Notícia

Jornal Primeira Página

Os nuances e as reverberações de Horacio Quiroga

Publicado em 08 maio 2008

Quando se fala em literatura produzida na América Latina, os primeiros nomes que surgem à mente são, não por acaso, os mesmos: Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda (na poesia)... Naturalmente, essas indicações surgem devido a qualidade da obra. No entanto, a literatura produzida nessa região, considerada subdesenvolvida e território de domínio europeu, teve grandes criadores, relegados a um segundo plano. Dentre alguns deles (Ernesto Sábato, Mano Benedetti, Julio Cortázar), está Horacio Quiroga.

Por fruto de um incômodo como a falta de material sobre o escritor, Wilson Alves-Bezerra, docente do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), lança hoje, a partir das 21 no restaurante Khalil (nas esquinas da Avenida Dr. Carlos Botelho com a rua José Bonifácio), o livro "Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga".

Publicado pela editora Humanitas, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a obra é o resultado de seis anos de estudos e uma dissertação de Mestrado. Bezerra conta que o interesse pela obra do escritor uruguaio, radicado na Argentina, começou quando estava na graduação. Desde então, os encantos pelos escritos de Horacio aumentaram e resultaram em outros trabalhos relacionados com Quiroga: a publicação de duas traduções "Cartas de um caçados" e "Contos da selva", lançados pela Iluminuras e "Os desterrados", que será publicado pela mesma editora no segundo semestre.

O professor explica que Quiroga é reconhecido no mundo hispânico, mas sua obra não é tão conhecida no Brasil. Enquanto estava vivo - o escritor se suicidou em 1937, no dia de seu aniversário -, ele foi um autor que publicava sua obra em jornais argentinos. No entanto, os escritos de Quiroga estão em uma encruzilhada.

Ao mesmo tempo em que era de vanguarda, foram abandonados pelos leitores modernistas, já que boa parte da produção está filiada ao século XIX. Bezerra afirma que não é possível limitar o trabalho do escritor em um período, devido ao cruzamento temporal e de tendências.

No Brasil, enquanto estava vivo, Horacio Quiroga teve uma aproximação editorial com Monteiro Lobato, que fez e publicou traduções e resenhas sobre sua obra. Na América Latina, Quiroga influenciou diretamente Julio Cortazar, que conta, segundo Bezerra, que o começo de sua carreira literária foi reescrevendo finais para as histórias do uruguaio. Outro autor que foi influenciado pela obra de Quiroga foi Juan Carlos Onetti.

Apesar de nascido no Uruguai, literariamente, Quiroga é considerado como um escritor argentino. Wilson aponta uma confluência de dois escritores domo o formador de sua escrita: Edgar Allan Poe e Anton Tchekov. Deles, ele traz o elemento do sobrenatural e o coloca na selva. No entanto, Bezerra ressalta que esse insólito aparece relacionado com a tecnologia da época, como o cinema e a fotografia. "O fantástico é mais sutil".

Reverberações — A fronteira na obra de Quiroga, estudada por Wilson Alves Bezerra, na verdade, são várias. Os conflitos, segundo o pesquisador, acontecem nos planos lingüístico, narrativo e discursivo. Cada capítulo da obra, de 211 páginas, estuda especificamente um desses aspectos. O material analisado pelo professor vai desde as obras mais célebres aos contos menores, desprezados pela crítica. Para embasar seu estudo, também recorre a estudiosos como Freud e Lacan.

Fonte: