Notícia

Galileu

Os genes ajudarão a diagnosticar tumores em fase inicial

Publicado em 01 fevereiro 2001

A batalha contra o câncer, doença que mata mais de cem mil brasileiros por ano, está sendo travada nos hospitais, nos laboratórios, nas nossas casas, corpos e no núcleo de todas as células. O câncer é insidioso. É difícil de detectar enquanto as células proliferam sem controle. Chega a um ponto que elas extrapolam o próprio espaço e se espalham por outros órgãos. Nesse processo, as células sadias funcionam como "escudos". Embora o tumor já seja reconhecido, não há modo de atacá-lo sem machucar também as vizinhas inocentes. Os resultados podem ser bem desagradáveis, a ponto de muitas pessoas terem mais medo da quimioterapia ou das cirurgias mutiladoras do que do próprio tumor. O que muda na luta contra o câncer depois do Projeto Genoma? Em primeiro lugar, é preciso entender que o processo de multiplicação exagerada das células que origina o câncer começa nos genes. Algumas vezes, ele é provocado por mutações no DNA herdado dos pais, acionadas pelas condições pouco saudáveis ao longo da vida, como exposição à radiação, substâncias químicas danosas, vírus, cigarro etc. Se os cientistas pudessem saber o que tira as células do eixo e o que acontece dentro dos tumores para elas se multiplicarem dessa forma, seria possível, teoricamente, criar drogas capazes de bloquear esses comportamentos bioquímicos. Ou atacar apenas os tumores, deixando as células saudáveis em paz. DNA LIXO Outra linha de pesquisa visa liquidar o tumor antes que ele se manifeste. "No futuro, o paciente vai chegar ao consultório antes de ter sintomas", prevê o especialista Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma Câncer, realizado no Brasil com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do Instituto Ludwig. Os integrantes do projeto querem identificar genes associados aos tipos de câncer mais freqüentes no país, como mama, intestino, estômago, cabeça e pescoço. Quais entre os mais de 100 mil genes do genoma humano podem causar câncer quando deixam de funcionar direito? Como eles agem? Associados ou sozinhos? Que fatores desencadeiam as mutações nesses genes? São algumas das perguntas que os cientistas querem responder. O projeto do genoma do câncer brasileiro usa para isso uma técnica chamada Orestes (sigla para Open Reading Frame EST) destinada a "ler" a ordem das letras que formam os genes. Embora a seqüência de letras químicas do genoma seja imensa, uma boa parte não significa nada. É o que os cientistas chamam de lixo. A técnica dos brasileiros permite isolar os genes que parecem estar ativos nas células, deixando de lado o lixo. Depois se identifica aqueles que estão presentes em células dos tumores e podem servir de alerta sobre a doença. (Veja nos quadros o que isso deve significar no futuro). HOJE Dor e desgaste no ataque a efeitos O personagem fictício João, que ilustra essas reportagens sobre o Projeto Genoma, descobre que tem um tumor no cólon. Foi um golpe duro para ele e sua família. A palavra "câncer" é um fantasma que assusta todo mundo, pois quando em fase avançada significa quase uma sentença de morte. A mãe de João, uma senhora dos tempos antigos, ainda se recusa a falar a palavra câncer, preferindo nomeá-la como "aquela doença ruim". João inicia o tratamento, sabendo que ele vai ser doloroso. - Vamos tentar reduzir o tamanho do tumor antes de fazer uma cirurgia para removê-lo, diz o especialista. Isso significa várias sessões de quimioterapia das quais ele sai abalado. O cabelo de João começa a cair, ele sente náusea e precisa do apoio familiar para se recuperar. É submetido também a sessões de radioterapia. Alguns meses depois que o tumor foi atacado dessa forma fortíssima, João está preparado para a cirurgia. Trata-se de uma operação delicada, que demora várias horas. O resultado ainda é incerto, mas há esperanças. Todos rezam para que tenha bons resultados. FUTURO Detecção precoce e drogas eficazes A história se passa daqui a 30 anos e o impacto é quase o mesmo. O personagem João descobre que tem câncer de cólon, uma doença gravíssima. A notícia abala a família. Ele vai ao médico e começa o tratamento. Mas então, seu sofrimento não será tão terrível. O oncologista tira algumas células do tumor de João e as coloca em um microchip. Em minutos, são identificados os genes mutantes que provocam a doença. Graças ao Projeto Genoma, os cientistas desenvolveram remédios que funcionam de maneira muito eficiente. O oncologista de João seleciona as drogas relacionadas aos genes danificados do paciente, mas que não atacam as suas células saudáveis. COMO SE FORMA A DOENÇA Genes que normalmente mantêm as células saudáveis sofrem mutação, fazendo-as reproduzir-se descontroladamente e transmitir essa alteração 1 As células mutantes formam uma massa, que é o tumor. Esse processo poder levar muitos anos 2 As células continuam a se dividir sem controle. Para isso, precisam de nutrientes. Criam então diversos vasos sangüíneos que desviam sangue para elas 3 As células do tumor se fortalecem e sobrevivem mais do que as outras do organismo 4 Ocorre a metástase: as células cancerígenas começam a se espalhar pelo corpo, gerando novos focos de formação de tumores