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Luis Nassif Online

Os problemas da USP são estruturais, não de falta de recursos, por Luis Nassif

Publicado em 18 julho 2018

Recentemente a Vejinha São Paulo (suplemento paulista da Veja) publicou uma capa propondo saídas para a crise da USP (Universidade de São Paulo). Quase todas versavam sobre formas adicionais de conseguir recursos.

O problema da USP não são recursos. Ao contrário das universidades federais, as universidades paulistas têm autonomia orçamentária, recebendo percentuais fixos da arrecadação do ICMS. Ainda conta com financiamentos da Fapesp (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNpQ (Conselho Nacional de Pesquisa), as bolsas da Capes, os recursos das suas fundações.

Os problemas da USP são de ordem estrutural. Mas nem 30 anos de liberdade econômica abriram os olhos de parte da mídia para questões relacionadas a gestão e qualidade.

Problema 1 - compartimentalização de departamentos

Cada departamento da USP tem uma estrutura própria, com diretor, vice-diretor, departamento de RH, de transportes etc. Além de desviar recursos da universidade das atividades fim, é fator a impedir os projetos interdisciplinares. Cada projeto precisa da aprovação de cada departamento, de cada escola.

Além disso, em tese cada diretor de departamento é escolhido entre os que se destacam em sua área. Tiram um grande professor ou pesquisador e o transformam em um burocrata, consumindo seu tempo em pinimbas burocráticas de uma organização complexa, como é uma universidade.

Há lideranças acadêmicas que julgam que a autonomia universitária depende do controle da parte administrativa. Errado. Autonomia deve ser na parte acadêmica, na capacidade de definir pesquisas prioritárias, modelos de ensino e, especialmente, implementar a missão da universidade. A parte administrativa é meio.

Problema 2 - a indefinição sobre a missão da Universidade

É possível encontrar na USP departamentos que saibam claramente definir sua missão. A USP, não. Qual a missão da USP? Atender a massa de estudantes ou formar as futuras lideranças do país, incluindo os quadros que entraram com a democratização do acesso pelas cotas? É evidente que é formar lideranças. Então há que se ter um projeto claro.

De uns anos para cá, repete-se o mantra da internacionalização como missão da USP. Ora, internacionalização pressupõe parcerias com universidades internacionais, compartilhamento de cursos, compartilhamento de alunos, entrada nas grandes redes internacionais de pesquisa, uso de tecnologias de educação, cursos em inglês etc. Nada disso ocorre na USP.

Problema 3 - a falta de um conselho superior

Problema 2 decorre do Problema 3. A definição da missão da universidade deveria ser por um conselho superior, formado por representantes da sociedade civil, lideranças empresariais, cientistas, organizações e movimentos sociais, para discutir missão, objetivos e metas. Apesar de previsto há anos, a USP jamais implementou o seu.

Um conselho superior jamais teria permitido as loucuras de Grandino Rosa, o reitor que José Serra colocou para bater em estudantes e dizimar a racionalidade administrativa da USP.

Problema 4- a falta de avaliação externa

Definida a missão da USP, quem deveria avaliá-la? O natural é quem paga, o contribuinte paulista. Mas nenhum governador quis colocar a mão na cumbuca. A única avaliação a que a USP se submete é em rankings internacionais. No mais reputado deles, o Times Higher Education's World University, a USP vem despencando ano a ano. E não há um planejamento claro para recuperar a excelência perdida.

Problema 5 - a falta de indicadores

A missão principal da universidade é o ensino. Logo, a principal missão do professor é ensinar. E a melhor maneira de medir o desempenho do professor é analisando, durante o curso, o nível dos alunos, participando das provas de avaliação do MEC (a USP se recusa) e, depois de formados, a situação dos egressos. Nada disso ocorre na USP, nem nas universidades brasileiras em geral. Os indicadores se resumem aos papers publicados.

Pior, é considerado bom professor aquele que marca seu coldre com o maior número de reprovações dos alunos. Um professor que reprova mais de 50% da classe deveria ser sumariamente demitido, porque simplesmente não ensinou. E o professor que passa todos seus alunos, pode estar pretendendo apenas melhorar suas estatísticas. Como medir a ambos sem um sistema eficiente de avaliação e sem se submeter às provas nacionais?