Notícia

Correio do Povo (Porto Alegre, RS)

Os legistas deram a volta por cima

Publicado em 11 maio 2003

A medicina legal escreveu uma bonita página da história da ciência brasileira. O Centro de Medicina Legal (Cemel) da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto ganhou duas páginas na revista Nature, a publicação científica de esse ramo da medicina, que nos anos 70 escreveu uma das piores, quando uma dúzia de médicos de linqüentes assinava laudos falsos para o aparelho de matança da ditadura. Criado e dirigido pela professora Carmen Cinira Santos Martin, de 54 anos o Cemel é um dos muitos exemplos de sucesso da USP e da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo. O Centro tornou-se um núcleo de excelência científica mantendo-se longe dos holofotes, tanto da notoriedade como da Polícia. A Nature registra que, graças a um pesquisador do Cemel e ao trabalho do professor Daniel Muñoz, da USP, poderão vir a ser identificadas mais algumas ossadas das valas clandestinas de Perus. Há 15 no armário. Exames de DNA que custam em torno de R$ 2 mil na rede privada, podendo chegar a R$ 25 mil em casos de esqueletos com herdeiros, são feitas de graça pelo Cemel. Vale a pena registrar que o aparecimento de um centro de excelência médica numa área apodrecida do serviço público deve-se ao governo de um engenheiro. Foi Mário Covas quem separou os centros de pesquisa de medicina legal da máquina da Polícia. Pena que seu sucessor mantenha na Divisão de Inteligência da Polícia o delegado Laertes Calandra, interrogador do DOI, instituição fornecedora de cadáveres aos delinqüentes do IML durante a ditadura.