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Correio Popular

Os filhos do Big Bang

Publicado em 06 outubro 2000

Por Maria Teresa Costa - Do Correio Popular — teresa@cpopular.com.br
Os primeiros 40 tanques do complexo que será montado na Argentina, com participação de físicos brasileiros, para tentar descobrir a natureza e a origem da radiação cósmica de alta energia que constantemente atinge a Terra, e com isso dar mais um passo para o entendimento da origem do universo, estarão instalados até novembro, informou ontem o coordenador brasileiro do projeto Observatório Pierre Auger e professor do Instituto de Física da Universidade Estadual de ; Campinas (Unicamp), Carlos Escobar. Essas partículas, acreditam os físicos, podem ser fósseis cósmicos do big bang, a grande explosão que deu origem ao: universo, conforme a teoria mais aceita. Os físicos, já são 300 no projeto, tentarão descobrir qual a fonte dessa radiação, hoje um dos maiores mistérios. Para pesquisar essas partículas, explicou ontem o coordenador brasileiro do projeto em palestra na Unicamp, será instalado um complexo de observação com 1.600 tanques. Cada um terá capacidade de 12 mil litros e o total cobrirá uma área de 3 mil quilômetros quadrados, para poder ver raios de extrema energia que chegam a uma taxa de uma partícula por século por quilômetro quadrado. Fenômeno difícil de observar, porque haveria necessidade de saber antecipadamente onde essa partícula iria cair. Mas com o sistema montado de observação, os físicos irão utilizar a atmosfera para poder detectar as subpartículas que serão geradas pela partícula original quando ela entrar na atmosfera. Ao entrar, explica Escobar, a partícula cósmica vai colidir com um núcleo na alta atmosfera e se espatifar. No choque, serão geradas centenas de partículas que novamente irão se chocar e até atingir o solo serão milhares delas. A esse processo, os físicos chamam de chuveiro cósmico. Estes "chuveiros" atingem a superfície da terra numa área de quilômetros quadrados. Eles são detectados na superfície da terra pela luz que deixam em tanques d'água (chamada radiação Cerenkov) ou na atmosfera (somente mensurável à noite), por fluorescência. É isso que será medido. "Vendo" a queda, o que pretendem é traçar o caminho inverso para tentar descobrir onde está a fonte dessa radiação que pode ser testemunha da origem do universo. O projeto Observatório Piere Auger terá duas estruturas montadas. Uma na Argentina (em Mendonza) e outra nos Estados Unidos. Os primeiros 40 tanques e mais um telescópio começarão a operar experimentalmente e servirão para mostrar que os físicos envolvidos no projeto são capazes de conseguir, pelo menos, indicar de onde vem as partículas cósmicas de alta energia. A radiação cósmica é, aparentemente, o fenômeno mais violento do universo. A energia dessas partículas, estima-se, é 100 milhões de vezes maior que as mais altas produzidas em laboratórios terrestres. O objetivo do projeto é medir a direção de chegada, a energia e a composição química de 60 eventos por ano com energias acima de 1020eV (eletronvolts) e 6 mil eventos por ano com energias acima de 1019 eV. PROJETO CUSTA US$ 80 MILHÕES O projeto de construção do Observatório Pierre Auger está orçado em US$ 80 milhões. Ao Brasil caberá investimentos de US$ 3,5 milhões dos quais US$ 1,34 milhão foram liberados pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq). A expectativa é que em cinco anos os cientistas já tenham uma idéia de onde vem as partículas cósmicas de alta energia. O programa já está envolvendo 300 pesquisadores de 19 países. Nesse grupo de caçadores de partículas estão sete professores, cinco pós-doutores e sete estudantes de pós-graduação do Instituto de Física da Unicamp. Participam os Estados Unidos, a Argentina, com aportes financeiros de US$ 15 milhões e de US$ 10 milhões respectivamente; a China, o Japão, o Vietnã, a Alemanha, a Austrália, o Brasil, a Grécia, a Armênia, a Eslovênia, a Bolívia, a Polônia, a República Tcheca, a Grã-Bretanha, a França, a Itália, e o México. O que já se sabe é que a maioria dessas partículas é constituída por núcleos de átomos ou por elétrons. (MTC)