicado em 1999 ao Prêmio Nobel por seus estudos sobre a estrutura quí­mica das plantas, que permitem analisar o estado de preservação de vários ecossistemas. A indicação foi feita oficialmente pelo polonês naturalizado norte-americano Roald Hoffmann, que recebeu o Nobel de Quí­mica em 1981.Nascido em Brno (atual República Tcheca) em 31 de agosto de 1920, Gottlieb chegou ao Brasil em 1939 e, no ano seguinte, ingressou no Colégio Universitário. Durante esse período, estagiou no Laboratório de Imunologia do Instituto Butantan e foi redator da revista Quí­mica, publicada pela Escola Nacional de Quí­mica.

Em 1945, o cientista se formou em primeiro lugar no curso de Quí­mica Industrial pela Universidade do Brasil, que originou a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde fez doutorado e obteve o tí­tulo de livre-docente.

Após se formar, Gottlieb trabalhou por dez anos na indústria quí­mica do pai, que fabricava óleos essenciais da flora brasileira, utilizados como matéria-prima de perfumaria. Dez anos depois, aos 35, decidiu participar de um dos mais importantes grupos de pesquisa sobre produtos naturais da época, o Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, iniciando uma investigação sobre o isolamento de substâncias quí­micas de plantas e a determinação de sua estrutura.

Em 1961, retornou ao Brasil para assumir o cargo de tecnologista do Instituto de Quí­mica Agrícola (IQA), onde foi responsável por importantes descobertas como o pau-rosa.

Em 1964, seguiu para a Inglaterra, para lecionar como professor visitante na Universidade de Sheffield, e para os Estados Unidos, para realizar um estágio de um mês na Universidade de Indiana. No mesmo ano, retornou ao Brasil para a chefiar a implantação do Laboratório de Fitoquí­mica da Universidade de Brasí­lia (UnB).

Em 1967, fundou, com financiamento da FAPESP, o Laboratório de Quí­mica de Produtos Naturais no Instituto de Quí­mica da Universidade de São Paulo (USP), onde se aposentou em 1990.

Em seguida, retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar como pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde atuou até sua aposentadoria no antigo Departamento de Fisiologia e Farmacodinâmica.

Com mais de 700 trabalhos e alguns livros publicados, Gottlieb é considerado o pioneiro na introdução do estudo das moléculas que fazem parte do metabolismo das plantas (fitoquí­mica) no Brasil, concomitantemente com a quí­mica orgânica moderna.

Entre as espécies estudadas por Gottlieb estão as lauráceas, a que pertencem o sassafrás e o louro, e as miristicáceas, representada pela noz-moscada. Seus estudos sobre a canela também resultaram em aplicações medicinais, fitoterápicas e culinárias da espécie, além de propriedades aromáticas utilizadas na indústria cosmética. Descobriu ainda substâncias de grande importância para a medicina, como as neolignanas, que têm efeitos comprovados contra a doença de Chagas e propriedades antiinflamatórias.

Integrando a quí­mica à biologia, à ecologia e à geografia, Gottlieb desenvolveu uma nova área de estudo no campo da quí­mica de produtos naturais: a sistemática bioquí­mica das plantas, também chamada de quimiossistemática ou taxonomia quí­mica, que consiste na identificação de grupos de substâncias quí­micas presentes nas plantas.

'Ele tinha uma verdadeira paixão pela quí­mica de produtos naturais. Achava que as micromoléculas poderiam orientar e servir de base para os estudos de filogenia e taxonomia. A quí­mica de produtos naturais feita hoje no Brasil se deve praticamente a todo o trabalho dele', disse Vanderlan Bolzani, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP, à Agência FAPESP.

Orientada por Gottlieb no mestrado e doutorado, Bolzani lembra que o professor era muito simples no trato com as pessoas, mas, ao mesmo tempo, rígido e extremamente metódico na condução de suas pesquisas e criou uma geração de especialistas em quí­mica de produtos naturais no Brasil.

'Ele foi uma pessoa fascinante e está incluído entre os grandes cientistas do Brasil. Saiu divulgando a quí­mica de produtos naturais por todo o país em uma época em que, praticamente, se desconhecia técnicas como a ressonância magnética e a espectrometria de massas. Do laboratório dele no Instituto de Quí­mica da USP saí­ram as maiores lideranças que temos hoje no Brasil em quí­mica de produtos naturais', afirmou Bolzani.

Gottlieb deixou esposa, três filhos, 11 netos e um bisneto.

Agência FAPESP