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Os respiradores da Magnamed, o BNDES e o esforço coletivo da inovação

Publicado em 19 abril 2020

Por Marcelo Miterhof

O projeto do BNDES, quando era, de fato, desenvolvimentista, foi mobilizar capital de diversos investidores para investir em startups, de modo a compartilhar os riscos.

Marcelo Miterhof é economista do BNDES. Foi meu orientando na Pós-Graduação do IE-UNICAMP. Infelizmente, o artigo abaixo não reflete necessariamente a opinião do banco.

Na semana passada, o Ministério da Saúde fechou com uma empresa brasileira a compra de 6500 ventiladores pulmonares, que é o equipamento central das UTIs para tratar de pacientes com o vírus Corona. Num contexto em que os países tendem a entrar no modo “farinha pouca, meu pirão primeiro” – vide o conflito sobre as máscaras descartáveis que iriam para Alemanha, França e Brasil, mas ficaram mesmo é com os Estados Unidos – é sorte termos uma empresa nacional capacitada a fabricar esses complexos equipamentos que salvam vidas, no caso a Magnamed.

Seria sorte mesmo? Para entender, vale contar brevemente a história da empresa.

A Magnamed nasceu em São Paulo, em que há uma ampla rede pública de educação superior e centros de excelência em Engenharia, como o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde seus empreendedores se graduaram. Os paulistas se orgulham, com razão, dos pioneiros programas de incentivo ao empreendedorismo, como o Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (CIETEC), baseado na Universidade de São Paulo (USP) e das bolsas de apoio à pesquisa em empresas da FAPESP. Empreendedores recebem dinheiro público para fazer pesquisas em suas empresas, passando por um processo competitivo rigoroso, com vários candidatos, em que é preciso apresentar planos de negócio consistentes a colegiados de especialistas, dentre outros requisitos.

No entanto, o sucesso nessa etapa leva a empresa para o que no universo de startups é chamado “vale da morte”. É o momento em que a empresa precisa de injeção de capital para comprar insumos, estruturar equipes de vendas abrangente, montar fábricas etc. Nesse momento, o dinheiro das bolsas de pesquisa se torna insuficiente. A empresa precisa de um ou mais sócios que aportem capital para crescer rapidamente.

Só que em 2007, no Brasil, os investidores dispostos a colocar seus recursos em capital de risco ou semente eram muito raros e desarticulados. Não havia investidor e menos ainda fundos de investimento. Por isso, o BNDES resolveu atuar criando, em 2008, o Fundo Criatec. Desde o início, a ideia era mobilizar capital de diversos investidores para investir em startups, de modo a compartilhar os riscos. O Banco passou o chapéu no mercado e só o Banco do Nordeste (BNB), outro banco público de desenvolvimento, topou pingar 20% do capital do fundo. Mesmo assim, o BNDES decidiu seguir, colocando os outros 80%. A experiência foi tão bem sucedida que nas novas versões, em 2013 e 2016, os investidores privados estavam ávidos a entrar junto com o banco, cuja participação caiu para menos de 20%.

Fundada em 2005, a Magnamed foi uma das primeiras empresas investidas pelo Criatec 1, ainda em 2008, recurso que foi fundamental para a empresa sobreviver à crise de 2009 e obter, em 2010, certificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e o Selo CE (Comunidade Europeia), viabilizando as exportações, condição fundamental para o crescimento e para buscar e manter altos níveis de competitividade, em especial em setores intensivos em tecnologia.

Anos depois, em 2014, a empresa tinha sócios e porte suficiente para tomar dívida bancária. Mas qual banco empresta dinheiro para um arriscado projeto de desenvolvimento de um novo ventilador pulmonar? Mais uma vez o BNDES entrou em cena, concedendo crédito direto com taxa de 4% a.a. fixa com flexibilização de garantias, por meio do PSI – Inovação (Programa de Sustentação do Investimento).

A empresa continuou crescendo e em 2015 precisou de um novo sócio. Dessa vez, o apoio veio da FINEP – Inovação e Pesquisa – agência de inovação vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Telecomunicações, por meio do Fundo VOX.

Se hoje temos uma empresa capaz de fabricar no Brasil equipamentos de alta tecnologia, não é sorte ou acaso. É um esforço coletivo da sociedade brasileira. Que começou com a educação superior de excelência nas forças armadas (ITA), passou pelos laboratórios da USP, teve financiamento à pesquisa da FAPESP, ganhou escala com recursos de fundos de investimento do BNDES e da FINEP, obteve crédito subsidiado do BNDES-PSI, e agora vai ajudar o Brasil a enfrentar a pandemia, fortalecendo o SUS. É uma história que merece ser conhecida, como outras semelhantes. Elas juntam esforços privado e público, confiança, divisão de riscos, constante revisão de caminhos, tornando o sucesso mais provável.

Fonte: Jornal GGN – 14/04/2020

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