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Jornal da USP online

Os radicais livres na mira da ciência

Publicado em 23 fevereiro 2015

Por Sylvia Miguel

Criado há cerca de um ano com a participação de 19 instituições, o Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma) do programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fapesp acaba de fazer seu primeiro encontro com conselheiros internacionais. Realizado nos dias 5 e 6 passados na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, o evento buscou analisar os resultados alcançados e traçar as metas futuras do grupo, atualmente constituído por 40 cientistas, entre pesquisadores principais, associados e colaboradores internacionais.

O chamado Advirosy Commitee – formado pelos cientistas Balaraman Kalyanaraman, do Medical College of Wisconsin, nos Estados Unidos, Gary Fiskum, da Universidade de Maryland, também nos Estados Unidos, e Rafael Radi, da Universidad de la República, no Uruguai – indicou caminhos importantes para o desempenho do grupo e “não apenas no campo científico”, segundo a diretora do Cepid Redoxoma, professora Ohara Augusto, do Instituto de Química da USP, mas também “em inovação e transferência de tecnologia e em educação e difusão científica”.

“O encontro mostrou a força do grupo e também que há caminhos para melhorar o sinergismo em busca de melhores resultados. Mostrou também que, sem uma estrutura para o desenvolvimento de modelos animais, continuaremos a enfrentar grandes dificuldades na ciência feita no Brasil”, disse ao Jornal da USP o vice-diretor do Redoxoma, professor Francisco Rafael Martins Laurindo, da Faculdade de Medicina da USP.

Segundo Laurindo, não é possível levar para a sociedade o conhecimento gerado na bancada do laboratório sem o avanço de modelos animais, que antecedem a fase clínica de testes de drogas e processos terapêuticos, feita em humanos. “O ambiente institucional ainda é pouco estruturado no Brasil e não contribui para o avanço científico, para a inovação e a tecnologia. Os obstáculos são imensos e não estimulam os investimentos e muito menos o empreendedorismo”, afirma o professor.

A diretora do centro também citou a estruturação dos próprios Cepids, que, em sua maioria, desde que constituídos, ainda não completaram os quadros de especialistas, técnicos e pós-doutores necessários para o andamento dos estudos. “Alguns desses centros especializados recebem milhões para pesquisa. Mas isso não adianta. As regras extremamente burocráticas continuam um problema para o avanço científico em nosso país”, criticou a professora Ohara.

Equilíbrio celular – Processos redox, ou reações de oxidação e redução, estão intimamente ligados à vida de um modo geral. Envolvem a transferência de elétrons de um doador para um receptor. Feitas por meio dos radicais livres ou de intermediários não radicalares, são responsáveis pela manutenção da saúde e do equilíbrio dos organismos e do ambiente.

Um exemplo conhecido desses processos é quando o ferro reage com o oxigênio e enferruja. A combustão de motores é outro exemplo. O movimento produzido pelo motor é possível graças à queima (oxidação) do combustível.

Tais reações desempenham um relevante papel na maioria das doenças, entre elas as prevalentes no Brasil, como aterosclerose, câncer, doenças inflamatórias e outras. Pelo fato de os radicais livres e os seus inibidores, os antioxidantes naturais, estarem ligados ao envelhecimento e ao câncer, a ciência tem feito grandes investimentos nos estudos das operações redox. Mas o conhecimento científico sobre tais processos fisiológicos e patofisiológicos ainda é incipiente em muitos aspectos.  Daí a importância de constituir no Brasil um centro especializado sobre o tema.

O encontro na Biblioteca Mindlin mostrou, na primeira parte do programa, os principais resultados de cada uma das quatro metas de pesquisa do Cepid Redoxoma. O professor Luis Eduardo Soares Netto, do Instituto de Biociências (IB) da USP, abordou a meta sob sua coordenação, Geração e Controle de Oxidantes e Radicais em Sistemas Biológicos. A professora Marisa Helena Gennari de Medeiros, do Instituto de Química da USP, trouxe os resultados relacionados à Reatividade Química de Oxidantes e Radicais em Ambientes Biológicos e Consequentes Alterações na Estrutura e Função de Biomoléculas. Os Mecanismos e Redes Envolvidos nos Processos de Sinalização Redox Relevantes para Doenças foram abordados pela coordenadora da área, professora Alícia Kowaltowski. Finalmente, Aplicações Diagnósticas e Terapêuticas de Processos Redox foi o tema apresentado pelo professor Laurindo, que coordena essa meta.

O evento marcou também o lançamento do segundo número da Redoxoma Newsletter, disponível pelo link http://redoxomanewsletter.iq.usp.br/.

Educação – Contribuir com a melhoria do ensino de ciências nas áreas de química, biologia e bioquímica é um dos objetivos do Plano de Educação e Difusão do Cepid Redoxoma, coordenado pela professora Carmen Fernandez, do Instituto de Química da USP. A professora apresentou as diversas ações desenvolvidas com os alunos de pós-graduação e graduação, professores e alunos da educação básica e população em geral.

O estudo das reações redox está no currículo da educação básica e de diversos cursos da educação superior. No entanto, segundo Carmen, o ensino e aprendizagem de alguns conceitos relativos aos processos redox são deficientes, dificultando a compreensão tanto de alunos quanto de professores. As dificuldades começam nos próprios livros didáticos, que trazem definições que dificultam a compreensão em vez de explicar, de acordo com o plano apresentado pela professora durante o evento.

Realização de cursos e intervenções, produção de recursos didáticos para a educação básica, atividades de divulgação científica e projetos educacionais são os quatro eixos principais para o desenvolvimento das ações propostas.