Notícia

Gazeta Mercantil

Os políticos face à autonomia do BC

Publicado em 11 setembro 2003

Por Maria Clara R. M. do Prado
A autonomia operacional do Banco Central (BC) parece não ser mais um bicho estranho para os deputados federais. É o que se pode depreender dos primeiros resultados da pesquisa inédita que um grupo de cientistas políticos vem desenvolvendo desde meados do semestre passado sobre a autoridade monetária. O universo da pesquisa abrangeu uma amostra de 75 deputados federais, agregados ideologicamente pelo seguinte critério: foram considerados de esquerda os parlamentares do PT, PCdoB, PDT, PPS e PSB; de centro os deputados do PSDB, PMDB, PTB e dos partidos pequenos, enquanto como de direita foram classificados os do PFL, PPB e PL. Essa configuração, hoje, talvez tivesse de sofrer algum ajuste. Vale também destacar o fato de que os deputados pesquisados entre agosto e outubro de 2002 exerciam mandatos em uma legislatura que se encerrou no inicio deste ano. Portanto, é licito supor que alguns entrevistados daquele grupo de 75 não tenham sido reeleitos e que não estejam mais atuando no Congresso Nacional. Deve ser levado em conta, ainda, o fato de que as respostas dos deputados podem estar refletindo opiniões influenciadas pela posição que seu partido ocupava no governo anterior. Como se sabe, os partidos de esquerda, que eram então de oposição, passaram agora a ser da situação, enquanto o inverso ocorreu com os de direita e alguns do centro. Essa troca de posições tende a induzir a uma mudança na opinião dos deputados às questões apresentadas. A pesquisa, que abrangeu 40 questões (36 fechadas e quatro abertas), será repetida a cada 18 meses, pelo período de mais três anos. É coordenada por Lourdes Sola, cientista política da USP e consultora da MB Associados, que orienta um grupo de especialistas da USP e da FGV de São Paulo, com apoio financeiro da Fapesp. Será estendida, muito provavelmente ainda este ano, à burocracia dos bancos públicos federais e ao setor financeiro privado. O quadro acima dá uma idéia do posicionamento da Câmara Federal com respeito ao tema da autonomia do BC. Não deixa de ser curioso o resultado. Nada menos do que 56% do universo dos entrevistados (73,9% identificados como de esquerda) favorece à autonomia operacional da autoridade monetária. Pode-se dizer que concordam com um BC que atue nos moldes do Banco da Inglaterra, onde há mandatos fixos e obrigatoriedade de prestação de contas ao Parlamento. Vale notar que 68% dos entrevistados manifestaram ter "razoável" conhecimento sobre questões de política monetária, enquanto 76% (93,8% de deputados de direita e 43,5% dos de esquerda) acham que a atuação do BC melhorou depois do Plano Real. Teria melhorado ainda mais para 72% da amostra (mais de 80% para os deputados de centro e de direita e 43,5% para os de esquerda) depois da mudança da política cambial. Para 80% do total - em distribuição que ficou praticamente nivelada neste percentual entre os três espectros de agregação ideológica -, a supervisão; bancária não deve sair da esfera do BC. É um resultado que, sem dúvida, coincide com a opinião que tem prevalecido no Executivo e no mercado. Também surpreende a posição frente à coesão em torno da disciplina fiscal e monetária, considerada "importante" para 80% dos entrevistados, dos quais 56,5% de esquerda. E-mail: mprado@gazetamercantil.com.br (Esta coluna sai todas as terças, quintas e sextas-feiras)