Notícia

Folha da Região (Araçatuba, SP)

Os primitivos de Penápolis

Publicado em 07 janeiro 2018

Por Ivan Ambrósio

Imagine passar uns dias em um lugar calmo, em meio à natureza e aprendendo as mais diversas técnicas de sobrevivência sem fazer uso das tecnologias, como celular, computador e outros equipamentos. Para alguns, isso pode soar estranho, mas outros têm tido esse desejo de fugir da correria do dia a dia, explorando as atividades em meio a um ambiente bem diferente do encontrado nas cidades.

Desde janeiro de 2017, Penápolis tem oferecido essa alternativa, que vem conquistando adeptos de vários Estados e de outros países. É a “Escola de Bushcraft e Interpretação Ambiental”, termo em inglês que significa “artes do mato”. O casal de biólogos Carlos Eduardo Dias Sanhudo, de 45 anos, e Camila Yumi Mandai, de 36, explica que a atividade tem por objetivo fazer com que a pessoa tenha o contato com a natureza, conhecendo técnicas primitivas que levem seus praticantes a reflexões sobre o que é simples e essencial, bem como mostrar um pouco das origens do ser humano.

“Existem algumas formas diferentes de prática do bushcraft em Penápolis, sendo uma delas a vivência, onde os participantes passam um período maior no ambiente da natureza e vivenciam diversas atividades e reflexões”, disse Carlos Eduardo. Ele acrescentou que, quem já praticou as atividades primitivas em meio a uma mata, conhece ainda um pouco da beleza do rio Tietê, por meio das expedições feitas com caiaques. “O Interior é vasto de histórias e lugares lindos. Poucos desconhecem a beleza que temos na cidade”, ressaltou.

A escola fica em uma área de 33 mil metros quadrados de mata, plantas e árvores, às margens da vicinal Francisco Salla. A ideia em promover estas atividades em Penápolis, segundo Camila, surgiu entre 2014 e 2015, quando fez doutorado na Inglaterra. "Começamos a notar que, no fim da tarde, eles se reuniam em diversos locais e faziam piquenique, pescavam ou passeavam pelos canais. Quando voltamos ao Brasil, participamos do Programa de Pesquisa em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (Biota·Fapesp), onde o assunto foi sobre a diversidade do Estado de São Paulo, que apontou que a região Noroeste não há conservação e restauração ecológica. Foi aí que decidimos abrir a escola", comentou.

FOGO

Carlos Eduardo observou que a escola promove oficinas, que são aquelas atividades mais específicas, sendo que a que mais empolga os participantes é a do fogo primitivo. "Esta é a que mais encanta as pessoas. Muitas jamais se imaginaram fazendo fogo com madeira, por exemplo. Esta atividade nos conecta com diferentes culturas e povos, despertando sentimentos instintivos e fundamentais para o autoconhecimento. Até fazer pão na fogueira os participantes aprendem", disse. Neste caso, o preço varia de R$ 35 a R$ 210. A escola promove ainda as atividades livres, que são voltadas para aqueles grupos que querem passar um dia ou fim de semana. "Um grupo de meninas que nunca acamparam veio até a escola e encontrou a oportunidade de ter este contato com a natureza. Tudo é planeado de acordo com aquilo que a pessoa quer e tem condições de praticar", contou o biólogo.

OUTROS PAÍSES

Ainda explorando o turismo ecológico na região, a escola já recebeu pessoas de outros países, como Bélgica, Estados Unidos e Alemanha. "Foi uma experiência muito legal, pois eles, simplesmente, ficaram encantados com as belezas naturais existentes na região e fizeram questão de explorar muita coisa, como o próprio rio Tietê", destacou a bióloga. Camila ressaltou que atividades como estas podem transformar a percepção das pessoas sobre a natureza. "Você passa a explorar algo que pode ser completamente novo. A natureza é vista por muitos como algo desconhecido, mas quando você descobre aquilo que ela oferece, passa a admirá-la e adquire conhecimento ambiental, que fica integrado ao seu modo de ver e agir no mundo", finalizou.

Evento previsto para o mês de julho deve ser realizado em Alto Alegre

Alto Alegre (a 67 km de Araçatuba) será sede, em julho, do "1º Hupur (palavra caingangue que significa alumiar com fogo) Bushcraft 2018". A data ainda será definida. A organização será da Escola de Bushcraft e Interpretação Ambiental, Escola Mestre do Mato e Special Combat, tendo o apoio da Prefeitura de Alto Alegre. O objetivo do evento será reunir praticantes e apreciadores das antigas artes do mato para promover habilidades da vida primitiva como forma de lazer, cultura e preservação do patrimônio, trazendo uma série de atividades, como trilhas interpretativas, expedições de canoa, lançamento de pedra, fogo primitivo, trabalho em couro, entre outras ações. Todas as atividades acontecerão em locais abertos, sendo muitos deles em áreas naturais à beira das águas do rio Feio, berço de vários acontecimentos históricos do sertão do noroeste paulista envolvendo antigos exploradores, povos indígenas e muitos outros conhecedores das antigas artes do mato.

IA