Notícia

Jornal da USP

Os vários desafios dos biocombustíveis

Publicado em 20 julho 2008

Lançado no dia 3, Programa de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) vai investir R$ 73 milhões no avanço do conhecimento do etanol da cana-de-açúcar

 

Para aprimorar o conhecimento em torno da produção sustentável e as aplicações do etanol de cana-de-açúcar, a Fapesp lançou no dia 3 de julho o Programa de Pesquisa em Bioenergia (Bioen). O programa visa a atender à pesquisa acadêmica básica e aplicada, contando com a colaboração de mais de 40 instituições de ensino e pesquisa associadas, sendo 17 delas internacionais. No mesmo dia, foram anunciadas três chamadas de propostas para pesquisas do Bioen, no valor total de R$ 73 milhões, a serem aplicados nos diferentes esforços para pesquisa em biocombustível.

“A expectativa da Fapesp é trabalhar tanto na área do etanol quanto do biodiesel”, ressalta Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp. “O programa é importante também porque, além de favorecer as pesquisas realizadas pelas universidades e centros de pesquisa, vai ao encontro das aplicações feitas em colaboração com as empresas.”

Outro objetivo do programa é enfrentar os desafios que o estado de São Paulo, como segundo maior produtor de etanol do mundo, terá para manter-se na liderança. Para isso é preciso investir mais em pesquisa básica e aplicada, a fim de melhorar a produtividade, criar novos processos de conversão, impactar menos o ambiente e causar menos danos à economia mundial, assim como diminuir os problemas sociais. “O Bioen é um programa articulado para tratar desses desafios, que vão desde o estudo sobre a cana-de-açúcar àqueles sobre os impactos econômicos, sociais e ambientais da era da bioenergia”, afirma Brito Cruz.

O Brasil produz 35% do etanol mundial. No entanto, em 2006, com muito subsídio governamental, os Estados Unidos ultrapassaram a marca brasileira, produzindo 36% de etanol a partir do milho. A safra de cana-de-açúcar de 2007/2008, no Brasil, está estimada em 547 milhões de toneladas, chegando a 15,2% da anterior. O agronegócio de cana brasileiro movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e constitui um dos setores de maior geração de empregos diretos e indiretos.

São vários fatores que levam o etanol brasileiro a ser considerado o mais produtivo do mundo: sua produção se dá a uma taxa de 6 a 7 mil litros por hectare; gera de 8 a 10 unidades de energia para cada unidade de energia fóssil, o que o leva a ser considerado um combustível com baixo índice de emissão de gases de efeito estufa.

Brito Cruz ressalta que a principal vantagem para o avanço dos estudos é ampliar a produtividade do etanol brasileiro, mas também não é menos importante entender e aprender a controlar os impactos ambientais, sociais e econômicos. “Para isso precisamos compreender melhor o futuro da agricultura no mundo, uma vez que ao passar a produzir energia ela será organizada de forma diferente do que vinha sendo até hoje”, explica.

Questionado sobre as críticas ao etanol, Brito afirmou que a maior parte das colocações não é contra esse tipo de biocombustível, mas se refere a preocupações com os rumos da produção. Segundo relatórios publicados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ONU e Banco Mundial, o etanol brasileiro tem muitas características positivas em comparação com outros produtos. “A comunidade científica brasileira vê com interesse esse debate, quer contribuir com resultados científicos e aumentar o conhecimento sobre o assunto para entender melhor quais as dificuldades em se produzir bioenergia.”

O projeto de pesquisa para receber financiamento do Bioen deverá abordar um dos cinco temas propostos: melhoramentos de cultivares para a produção de biomassa de cana e de outras plantas; pesquisa sobre processos de produção de etanol e de outros compostos de interesse da indústria; aplicações do etanol para motores automotivos (motores de combustão interna e células-combustível); bio-refinarias e alcoolquímica; e pesquisas sobre os impactos sociais, econômicos e ambientais do uso e da produção de biocombustíveis.

O funcionamento do Bioen se dará a partir de convites para os pesquisadores, que, uma vez selecionados, passarão por um sistema de articulação e governança de colaboração para estimular o relacionamento entre os pesquisados. “Acreditamos que dessa forma a pesquisa e o conhecimento possam avançar de maneira mais rápida”, relata Brito Cruz.

O evento na Fapesp: contribuições da ciência para o ambiente

Etanol celulósico – O lançamento do Bioen aconteceu durante a apresentação de vários workshops. Dentre eles, Marcos Buckeridge, pesquisador do Instituto de Biociências da USP, apresentou algumas respostas da cana-de-açúcar às mudanças climáticas e as perspectivas para a produção de etanol celulósico.

O pesquisador explicou que ainda é preciso encontrar meios de retirar energia da parede celular que está envolvida em meio a muitos polímeros. “O grupo da genética do Bioen vai criar as ferramentas para chegar aos genes e com isso produzir mais enzimas que degradam a parede, tirando a energia que fica nas ligações entre os carboidratos.”

Esse processo é importante porque o etanol ainda é obtido por meio da sacarose, que provoca uma perda considerável de energia. Como a sacarose encontra-se dentro das células, requer uma grande quantidade de água.

Buckeridge explicou que, ao se degradar a parede celular da cana, é possível compactar bastante a energia derivada da planta. “Queremos que a própria cana seja capaz de se autodegradar, para depois, através das enzimas dos fungos, produzirmos uma maior quantidade de etanol.”

O pesquisador ressaltou ainda ser importante produzir mais energia a partir da biomassa, para que se use menos energia advinda do petróleo, mas para isso é preciso entender como os polímeros da cana são feitos. “Se conseguirmos controlar isso, vamos fazer a parede celular que desejamos, facilitando a degradação e aumentando grandemente a eficiência para produzir mais sacarose.”

Mais recursos para a pesquisa

Durante o lançamento do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), no dia 3, foram feitas chamadas de propostas de pesquisas para os Projetos Temáticos – Pronex (Fapesp/CNPq), para o Convênio Fapesp-Dedini e para o Convênio Fapesp-Fapemig.

A chamada para o Programa Pronex, que contou com a participação do presidente do CNPq, professor Marco Antonio Zago, prevê financiamento de R$ 19 milhões de cada uma das agências de financiamento (Fapesp e CNPq).

O convênio Fapesp-Dedini diz respeito a apoio à pesquisa sobre processos industriais para a fabricação de etanol de cana-de-açúcar. Nesse caso serão oferecidos R$ 20 milhões para projetos cooperativos entre pesquisadores de empresas e de universidades e/ou instituições de pesquisa paulistas, nos moldes do Programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite).

O convênio Fapesp-Fapemig refere-se também a pesquisas em biocombustíveis. Ele oferece recursos financeiros para projetos de pesquisa em colaboração entre pesquisadores de São Paulo e Minas Gerais, em temas relacionados ao etanol. Na ocasião, estava presente o professor Alberto Duque Portugal, secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais.