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Os sintomas que indicam se a criança tem Transtorno do Espectro Autista

Publicado em 31 agosto 2018

O Transtorno do Espectro Autista, ou autismo, é uma inaptidão que costuma demonstrar seus sinais logo no início da vida. Trata-se de uma desordem neurológica que se manifesta no desenvolvimento de habilidades como a interação social e a comunicação e, ainda que seja mais prevalente em meninos do que em meninas, pode afetar, em diferentes graus de comprometimento, qualquer indivíduo.

Há uma série de dúvidas que rondam a doença (tratada assim porque é de base biológica, uma vez que existe uma carga genética importante no espectro autista, com

hereditariedade associada a alterações de genes), especialmente no que se refere ao seu diagnóstico. O autismo se apresenta de várias formas e seu diagnóstico é realmente mais complexo, pois não há exames específicos para tal.

Segundo o médico neuropediatra Sérgio Antônio Antoniuk, responsável pelo ambulatório de autismo do Centro de Neuropediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os sinais típicos surgem já na primeira infância.

“Os sintomas surgem desde o nascimento e/ou até os 36 meses. A maior parte das crianças apresenta sintomas antes dos dois anos. Para ajudar na identificação, há uma campanha para o diagnóstico precoce que orienta a perceber crianças de 12 a 14 meses que não olham para as pessoas, não desenvolvem atos de acenar, bater palmas, olhar ao ser chamado, apontar o que deseja, olhar o que é apontado, entender ordens simples como ‘olha a mamãe’ e ‘dá a bola para a mamãe’”, exemplifica ele.

Movimentos repetidos e sem função das mãos também indicam dificuldades nessas crianças. “Algumas vezes elas reagem exageradamente frente a sons como os de secadores de cabelos, motocicletas, cortadores de grama e choro de outras crianças. Ou

seja, são vários indícios que desde muito cedo levantam a suspeita de autismo e até mesmo de outros transtornos relacionados ao desenvolvimento”, alerta Antoniuk.

É importante entender que o espectro autista é multicausal e seu diagnóstico é clínico, feito através – e principalmente –, de observação comportamental, além de testes e lista de sintomas. “Há escalas que ajudam a rastrear a doença, como ADOS, ADI-R, CARS, ATA, M-CHAT e DSM-V, mas o mais importante é a consulta clínica com a família. Exames complementares como eletroencefalograma e ressonância magnética de crânio ajudam a identificar a causa do autismo diagnosticado”, explica o neuropediatra.

Diagnóstico tardio

Ainda que pais e responsáveis devam observar todos os sinais da criança desde o nascimento, a identificação do autismo é feita por um médico especialista bem treinado, que vai examinar a criança e avaliar sua história de vida em busca de sinais de atraso no desenvolvimento e na capacidade de interação social.

Ser pouco ou excessivamente sensível aos ruídos pode ser um indicativo. Fique de olho(Foto: Bigstock)

A importância do diagnóstico precoce está relacionada à facilidade de suavizar os prejuízos de sociabilidade. Em uma entrevista à revista Pesquisa FAPESP em 2011, o psiquiatra infantil Marcos Mercadante, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), morto naquele mesmo ano, calculou que o diagnóstico só ocorresse por volta dos 5 ou 6 anos de idade, quando se torna mais difícil reverter os danos na interação social. No Brasil, infelizmente, o diagnóstico costuma tardar. Estima-se que, de modo geral, a confirmação do autismo se dê por volta dos 3 anos de idade. Por aqui, é possível que essa identificação demore ainda mais.

“Algo diferente”

Um estudo relatado também na Pesquisa FAPESP foi realizado por pesquisadores do Ambulatório de Cognição Social da Unifesp e da Universidade Presbiteriana Mackenzie a fim de identificar as razões dessa demora. Foram feitas entrevistas detalhadas com 19 mães de filhos diagnosticados com autismo na cidade de São Paulo. 68% delas notaram que havia algo diferente no desenvolvimento da criança antes de seu segundo aniversário (não respondia quando chamada pelo nome, não fazia contato visual ou não falava).

Ao perceber o problema, quase todas (79%) procuraram ajuda médica nos três meses seguintes. O diagnóstico, contudo, só foi confirmado, em média, três anos após a suspeita inicial (em alguns casos levou oito anos). Para Sabrina Ribeiro, psicóloga do Ambulatório de Cognição Social da Unifesp e primeira autora do estudo, uma das razões do atraso no diagnóstico seria, portanto, o despreparo ou a desinformação do médico.

“A maioria dessas mães (84%) mencionou primeiro ao pediatra suas preocupações a respeito do comportamento atípico do filho, mas ouviu coisas como ‘crianças não têm que ser comparadas entre si’, ‘meninos se desenvolvem mais lentamente do que meninas’, ‘meninos são mais agitados’. Mais da metade delas se sentiu desencorajada a manifestar suas preocupações novamente”, relata a pesquisadora.

Colaboração é essencial

Uma das orientações mais recentes publicada na Healthy-Children.org, da American Academy of Pediatrics (AAP) expõe a importância da colaboração entre pais e médicos (especialmente pediatras). Nessa relação, os pais devem se sentir à vontade para comunicar qualquer preocupação que se tenha quanto ao comportamento e desenvolvimento do filho – especialmente sobre como ele brinca, aprende, fala e age.

O papel do médico, por sua vez, é ouvir atentamente e tomar eventuais medidas necessárias para uma intervenção precoce. Os Estados Unidos são um país que leva estritamente à risca a importância do diagnóstico precoce em autismo. Por lá, a AAP recomenda que todas as crianças sejam examinadas para o transtorno aos 18 e aos 24 meses de vida. A publicação ainda lembra que a maioria das crianças diagnosticadas progride consideravelmente em suas funções gerais e terá relações pessoais significativas com familiares e colegas, alcançando um bom nível de independência quando adultos.

Fique de olho

Uma criança com desenvolvimento típico deve, desde bem cedo, conseguir mostrar partes do corpo, emitir sons compreensíveis, apontar objetos, mostrar objetos para outras pessoas, mostrar o que deseja, obedecer a ordens dos pais, bem como ter um olhar comunicativo e expressivo. Observar tais sinais é essencial para levantar as primeiras suspeitas de que a criança possua o Transtorno do Espectro Autista – e qualquer pessoa que convive com ela é capaz de aventar essa primeira suspeita diagnóstica.

Perguntas que ajudam no diagnóstico

A equipe do Centro de Neuropediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) elaborou um material para ajudar e orientar familiares na identificação de sinais que possam indicar que a criança tem o Transtorno do Espectro do Autismo, possibilitando o diagnóstico precoce e o encaminhamento para o tratamento adequado. Se a criança com idade entre 0 e 3 anos apresentar algumas das características a seguir, deve ser avaliada por um médico especialista.

Confira:

> Demonstra pouco interesse por outras crianças e não responde com o olhar quando chamado pelo nome;

> Não aponta para indicar o que deseja;

>Fala menos que o esperado para a sua idade

> Pega na mão do adulto e coloca sobre o que deseja;

> Mantém pouco contato visual;

> É pouco ou excessivamente sensível a ruídos;

> Não sorri em resposta ao sorriso e não imita ações;

> Não brinca de maneira convencional com os brinquedos;

> Não olha para o que os outros olham ou apontam;

> Costuma olhar para o vazio ou caminhar sem direção aparente;

Caminha nas pontas dos pés ou agita as mãos excessivamente;

> Não atende a ordens simples, não bate palmas e/ou não dá tchau.

“Uma vez na investigação do autismo em uma criança, aplicamos aos pais e educadores um questionário chamado Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT). O M-CHAT é um breve questionário referente ao desenvolvimento e comportamento, utilizado em crianças dos 16 aos 30 meses, com o objetivo de rastrear as perturbações do espectro do autismo.

Pode ser aplicado tanto em uma avaliação periódica de rotina (cuidados primários de saúde), como por profissionais especializados. Duas respostas anormais levantam a suspeita e há questões essencialmente

importantes para essa suspeita diagnóstica”, explica o médico neuropediatra Sérgio Antônio Antoniuk.

Algumas questões do teste:

A sua criança:

> Tem interesse por outras crianças?

> Usa o dedo indicador dela para apontar e mostrar alguma coisa de interesse dela?

>Traz objetos até você para lhe mostrar alguma coisa?

> Durante uma brincadeira, se você fizer uma expressão corporal ou uma careta, a sua criança imita você?

>> Responde quando você a chama pelo nome dela?

>> Se você apontar para um brinquedo que esteja longe da criança, ela olha para o brinquedo?

No consultório, Antoniuk também aplica uma série de perguntas que buscam avaliar a questão comportamental da criança dentro de quadros como comunicação não-verbal, relacionamento com os pares, falta de reciprocidade emocional e/ou social, linguagem, interpretação de situações, padrões estereotipados de comportamentos (estereotipias motoras, preocupação com objetos e interesses restritos), características associadas, padrão sensorial e padrão alimentar.