Notícia

Jornal da USP

Os impactos do desmatamento

Publicado em 12 maio 2014

Por Leila Kiyomura

As atividades humanas têm levado a um crescente aumento de perda da biodiversidade do planeta. Nos ambientes terrestres, as principais causas são as mudanças no uso da terra, desflorestamento, fragmentação e destruição dos hábitats e introdução de espécies exóticas invasoras. Nos ambientes aquáticos, soma-se a poluição. Diante dessa realidade, o Programa Biota-Fapesp Educação vem apresentando, desde o início do ano, o Ciclo de Conferências 2014. Com o intuito de educar e conscientizar sobre a importância de preservar os ecossistemas, o circuito de palestras traz, mensalmente, temas sobre os biomas brasileiros. As palestras são voltadas especialmente para professores e alunos de ensino médio.

No dia 24 de abril, o tema “Biodiversidade e Proteção a Recursos Hídricos” foi debatido por José Galízia Tundisi, professor do Instituto Internacional de Ecologia, Victoria Ramos Ballester, professora e pesquisadora do Centro de Energia Nuclear (Cena) da USP, e Humberto Ribeiro da Rocha, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), também da USP.

Florestas –
“A vegetação tem um papel crucial na regulação dos ciclos biológicos e biogeoquímicos nas bacias hidrográficas. O fluxo de água e nutrientes nas interfaces vegetação, solo, água superficial e água subterrânea é vital para a manutenção sustentável dos ecossistemas naturais”, salientou o professor Tundisi. “A estrutura de vegetação altera a energia potencial, reduz a erosão e altera a química da água de superfície e a química da água subterrânea. A remoção da vegetação aumenta o transporte de sólidos em suspensão, aumenta a condutividade e degrada mananciais, aumentando os custos do tratamento da água para abastecimento.”

Tundisi destacou a importância da preservação de florestas ripárias, mosaicos de vegetação e de áreas alagadas na gestão de bacias hidrográficas, contribuindo para a estabilidade dos ciclos hidrológicos e biogeoquímicos e dando condições de sustentabilidade à agricultura. “As áreas alagadas são fundamentais como sistema tampão para controle de enchentes, redução de fósforo e nitrogênio, redução de metais pesados e toxinas de cianobactéria.”

O professor alertou que a remoção de vegetação e áreas alagadas para aumento de área agrícola é um grande risco, comprometendo no futuro a reposição de água nos aquíferos, a qualidade de água superficial e subterrânea com custos econômicos, perda de solo, ameaças à saúde humana e degradação dos mananciais exigindo sistemas de tratamento mais sofisticados e de custo mais elevado em contraposição ao papel regulador dos ciclos naturais realizado pelas florestas e áreas alagadas. “Sua remoção a curto prazo causará danos irreversíveis à quantidade e qualidade da água nas bacias hidrográficas e comprometerá a saúde humana e a produção de alimentos.”

Rios – O papel dos sistemas fluviais amazônicos no balanço regional e global de carbono foi apresentado por Victoria Ballester. Lembrou que o Brasil sempre foi considerado um país rico em água com cerca de 12% dos recursos hídricos de superfície. “Esse recurso está distribuído desigualmente em três grandes baciais fluviais: Amazonas, Tocantins e São Francisco. E dois complexos de bacias: o rio da Prata, com três sub-bacias brasileiras, Paraná, Alto Paraguai e Uruguai, e os rios restantes que correm para o Atlântico que se dividem em várias bacias”. A professora lembrou que mais de 70% da água doce brasileira está na região Amazônica. “Além das águas superficiais, o Brasil abriga ainda a maior parte do Aquífero Guarani, considerado um dos maiores mananciais de água doce subterrânea do mundo que é compartilhado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.”

Os especialistas salientaram que somente 3% da água do planeta está disponível como água doce. Desses 3%, cerca de 75% estão congelados nas calotas polares em estado sólido e 10% estão confinados nos aquíferos. Ou seja, a disponibilidade dos recursos hídricos é de aproximadamente 15% da água doce do planeta. A água é, portanto, um recurso valioso extremamente reduzido, e o suprimento de água de boa qualidade é essencial para o desenvolvimento econômico, para a qualidade de vida das populações humanas e para a sustentabilidade dos ciclos no planeta.

O ciclo hidrológico, segundo os pesquisadores, está fortemente associado à vegetação e ao funcionamento dos ecossistemas, uma relação muito bem documentada na  região Amazônica. Entretanto, apesar de altamente fragmentada e reduzida cerca de 12% de sua cobertura original, a região da mata atlântica fornece água para 125 milhões de brasileiros. Em um estudo recente, foi demonstrado que algumas espécies arbóreas emergentes da mata atlântica transpiram até 525 litros de água por dia no verão e até 350 litros por dia no inverno. Em espécies arbustivas a transpiração é de cerca de 70 litros por dia o ano todo. Portanto, além de fornecer água para ¾ da população brasileira, a mata atlântica é de fundamental importância para manter o ciclo hidrológico. “A água produzida não só é vital para toda essa população como é responsável também pela produção de mais de 50% da energia hidrelétrica do Brasil”, observou Tundisi.

O ciclo de conferências do Programa Biota-Fapesp Educação tem como meta contribuir no processo de melhoria da qualidade do ensino de ciências e de aproximação do ideal de uma sociedade do conhecimento. No dia 22 deste mês, o debate será sobre “Biodiversidade e Mudanças Climáticas”. A conferência será realizada a partir das 13h30, no auditório da Fapesp (rua Pio XI, 1.500, Alto da Lapa). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3838-4000.