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Os mistérios do vassoura-de-bruxa

Publicado em 09 outubro 2000

Soraya Agege escreve para "O GLOBO": A (Unicamp) começa a produzir um programa para decifrar o código genético do fungo Crimipelis perniciosa, conhecido popularmente como vassoura-de-bruxa. O microorganismo é o causador da doença que exterminou dois terços dos cacaueiros baianos nos últimos 11 anos, prejudicando enormemente a indústria nacional de chocolate, que passou a importar a matéria-prima. O grande desafio do projeto é apresentar soluções para a doença do cacau. Para isso, a Unicamp conta com uma novidade: será confeccionado um chip do DNA do fungo, graças a um equipamento que agiliza o seqüenciamento e a decodificação dos agentes biológicos. O genoma do fungo possui aproximadamente 30 milhões de pares de bases. O projeto Genoma Vassoura-de-Bruxa está orçado em US$ 1,3 milhão e teve início há dois meses. O seqüenciamento deve ser concluído até agosto de 2002. - A universidade está contatando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e as indústrias de chocolate para conseguir ampliar sua rede de laboratórios conveniados e também aumentar a verba da pesquisa. Com isso, agilizaremos as tentativas de curar a vassoura-de-bruxa - diz Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, coordenador do projeto. Atualmente, metade do chocolate usado pelas indústrias paulistas é importado da África e da Malásia e não seria de boa qualidade, perdendo para a indústria européia de chocolate. O programa é apoiado pelo governo da Bahia, que financia o projeto. As pesquisas são feitas em parceria com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), da Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia) e do Centro Nacional de Recursos Genéticos da Embrapa, com sede em Brasília. A vassoura-de-bruxa transtornou a economia do Sul do Bahia nos últimos 11 anos. O fungo é conhecido há cerca de cem anos, originário da Amazônia. Foi no final da década de 80 que ele atingiu as lavouras de cacau do Sul da Bahia. Ainda hoje provoca perdas de até 90% das plantações. Os municípios baianos que mais produziam cacau, Itabuna e Ilhéus, acabaram se transformando em pólos industrial e de informática, respectivamente. O Brasil hoje, graças às produções do Pará, Amazonas, Rondônia e Sudeste do país, continua na lista dos principais produtores mundiais, mas perde de longe para os países africanos. O principal motivo é o fungo vassoura-de-bruxa. - O fato é que já se tentou até espécimes resistentes ao fungo, mas elas acabam cedendo à vassoura-de-bruxa. O problema básico é que se tem pouca informação sobre esse inimigo -argumenta o professor Pereira. Com os avanços da genômica, os cientistas conseguem montar verdadeiros dossiês de informações sobre como agentes biológicos inimigos atacam. Por meio da bioinformática, o procedimento é remontado virtualmente, na tela de um computador. Com isso, os cientistas fazem seus prognósticos. Mais tarde, numa etapa que a genômica ainda não atingiu, eles poderão entrar em campo e controlar os agentes biológicos que causam as doenças. - A genômica dá a identidade do agente causador de cada doença. Antes, o combate ao inimigo era feito no velho método da tentativa e erro, que é o mais arriscado pois permite que o invasor se fortaleça, tornando-se imune a pesticidas - explica o pesquisador.(O GLOBO, 9/10) JC e-mail