Notícia

Jornal da USP

Os frutos da academia para a sociedade

Publicado em 13 março 2000

A universidade pública está presente em cada canto da sociedade brasileira. Desde a década de 30 - quando a criação da USP impulsionou a atividade científica no Brasil, a contribuição de pesquisadores ligados a centros de pesquisa federais e estaduais ultrapassa os muros universitários e beneficia diretamente todo o País. As grandes conquistas da ciência brasileira - como o aumento da oferta de alimentos, a exploração de petróleo em águas profundas, a produção de vacinas e o desenvolvimento de aparelhos médicos ultramodernos - são devidas à universidade pública. O exemplo mais recente e brilhante do desempenho da universidade pública no Brasil é o Projeto Genoma-Xylella. Financiado pela Fapesp e concluído em fevereiro, esse projeto fez o mapeamento completo da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora da chamada "praga do amarelinho", que infesta um terço dos laranjais paulistas. Foi uma façanha invejada pelos maiores laboratórios de genética molecular do mundo: nunca antes havia sido feito o seqüenciamento completo de um organismo causador de danos à agricultura. Dos 192 pesquisadores participantes do projeto, nada menos que 92% estavam ligados a universidades e institutos de pesquisa públicos, como USP, Unicamp, Unesp, Instituto Butantan e Instituto Biológico. Mas o Projeto Genoma-Xylella é apenas a coroação de um trabalho dedicado, contínuo e silencioso feito pelos cientistas brasileiros - que em sua esmagadora maioria se encontram nas instituições públicas de pesquisa. "As universidades federais e estaduais são um precioso patrimônio da sociedade que levou décadas para ser construído", afirma o professor Alberto Carvalho da Silva, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Ele lembra que as universidades particulares levarão também muito tempo para poder dar ao País os benefícios que até hoje foram oferecidos quase exclusivamente pelas universidades públicas. Se, nesse período, as instituições públicas fraquejarem, haverá "um vácuo" no desenvolvimento científico e tecnológico, que trará atrasos e prejuízos ao Brasil. "A meu ver, o erro não está em apoiar as particulares, que precisam crescer e contribuir com a ciência e a pesquisa", diz o professor. "O erro está em esquecer as públicas." CIÊNCIAS DA SAÚDE O patrimônio a que se refere o professor Alberto Carvalho da Silva diz respeito a um imenso conhecimento acumulado ao longo de décadas - que resultou em benefícios diretos à sociedade brasileira. E isso em todas as áreas do conhecimento, desde a medicina e a química até a engenharia, as ciências agrárias, as ciências ambientais, humanas e sociais. Tome-se como exemplo a área da saúde. O Instituto de Ciências Biomédicas e o Hospital das Clínicas de São Paulo - ligado à Faculdade de Medicina da USP - desenvolveram uma forma de tratamento de choque hemorrágico à base de soluções hipertônicas. Essa técnica aumentou em 5% a 10% a sobrevida de politraumatizados e contribuiu para reduzir a ocorrência de sobreviventes em condições de "vegetais" por lesão cerebral irreversível. Atualmente, grupos de pesquisadores dos Estados Unidos, Índia, China e Japão dedicam-se ao estudo da descoberta dos cientistas brasileiros. Na Faculdade de Ciências Biomédicas da Unicamp, pesquisadores criaram um diagnóstico de doenças hematológicas no feto, que acusa a ocorrência de hemofilia, talessemia e anemia falciforme. Antes, o diagnóstico dessas doenças era feito apenas seis meses após o parto, o que resultava em elevados índices de mortalidade. Graças a essa pesquisa, o diagnóstico na fase intra-uterina é obrigatório em Campinas desde 1994. Em nove anos de trabalho, o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo desenvolveu um produto à base de lipídios - uma substância química - para ser usado junto com diferentes medicamentos no tratamento do câncer. Esse produto é capaz de aumentar a ação terapêutica dos remédios e reduzir seus efeitos colaterais. O processo para a produção e comercialização da descoberta - já patenteada - encontra-se em andamento. O Instituto Butantan - uma instituição pública que, embora não seja uma universidade, está estreitamente relacionado ao meio acadêmico - fez proezas na área de engenharia genética. Através dessa avançada tecnologia, ele concebeu uma vacina contra a hepatite B que custa US$ 0,80 a dose - o equivalente a 10% do valor da dose da vacina importada, que custa US$ 8,00. A importância social dessa conquista é imensa: 2% da população brasileira tem a hepatite B. Em algumas regiões da Amazônia, esse índice chega a 20%. Está em fase de testes atualmente uma vacina contra a esquistossomose - desenvolvida numa parceria entre o Instituto Butantan e o Centro de Pesquisas René Rachou, de Belo Horizonte, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Recentemente, os meios científicos de todo o mundo receberam com entusiasmo a notícia de que o professor Célio Lopes Silva, da USP de Ribeirão Preto, desenvolveu uma vacina contra a tuberculose - doença que a cada ano faz milhões vítimas. Outros exemplos do trabalho da universidade pública na área da saúde são os estudos sobre prevenção e controle da malária feitos pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP - que erradicaram a doença de uma população de madeireiros de Rondônia e servem como modelo para a formulação de políticas de saúde pública. POLUIÇÃO NA AMAZÔNIA Uma pesquisa do Instituto de Física da USP faz atualmente o monitoramento da poluição atmosférica na Amazônia. Foram montadas na região três estações permanentes - em Cuiabá, Alta Floresta e Serra do Navio. O estudo analisa as queimadas e sua influência na presença de aerossóis na atmosfera, a emissão de mercúrio e fluxos de migrações em conseqüência da ocupação desordenada do solo. Com os resultados já obtidos, os pesquisadores fizeram sugestões às secretarias de saúde daqueles municípios sobre cuidados com as populações e tratamento dos rejeitos da mineração. No Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp são feitos alguns dos melhores trabalhos do Brasil sobre o processo de aquisição da linguagem. Ali se encontra um banco de dados com gravações realizadas com crianças normais e deficientes, num total de 412 horas de registro. Esse banco de dados permitiu a descoberta dos erros que fazem parte do aprendizado normal da fala e daqueles decorrentes de doenças, contribuindo para a reorientação da clínica fonoaudiológica quanto ao diagnóstico e à terapia. Primeiro laboratório dessa área em toda a América Latina, o instituto inspirou a formação de grupos de pesquisadores na PUC de São Paulo e nas Federais de Goiás, Pernambuco e Alagoas. A Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é um centro de excelência na área da agricultura, dando importantes contribuições para o aumento da oferta de alimentos no Brasil. A cultura da soja é sensivelmente beneficiada pelos estudos sobre fixação de nitrogênio por bactérias associadas com raízes de plantas realizados pela Universidade Rural do Rio de Janeiro. Pesquisas sobre a contaminação das águas pelo mercúrio utilizado no garimpo têm lugar na Universidade Federal do Pará. As Federais do Amazonas e de Santa Catarina se destacam, entre outras áreas, na criação de peixes. Em Pernambuco, pesquisadores se dedicam a combater a desnutrição infantil. "Na Bahia e no Rio de Janeiro, paralelamente, pesquisadores da universidade pública contribuíram de forma essencial para a indústria do petróleo", informa o documento A presença da universidade pública, recentemente lançado pela Reitoria da USP. "Sem eles, não existiriam os pólos petroquímicos baianos nem a técnica para perfuração em águas profundas, que se tornou uma das mais avançadas, se não a mais avançada do mundo." É todo esse imenso conhecimento - fundamental para o desenvolvimento do País - que os cientistas brasileiros teimam em preservar e ampliar através das universidades públicas. "A sociedade não pode deixar de preservar esse patrimônio, para o seu próprio bem", afirma o professor Alberto Carvalho da Silva. UMA AJUDA PARA A SAÚDE E A CULTURA Mais do que formar profissionais e criar conhecimentos que beneficiam diretamente toda a sociedade, as universidades públicas brasileiras são responsáveis ainda por uma ampla prestação de serviços em várias áreas, como saúde, educação e cultura. Os hospitais vinculados às universidades públicas oferecem 19.900 leitos. Outros 3.100 leitos são oferecidos pelas universidades privadas. No Estado de São Paulo, somente no ano de 1997, cerca de 7.000 leitos de hospitais universitários atenderam à internação de 426.895 pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de 52.226 partos, segundo dados coletados pelo professor Alberto Carvalho da Silva, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Só os três grandes hospitais da USP - Hospital das Clínicas de São Paulo, Hospital Universitário e Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto - são responsáveis por 3.500 leitos, com cerca de 180 mil pacientes internados por ano, além de 6 milhões de atendimentos ambulatoriais. Metade dos 15 mil profissionais de saúde que atuam em hospitais de ensino pertencem aos hospitais das três universidades paulistas, USP, Unicamp e Unesp. "Acrescente-se ainda que, ao lado da boa qualidade dos serviços prestados por esses hospitais, eles são responsáveis pela introdução e aperfeiçoamento dos progressos recentes em medicina humana, tanto em diagnóstico como em tratamento, inclusive cirurgia cardiovascular, transplantes de coração, fígado, rim, medula óssea e pulmão", lembra o professor Alberto Carvalho da Silva. Mas não é só. Nos diferentes Estados em que se localizam, as universidades públicas desenvolvem programas de difusão cultural abertos a toda comunidade. Só a USP, por exemplo, tem uma série de atividades que ocupam todo o ano. Uma delas são as apresentações da USP Sinfonietta - o novo nome da Orquestra Sinfônica da USP -, composta por 32 instrumentistas de corda e número variável de instrumentistas de sopro e de percussão. O grupo realiza concertos regularmente e concursos nacionais e internacionais de composição, regência e execução musical. Já o Coral da USP (Coralusp) conta com cerca de 300 cantores, divididos em seis grupos. O coral fomenta a criação de grupos amadores, mantém um banco de partituras para consulta do público interessado e ainda desenvolve intercâmbios com corais do Brasil e do exterior. O Teatro da USP (Tusp) e o Cinema da USP (Cinusp) são outros órgãos da universidade que incentivam a cultura. Localizado no Centro de São Paulo, o Centro Universitário Maria Antonia promove ao longo do ano exposições, debates e jornadas científicas. A Estação Ciência, situada no bairro da Lapa, é um centro de divulgação científica que a cada ano recebe milhares de estudantes do ensino fundamental e médio. OS GRANDES MUSEUS A USP administra também quatro museus. O Museu de Arte Contemporânea (MAC) - com sede na Cidade Universitária e no Parque do Ibirapuera - possui 5.362 obras de arte, representativas das principais tendências artísticas do século 20. O Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) conta com um acervo de mais de 100 mil objetos relacionados com a arqueologia brasileira, a arqueologia mediterrânea e médio-oriental e a etnologia afro-brasileira. Já o Museu do Ipiranga tem 8.000 peças - entre telas, móveis, veículos e objetos de uso doméstico - datadas do século 19 e do início do século 20. É o museu mais procurado pela comunidade, com cerca de 300 mil visitantes por ano. O Museu de Zoologia - que recebe 70 mil visitantes por ano, a maioria formada por alunos do ensino fundamental e médio - reúne o maior acervo zoológico da América do Sul, com 3,5 milhões de exemplares. Programas de cooperação com diferentes setores da sociedade são desenvolvidos por um órgão da USP que atende pelo longo nome de Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais (Cecae). Entre esses programas, a Cecae mantém o Programa de Cooperação Universidade-Empresa, que atua através do Disque-Tecnologia, do Atual-Tec e do USP-Tec. O Disque-Tecnologia atende em média 2.500 consultas anuais de micros e pequenas empresas, que buscam na Cecae orientação de especialistas da universidade para produzir melhor. O Atual-Tec promove cursos e seminários para treinamento tecnológico e gerencial, com mais de 2.000 participantes por ano. O USP-Tec facilita o acesso das micros e pequenas empresas aos mecanismos de financiamento de órgãos federais como a Finep. A Cecae mantém ainda programas como o Cooperação Universidade-Sistema Educacional, que divulga todas as iniciativas das unidades da UPS visando à melhoria do ensino fundamental e médio, e o Cooperação Universidade-Comunidade - que inclui projetos de educação ambiental e rede de informações sobre deficiências físicas e mentais. O Centro de Inovação Tecnológica de São Paulo e o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas - iniciativas que buscam repassar para as empresas a tecnologia desenvolvida na Universidade - também têm a participação da Cecae. "Claro que nem todas as universidades públicas têm um programa de extensão tão amplo quanto a USP, mas todas elas são fundamentais na comunidade em que estão inseridas", diz Alberto Silva.