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Os truques do HIV

Publicado em 06 março 2006

Por Francisco Bicudo
Por Francisco Bicudo
Revista Pesquisa FAPESP

A tela do computador exibe uma imagem com retângulos azuis e verdes de tamanhos diferentes: é a reconstituição de um vírus da Aids. Após apresentar a figura, o virologista Ricardo Sobhie Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chama a atenção para as duas cores, usadas para identificar partes — ou melhor, informações genéticas — de dois subtipos do HIV.
Essa mistura é uma característica especial desse vírus colorido: trata-se de uma variedade com potencial epidêmico, que foi capaz de superar as barreiras de seleção e pode ser transmitido de uma pessoa para outra. Chamada de circulante recombinante (CRF, na sigla em inglês), essa nova variação do HIV foi identificada pela primeira vez no Brasil e já preocupa os especialistas.
"A epidemia de Aids está se tornando geneticamente muito complexa", observa Diaz, um dos autores de um estudo publicado na revista Aids Research and Human Retroviruses com esses resultados. "Precisamos repensar algumas estratégias de combate à doença e ficar atentos à sensibilidade dos testes diagnósticos, à atividade de anti-retrovirais ante essas cepas geneticamente diferentes e à escolha de componentes que deverão ser usados em testes de vacinas."
A identificação de formas recombinantes do vírus tende a dificultar o controle da epidemia de Aids. No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que, de 1980 até junho de 2005, haviam sido notificados cerca de 372 mil casos de Aids — mais de 80% deles concentrados nas regiões Sul e Sudeste.
No mundo inteiro, de acordo com a Unaids, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2005 havia 40,3 milhões de adultos e crianças infectados com o HIV; desse total, 4,9 milhões, cerca de 10%, haviam sido contaminados no ano passado. A África negra abriga 25,8 milhões de vítimas da doença — quase 65% do total.
Variações do HIV já são conhecidas há pelo menos 15 anos. Atualmente, além de dois tipos (HIV 1 e 2), existem nove subtipos do vírus, identificados por A, B, C, E, F, G, H, J e K. Todos agem destruindo o sistema imunológico da pessoa infectada, e os sintomas e problemas que provocam, como as infecções oportunistas, também são os mesmos. A diferença fundamental é que as variações são formadas por seqüências de genes distintas.