Notícia

Gazeta Mercantil

OS HOMENS ABRAÇAM FELIZES A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA

Publicado em 15 agosto 1995

David Landes, historiador da industrialização, certa vez observou que, embora a humanidade jamais houvesse aceito universalmente qualquer das crenças universais oferecidas para sua salvação, sempre se sentiu feliz em abraçar sem reservas a religião da ciência e da tecnologia. Essa é também uma boa descrição para o comportamento de Wall Street neste ano. Um pedante certamente diria que o entusiasmo com que os investidores aceitaram as ações do setor de tecnologia foi mais formal do que feliz. O último exemplo dessa mania de tecnologia foi a oferta inicial feita publicamente na semana passada pela Netscape Communications, uma empresa dos Estados Unidos cujo software inclui um browser que ajuda as pessoas a navegar no sistema internet. Compras frenéticas no primeiro dia puxaram o preço de oferta da ação de US$ 28 para até US$ 75, antes que as coisas se acalmassem no fechamento da Nasdaq (Sistema Automatizado de Cotações da Associação Nacional de Corretoras de Valores), na última sexta -feira, e o preço parasse nos US$ 58,25. Ao chegar a esse nível e com 15 meses de idade, a companhia deficitária, cujas receitas totais foram de US$ 16,6 milhões no primeiro semestre de seu atual ano financeiro, passou a valer mais de US$ 1 bilhão. De um dia para outro, os empreendedores que afundaram ganharam tantos milhões que relegaram os sorteados da loteria nacional britânica à condição de pigmeus. Curiosamente, o fenômeno Netscape repercutiu no lado europeu do Atlântico. O anúncio, feito na última quarta-feira, de que o fornecedor britânico de informação comercial Maid fechou um acordo com o gigante do software Microsoft, fez com que a capitalização da companhia no mercado mais do que dobrasse. A Microsoft, enquanto isso, representa um desafio em potencial para os seguidores da Netscape, uma vez que seu pacote de software Windows 95 oferecerá em breve um browser (pagina-dor) para competir com o da Netscape. A questão importante é saber se essa tecnofebre merece ser chamada de bolha. Certamente, muitos dos sintomas clássicos do fenômeno estão aí presentes, começando com um cenário monetário apropriadamente acomodatício. O hiato no crescimento mundial, que foi acompanhado por uma aguda correção de estoques neste ano, provocou um afrouxamento das condições monetárias tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Graças a esse declínio, e à tendência moderada da inflação, o rendimento real dos bônus dos principais países industrializados caiu de cerca de 5%, após a crise do mercado de bônus em 1994, para 3 a 3,50%, em meados deste ano. No mercado acionário, a despeito das avaliações relativamente altas na virada do ano as coisas permaneceram animadas. As condições climáticas parecem propícias à criação de uma bolha. Outro sintoma importante é a presença de promessas espetaculares não cumpridas. No caso da Bolha do Mar do Sul, esse sintoma se caracterizou por supostas oportunidades de negócios na América do Sul, que jamais se materializaram, combinadas com a promessa de pagamento de toda a dívida nacional. Se tomamos como referência a mania holandesa da tulipa, originada no século XVIl, a promessa é de como as tulipas se tornaram tão raras que passaram a servir como o que o economista Fred Hirsch chamou bens de posição. Para o negociante de Haarlem que gastou metade de sua fortuna num único bulbo para exibir em sua estufa, foi uma maneira de afirmar-se a si mesmo, em contraposição ao resto dos vizinhos. Não é pré-requisito de uma bolha que as receitas jamais devam fluir. Basta apenas que as expectativas sejam colocadas alto demais. No caso da recente bolha dos mercados emergentes, que estourou quando o México começou a sofrer com a imensa fuga de capitais no final do ano passado, talvez a promessa seja finalmente cumprida. Mas, baseando-se na crença de que a decisão do país de abraçar o capitalismo de mercado o transformaria numa cornucópia, os investidores estranharam seu desempenho. De fato, o crescimento econômico foi em média de apenas 2,50% no México, entre 1990e 1994. A cifra foi negativa em termos per capita, uma vez que a população cresceu num ritmo mais rápido. Os retornos financeiros também ficaram bem abaixo do que fora prometido aos investidores internacionais. Somando-se ainda a má orientação das políticas econômicas internas, o fim abrupto da euforia tomou-se inevitável. Outra condição prévia para a formação de uma bolha é que o suprimento da commodity-bolha seja excepcionalmente apertado, em face de uma muralha de dinheiro. Um caso clássico foi o mercado acionário de Tóquio na segunda metade da década de 80, quando o predomínio de interesses cruzados indicou que o estoque de ações livres disponível para negociação ficou muito restrito. O mesmo aconteceu nos mercados emergentes no ano passado, quando os mesmos confrontaram um fluxo imenso dos fundos de pensão dos Estados Unidos, que haviam abraçado a filosofia da diversificação e buscavam no Terceiro Mundo os que haviam aderido a liberalização. E isso é também verdade hoje para a Netscape. Pelo menos as ações das empresas de tecnologia têm algumas vantagens sobre as tulipas. Muitas vivem na expectativa de que as pessoas invistam nelas. Mas, se se tratar de uma bolha, e certamente parece, a ela se assemelha, e como ela flutuatais companhias ficarão mais baratas quando a bolha estourar. Isso poderá acontecer quando o crescimento global se acelerar e o rendimento dos bônus subir, talvez durante o resto de 1995. Jamais cometa a ingenuidade de pensar que as ações não resistirão - ou que a dívida nacional será reembolsada.