Notícia

Gazeta Mercantil

Os russos querem ficar

Publicado em 20 maio 1998

Por Ricardo Lessa - de Campos
Físicos descobrem: diamantes não são para sempre "Marina, você tinha razão, ainda bem que não vendemos o apartamento de Moscou." Com esse desabafo, o teimoso professor russo Vladimir Poliakov dava o braço a torcer à esposa, depois de uma discussão de quatro anos, período em que ele esteve à frente do Setor de Materiais Superduros da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), em Campos, o laboratório que fabricaria diamantes sintéticos industriais pela primeira vez no Brasil. Ele é um dos 17 russos que embarcaram no sonho do falecido professor e senador Darcy Ribeiro de construir um pólo científico, que ele batizou de Universidade do Terceiro Milênio. Ribeiro pretendia que os diamantes produzidos no Brasil rodassem na ponta das brocas da Petrobras, que perfuram poços submarinos a menos de 200 quilômetros dali. (Cont. A-9) E que a animação cultural da universidade irradiasse pela depauperada região canavieira do Norte do Rio de Janeiro. O sonho de Darcy está, entretanto, cada vez mais remoto. O projeto futurístico de Oscar Niemeyer para o campus foi reduzido hoje a sete Cieps dispostos em forma de leque, plantados próximos ao pobre bairro do Matadouro. A idéia de criar um centro de irradiação cultural, a partir da fundação de um pólo de cinema e vídeo, nunca foi realizada. Os cinco pesquisadores russos da equipe de biotecnologia transferiram-se de malas e bagagens para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e agora é o laboratório de diamantes que começa a se desmantelar. O chefe do "Setor de Materiais Superduros", Vladimir Poliakov, será o nono russo da equipe inicial a desembarcar da Universidade do Terceiro Milênio. Seu contrato foi cancelado sem aviso prévio em março, sob alegação, entre outras coisas, de quê "a capacidade de relacionamento do professor com colegas e alunos deixou a desejar". Hoje, ele' trabalha por força de um mandado de segurança do Juiz da 4ª Vara de Fazenda Estadual. Dono de um entusiasmo que nada deixa a dever ao do criador da UENF, Vladimir nunca entendeu porque o Brasil não fabricava seus próprios diamantes sintéticos, um processo relativamente simples, onde a grafite é submetida a alta pressão e temperatura, para transformar-se no diamante. Estima-se em US$ 15 milhões anuais a importação de diamantes sintéticos pelo Brasil. O professor Joel Teodósio, veterano engenheiro metalúrgico da Coppe (Coordenação de Pós Graduação em Engenharia da UFRJ) foi o pai da idéia de criação do laboratório e contagiou o professor Darcy Ribeiro quando criou a UENF com o objetivo de "atualizar o Brasil com as tecnologias mais avançadas". Para Teodósio, é claro o interesse do País de desenvolver-se nessa área. Mas ele não entende e não quer envolver-se na polêmica do afastamento do professor Vladimir, que já conhecia de congressos científicos anteriores ao convite da equipe russa, feito, em 1993. O russo chefiava o setor de diamantes no Instituto de Aços e Ligas de Moscou (IALM) e seu país vivia a crise que sucedeu a Perestroika. O Instituto foi alvo de um incêndio e a água lançada pelos bombeiros acabou inutilizando os equipamentos do seu laboratório. "Quando cheguei para trabalhar, o prédio tinha virado uma pedra de gelo", lembra Andrei Potenkim, colega de Vladimir no Instituto e integrante da equipe que foi formada para vir para o Brasil. Aos dois se juntou o jovem Serguei Mourachov, especialista em informática e em controle de processos. Ao receber o chamado dos brasileiros, os três não perderam tempo: fizeram a lista dos equipamentos para produzir os diamantes sintéticos em Campos, pegaram as famílias e embarcaram para o Brasil. No caso de Vladimir, 60 anos, o mais velho dos três, vir para o Brasil, que já conhecia e gostava de visitas anteriores, e fabricar os diamantes era a realização de um sonho. Sua idéia foi logo vender o apartamento de Moscou e fixar residência definitiva no Novo Mundo. Só o pragmatismo de sua esposa e ex-aluna, Marina, o impediu. A intuição feminina indicava que poderiam surgir problemas, o que deixaria a família sem pouso lá ou aqui. As suspeitas não tardaram a confirmar-se. O temperamento irrequieto desse energético professor de pouco mais de 1,60 metro de altura, dono de 20 patentes, PhD na Universidade Moscou e pós-doutora- mento no Real Instituto de Estocolmo, não demorou em esbarrar na pegajosa burocracia universitária. Nos seus 34 anos de experiência com diamantes, ainda não tinha aprendido lições básicas para lidar com materiais menos nobres, mas entranhados na universidade brasileira. Primeira lição: corte orçamentário. A lista de US$ 2 milhões em: equipamentos feita a pedido da delegação brasileira que esteve em Moscou foi cortada em mais da metade. Só foi comprado o conjunto de prensas para produzir o diamante sintético. Segunda lição: atraso no cronograma. O equipamento comprado em 1993, quando o senador Darci Ribeiro ainda vivia para realizar seu projeto na Universidade do Norte Fluminense, só começou a funcionar precariamente no final do ano passado, com matéria-prima trazida da Rússia pelos professores. Terceira lição: fanfarronice para encobrir a precariedade. O evento foi anunciado em alguns jornais com manchetes como "Brasil já fabrica diamantes sintéticos". Na verdade, o laboratório não dispõe se quer de matéria-prima para produzir os diamantes. Quarta lição: péssimas condições' de trabalho. Os professores russos trabalham em salas com coberturas de amianto sem ar-condicionado, o que os obrigam a agüentar temperaturas de 40 graus positivos, enquanto em Moscou é freqüente a temperatura de 30 graus negativos. Quinta lição: fritura política. Segundo Vladimir, o diretor do Centro de Ciências e Tecnologia, professor Sérgio Neves Monteiro, teria estimulado outros professores do Laboratório de Matérias Avançados, ao qual ele está subordinado, para afastá-lo da universidade. Neves nega, entretanto, que tenha tido qualquer problema pessoal, com o russo. VIDA BRASILEIRA "Compreendo a situação do professor Vladimir, que está sem emprego na Rússia, mas a Universidade não pode ser instituição beneficente", defende-se. O diretor, que goza de bom conceito entre seus ex-colegas da Coppe, como o ex-reitor da UFRJ, Nelson Maculan, argumenta que é preciso dar emprego a professores brasileiros. O diretor não questiona, porém, a capacidade científica do russo, com quem assinou um trabalho conjunto há menos de dois anos na área de diamantes e viajou para apresentá-lo num Congresso Internacional em Tóquio. Segundo o russo, Neves apenas o ajudou a traduzir para o inglês o paper "Influências das partículas refratárias (A12O3TiN) na resistência mecânica de diamantes policristalínicos do tipo carbonado", que vinha sendo desenvolvido desde Moscou. Neves responde que tem experiência em várias áreas, desde a engenharia metalúrgica até polímeros e cerâmica. Todas essas provações não foram suficientes para fazer o professor russo desistir do Brasil. Segundo Poliakov, eles não são exclusivos da universidade brasileira. Além disso há compensações. Sua filha Maria, de 13 anos, adaptou-se à vida calma de Campos. Faz aulas de jazz e de natação e gosta do calor. Além disso, o Instituto de Moscou, onde ele trabalhava, cancelou seu contrato, depois de dois anos de ausência, como previa o convênio. "Se fosse em São Paulo, o laboratório já estaria funcionando a todo vapor", comenta o professor Poliakov, mostrando que compreendeu as diferenças regionais do País: "São Paulo é tão diferente do Rio quanto os Estados Unidos do Brasil". É para lá que os olhos do professor se dirigem, como última esperança para permanecer no País. O mandado de segurança só garante a permanência até a final do mês que vem. Seu filho Eugênio, de 16 anos, já foi despachado para o apartamento que, por sorte, não foi vendido. Não foram apenas o calor dos trópicos e as matas verdejantes que atraíram os professores russos para o Brasil. Os salários universitários em Moscou variam de US$ 250 a US$ 500. Aqui eles ganham entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Eles não endossam as atuais reivindicações salariais dos professores das universidades federais que estão em greve. Além disso, a Rússia vive tempos turbulentos. Vladimir Poliakov, Andrei Potenkim e Serguei Mourachov querem ficar no Brasil também por causa da tranqüilidade. Andrei Potenkim, por exemplo, perdeu a esposa, desaparecida em 1992, como muitos moscovitas, vítima da ação de máfias e quadrilhas na cidade. Até hoje ele não sabe se ela está viva ou não. Recorreu à polícia e até aos médiuns para localizá-la, sem sucesso. Nos primeiros meses de Brasil conheceu a arquiteta Rosângela Faria Mota, que trabalhava na instalação da Universidade. Depois de alguns incidentes lingüísticos, começaram a namorar. O maior desses incidentes foi quando marcaram um encontro para quinta-feira, Rosângela esperou, esperou, e o russo não apareceu. Ele achou que quinta era sexta. Em russo, o quinto dia (petnitsa) é sexta-feira, o primeiro segunda-feira até domingo, que é o sétimo-dia. Depois de algumas semanas de gelo siberiano entre os dois, o namoro recomeçou e virou casamento. Serguei Morachov, 33 anos, é outro bom exemplo de adaptação. Ao contrário de Andrei e Vladimir, ele não pertenceu ao Partido Comunista Soviético, já formou-se pela geração Perestroika e diz que já se sente brasileiro. "Achei o povo aberto, alegre, faz contato rapidamente, é muito melhor que os Estados Unidos e Canadá", compara o pesquisador. A única saudade da Rússia vem dos "livros baratos". Serguei diz que passa longas horas, junto com a mulher também russa, lendo livros de seu país no computador. Trouxe um CD pirata com 4 mil títulos de lá. "Custa 5 dólares", informa. Os três estão se candidatando agora ao cargo de professor associado da UENF, o que garantiria mais estabilidade e melhores salários. Embora Andrei e Serguei concordem que séria melhor para o projeto de fabricação de diamantes que o chefe ficasse no Brasil, eles não escondem que a prioridade é a própria permanência. Depois de quatro anos lutando para tocar adiante o projeto de produzir os diamantes numa sala improvisada de CIEP, eles começam a dar sinais de cansaço e de adaptação ao ritmo inercial da universidade. Transposto do mundo científico para o agrícola, o fenômeno lembra o t que aconteceu com o Sr. Goboloff, personagem de Lima Barreto. Trazido no século passado da Europa para o interior do Brasil, depois de anos tentando cultivar sofisticadas hortaliças européias, vencer as esburacadas estradas e as indomáveis saúvas, sem nenhum sucesso, passou a plantar mandioca e batata-doce, deitar na rede e esperar o tempo passar cocando bicho de pé, como seus vizinhos caipiras.