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A Cidade On (São Carlos, SP)

Os riscos do aumento do sedentarismo. Veja quais são as consequências

Publicado em 03 dezembro 2020

A inatividade física pode contribuir para deterioração da saúde cardiovascular. A recomendação é para que as pessoas não deixem de se exercitar em casa.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) publicaram um artigo de revisão no American Journal of Physiology apontando que o aumento do sedentarismo durante o período da quarentena, por conta da pandemia da COVID-19, pode contribuir para a deterioração da saúde cardiovascular, mesmo que a inatividade física seja por um curto período de tempo (1 a 4 semanas), afetando principalmente os idosos e portadores de doenças crônicas.

Um solução para esse problema é a prática de exercícios em casa. "Uma pessoa precisa fazer ao menos 150 minutos de atividade física moderada a intensa por semana para ser considerada ativa, de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde [OMS] e das sociedades médicas. O uso de academias e centros esportivos ficará limitado nos próximos meses, mesmo após o fim da quarentena. A atividade física realizada no ambiente domiciliar surge como uma alternativa interessante", diz Tiago Peçanha, primeiro autor do artigo que apresenta uma série de evidências científicas relacionadas ao impacto de curtos períodos de inatividade física sobre o sistema cardiovascular, em entrevista à Agência FAPESP.

O artigo também analisou estudos que mostram que:

Manter uma pessoa acamada durante 24 horas pode induzir atrofia cardíaca e redução significativa no calibre dos vasos sanguíneos em um período que variou entre uma e quatro semanas;

Voluntários que foram induzidos a reduzir de 10 mil para menos de 5 mil o número de passos diários durante uma semana, tiveram uma redução no diâmetro da artéria braquial (principal vaso do braço), perda da elasticidade dos vasos sanguíneos e danos ao endotélio (camada de células epiteliais que recobre o interior das veias e artérias).

Voluntários que foram mantidos sentados continuamente durante períodos que variavam entre três e seis horas, tiveram tempo de inatividade suficiente para promover alterações vasculares, aumento nos marcadores de inflamação e no índice glicêmico pós-alimentação.

Os indivíduos saudáveis conseguem recuperar os danos causados pela inatividade física, mas o impacto do sedentarismo prolongado para pessoas com doenças cardiovasculares e outras condições crônicas de saúde, como diabetes, hipertensão, obesidade e câncer, pode ser bem mais agravante. O grupo da FM-USP também publicou um artigo no Journal of the American Geriatrics Society, abordando o agravamento da perda generalizada de massa muscular (quadro conhecido como sarcopenia) e aumento do risco de quedas, fraturas e outros traumas físicos em idosos. Consequentemente, esses mesmos grupos são considerados de riscos da COVID-19, devendo buscar maneiras de se manter isolados e continuar praticando exercícios físico em casa.

Dados no Brasil e no mundo

A empresa norte-americana comercializadora de relógios inteligentes e aplicativo de monitoramento de atividade física, Fitbit, apresentou em seu blog, em 22 de março, dados de 30 milhões de usuários que mostraram uma redução entre 7% e 33% no número de passos dados por dia.

Ainda de acordo com Peçanha, em entrevista à Agência FAPESP, no Brasil, há um levantamento feito pelo pesquisador Raphael Ritti-Dias pela internet com mais de 2 mil voluntários. Mais de 60% afirmam ter reduzido seu nível de atividade física após o início da quarentena. São evidências preliminares, mas com estudos em andamento que visam medir o efeito para a saúde da inatividade física durante a quarentena.

Isolamento social como principal causa do sedentarismo

O sedentarismo causado pelo isolamento social tornou-se a realidade de muitas pessoas, dentro e fora do grupo de risco. É o caso do professor universitário de psicologia, Pedro Afonso Cortez (28), que praticava exercícios físicos regularmente antes da pandemia, mas com a chegada do coronavírus decidiu seguir a quarentena rigorosamente e acabou deixando a atividade física em segundo plano. "Eu fazia exercícios físicos 3 vezes na semana. Inicialmente, de forma independente, mas depois busquei a orientação de um personal trainer", ele conta.

O principal motivo foi, primeiramente, o isolamento social. Apesar de seu personal ter oferecido aulas de maneira remota e o contrato ter permanecido ativo, ele não conseguia fazer a atividades por falta de espaço físico e materiais necessários. Além disso, nesse mesmo período seu salário sofreu redução, por conta da MP 936, que permitia a diminuição do salário e da carga horária trabalhada, deixando o orçamento do docente mais apertado.

"No entanto, eu trabalho com pesquisa acadêmica e docência no ensino superior, então continuei trabalhando praticamente as 40h", relata o professor que nesse meio tempo se mudou de Curitiba para São Paulo em busca de novas oportunidades. Ele conta ainda que não se sente motivado para voltar a praticar exercícios físicos: "Tenho medo de ao frequentar academias, pois elas podem não seguir o protocolo de forma adequada, além de também ter dúvidas em relação à eficácia deles. Tenho medo de me contaminar".

Apesar de não fazer parte do grupo de risco, recentemente foi diagnosticado com uma hérnia e, por isso, ele evita fazer esforço físico dentro de casa, o que inclui os exercícios. Seu receio é de que precise frequentar algum hospital nesse momento em que as chances de contaminação são altas nesse local. "Penso em fazer algumas caminhadas fora de casa, mas também tem o fator da insegurança nas ruas. Quando a vacina chegar, certamente vou retomar as atividades regulares. É minha esperança, espero que aconteça logo", diz Cortez.

Guia da OMS sobre atividade física e comportamento sedentário

Recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um guia com diretrizes sobre atividade física e comportamento sedentário. O documento informa que pessoas de todas as idades e habilidades podem ser fisicamente ativas.

Veja algumas recomendações para cada grupo:

Crianças e adolescentes (5 a 17 anos) - Fazer pelo menos 60 minutos por dia de atividade física com intensidade de moderada a vigorosa, principalmente aeróbica. Atividades aeróbicas intensas, assim como as que fortalecem músculos e ossos, devem ser incorporadas pelo menos 3 dias por semana. É necessário limitar o tempo gasto sendo sedentários, especialmente o período recreativo usando telas.

Adultos (18 a 64 anos) - Fazer ao longo da semana pelo menos de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada; ou de 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica de intensidade vigorosa. Também é possível fazer uma combinação equivalente dos dois tipos de exercício. Devem fazer atividades de fortalecimento muscular em intensidade moderada ou alta, que envolvam todos os principais grupos musculares, em 2 ou mais dias por semana.

Idosos (65 anos ou mais) - Devem seguir a mesma recomendação de minutos de atividade física aeróbica que os adultos, assim como fazer exercícios de fortalecimento muscular em 2 ou mais dias. Além disso, é indicado que façam atividades que trabalhem o equilíbrio funcional e o treinamento de força em intensidade moderada ou alta, em 3 ou mais dias por semana, para aumentar a capacidade funcional e evitar quedas.

Mulheres grávidas e puérperas - Fazer pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada durante a semana. É recomendado incorporar uma variedade de atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular. Adicionar um alongamento suave também pode ser benéfico. Alguns tipos de atividades devem ser evitados, como as com risco de queda, por exemplo. É importante consultar seu médico.

Guia na íntegra: Clique aqui