Notícia

Gazeta Mercantil

Os doutores querem lucro

Publicado em 26 dezembro 2000

Por Ricardo Kauffman — de São Paulo
Pós-graduados acostumados à vida nas universidades começam a disputar espaço no concorrido mercado de tecnologia. Por meio de incubadoras de empresas de ponta, eles abrem seus próprios negócios e já têm lucros. Dos 27 mil PhDs brasileiros, 462 possuem empresas e outros 700 trabalham em grandes companhias. O engenheiro de materiais Francisco Braga desenvolveu um composto a partir de ossos bovinos que reduziu em 60% o custo de enxertos periodontais. Hoje comanda a Proline, que fabrica compostos usados na regeneração óssea nas áreas odontológica e ortopédica e fatura R$ 30 mil por mês. Braga é um dos doutores-empresários instalados no Centro Incubador de Empresas Tecnológico (Cietec), da USP. A Laser Tools, do físico Spero Monteiro, com doutorado em Utah (EUA), já passou de micro para pequena empresa. Especializada em perfuração e gravação a laser, alcançou o faturamento de R$ 150 mil em doze meses. "É preciso derrubar o tabu que mantém os pesquisadores dentro da academia", diz Monteiro. O Cietc, instalado num prédio de três andares, foi instituído em 1988 com participação de 15 empresas de alta tecnologia, todas de professores-doutores. Delas, apenas uma abandonou a empreitada. (Pág. A-4) DOUTORES-EMPRESÁRIOS DISPUTAM O MERCADO Ricardo Kauffman Os PhDs brasileiros estão começando a sair das universidades e a ganhar o mercado. Por meio de incubadoras de empresas de ponta, eles abrem negocio próprio e colocam em prática inovações tecnológicas alcançadas em anos de estudo. São profissionais como Francisco Braga, doutor em engenharia de materiais, que criou a Proline, fabricante de um enxerto periodontal que é 60% mais barato que o similar importado, e já fatura R$ 30 mil por mês. E também como o físico Spero Monteiro, que fez doutorado em Utah (EUA) e comanda a Laser Tools, especializada em gravação e perfuração a laser. A empresa já tem mais de 50 clientes fixos, entre os quais a Visteon (ex-Ford), que fornece às montadoras consoles e equipamentos de som. Levantamento da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas mostra que há atualmente 1,1 mil empresas desse tipo incubadas no País, nas quais trabalham 462 doutores-empresários. O número não é tão pequeno, se comparado aos 700 PhDs que trabalham nas grandes empresas (segundo estimativa da Associação Nacional de Pesquisa em Empresas Inovadoras), mas é ínfimo diante dos 27 mil doutores presentes nas universidades (ver tabela). Muitos dos doutores-empresários que estão conseguindo reverter esse quadro tiveram uma longa trajetória acadêmica. Francisco Braga, da Proline, teve mais de uma passagem pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) da Universidade de São Paulo. Trabalhou também em empresas como Pirelli, Alcoa e Viabras (fabricante brasileira de foguetes teleguiados) e foi consultor. Por ironia, a volta para a universidade em 19% foi a ponte para criar sua empresa, instalada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec). "Tive contato com o Cietec por ter retornado ao Ipen", conta. O carro-chefe da Proline é o hidroxiapatita, composto de cálcio e fósforo. Similares desse material são importados. O cientista desenvolveu um novo processo para a obtenção do composto que utiliza substâncias provenientes de ossos de animais bovinos em vez de produtos químicos, o que o barateou muito. A sua maior aplicação cabe aos dentistas, que o usam em enxertos indicados a pacientes com doenças periodontais. "A Proline permitiu que esse tipo de enxerto deixasse de ser acessível apenas a uma pequena camada da sociedade e passasse a ser utilizado pela classe média", afirma Antonio Ribeiro, proprietário da Odontex, distribuidora de produtos odontológicos de Curitiba. A hidroxiapatita é utilizada em quantidades muito pequenas. Cada frasco contém meio grama. "O produto da Proline chega ao mercado por cerca de R$ 30 o frasco, contra R$ 80 dos importados. Hoje a empresa atende a 100% dos meus pedidos", afirmou Ribeiro. Segundo ele, um enxerto desse tipo custava R$ 300, em média, com o material estrangeiro. Agora custa cerca de R$ 200. Braga comercializa atualmente cerca de meio quilo do produto por mês, o que lhe confere um faturamento mensal de R$ 30 mil. "Acredito que poderemos multiplicar nosso mercado. Atendemos hoje 250 dentistas, que representam 1% do total de profissionais que utilizam esse material no País", afirma. Também a Laser Tools está registrando crescimento. Recentemente ela passou de micro para pequena empresa, uma vez que nos últimos 12 meses superou a marca de R$ 150 mil de faturamento. Spero Monteiro, seu idealizador, comandou o Ipen no início da década de 90 e participou do desenvolvimento do primeiro laser de cristais do Brasil. Com a possibilidade de trabalhar em um projeto próprio, ele se especializou em aplicações de laser. "Nosso diferencial é atender clientes com necessidades específicas, que tem produtos nos quais ainda não foi utilizado o laser", diz. A gravação a laser é essencial na classificação e estoque de peças muito pequenas, bastante presentes nos setores médico e de autopeças. Nesses casos a estamparia convencional não funciona. No Cietec desde 1998, a empresa de Monteiro começou a fazer negócios em setembro do ano seguinte. Hoje, além dos cinco sócios (quatro doutores e um mestre), trabalham na empresa três funcionários e três bolsistas do CNPq que estão desenvolvendo utilizações para o feixe de raio laser. Proline e Laser Tools são empresas que estão no final do processo de incubação. No primeiro semestre de 2001 elas terão instalações próprias. O Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, instalado num prédio de três andares e 7,4 mil metros quadrados no Ipen, foi instituído em 1998 com a participação de 15 empresas de alta tecnologia, todas de professores doutores. Das 15, apenas uma deixou a empreitada. O período de incubação é de três anos. Nessa fase, a incubadora oferece às empresas uma sala, secretária, linha telefônica, linha para acesso à internet, consultoria de marketing e apoio para a formatação de pedidos de recursos e bolsas para a Fapesp. CNPq e outras instituições fomentadoras. "O maior benefício do Cietec é oferecer acesso aos mais de 400 laboratórios da USP, Ipen e IPT aos cientistas incubados", afirma Sérgio Risola, gerente do Cietec. A utilização dos laboratórios é gratuito no caso dos experimentos que não causam desgaste. Quando são necessários ensaios, ó cobrado o preço de custo que, segundo Risola, representa 10% do valor do mercado. Pela estrutura oferecida a empresa incubada paga, em média, um condomínio mensal de R$ 350. Depois que conseguem ser abrigadas pelo Cietec, as empresas entram com pedidos de bolsa. A Fapesp já colocou em nove empresas R$ 1,2 milhão em 16 meses para compra de equipamentos. O material, após o uso da empresa incubada, fica com a universidade. O CNPq fornece bolsas de remuneração a funcionários e donos de empresa. Variam de R$ 1,2 mil a R$ 3,4 mil. Dentro do Cietec já foram concedidos R$ 1,2 milhão em 25 bolsas. Por sua vez, a estrutura do Cietec, que custa R$ 14 mil por mês, é bancada pelo Sebrae. O centro já garantiu recursos - a maior parte proveniente do Sebrae - para promover uma grande ampliação do número de empresas incubadas. Por isso está sendo feita a seleção de mais de uma centena de projetos para o preenchimento de 65 vagas em março. Até setembro entrarão mais 54, aumentando para 134 o número de empresas, até o final de 2001. "Com a estrutura da incubadora estamos conseguindo derrubar o tabu que mantém os pesquisadores dentro da academia", diz Monteiro, da Laser Tools. CENTRO ABRIGA PROJETOS QUE NÃO FATURAM O Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), instalado na USP, conta atualmente com 14 empresas. Destas, cinco já estão obtendo rendimentos (caso da Proline e Laser Tools) e nove ainda não têm seus produtos prontos para o mercado e, portanto, não estão faturando. Muitas delas desenvolvem produtos de grande complexidade técnica o potencial econômico. É o caso da Tecnolab do Brasil, idealizada por Isaac Newton Lima da Silva, que além do nome sugestivo (dado pelo pai, um físico), tem uma carreira acadêmica de alto nível. Formado em engenharia mecânica, ele tez doutorado em instrumentação na University of Manchester Instituto of Science Tecnology (Umist), na Inglaterra. Lá permaneceu de 1996 a 1999, quando teve contato com o projeto do Iriscan, um scanner indutivo que é capaz de detectar a corrosão de metais contidos no interior de estruturas de concreto. Sua lese de doutorado foi a respeito do Iriscan. No ano passado, quando concluiu a tese, recebeu propostas da Umist e da Leeds University, outra universidade inglesa, para trabalhar como pesquisador do scanner de concreto. No entanto, lsaac optou por voltar ao Brasil para criai a Tecnolab, no Cietec. "Preferi vir para cá, porque tenho a chance de desenvolver todo o potencial do experimento e não ficar restrito à pesquisa. A minha ambição é produzir o Iriscan e outros produtos em escala industrial", afirma Isaac. Além da estrutura do Cietec, o cientista dispõe de uma bolsa do CNPq de R$ 96 mil para a compra de equipamentos e outra da Fapesp, com a qual remunera dois pesquisadores. Há pouco mais de um ano no centro incubador. Isaac desenvolveu uma nova versão do scanner, cujo software tem interface com o Windows. O Iriscan funciona pelo princípio do eletromagnetismo, com o qual e possível obter informações, sobre os metais dispostos dentro do concreto, como sua posição, geometria e condições (se estão corroídos). Sua aplicação será indicada para empresas de construção civil e órgãos responsáveis pela inspeção de prédios. A técnica é inédita no mundo todo. "Hoje, para se saber se existe alguma corrosão dentro de uma estrutura, é preciso arrebentar a capa de concreto. Quando estiver pronto, o scanner será portátil e poderá produzir um diagnóstico praticamente instantâneo com um custo muito menor", afirma. O cientista acredita que em um ano e meio, após o término da pesquisa para a produção em série, acabamento, design e marketing, o produto estará disponível para ser comercializado. Outra empresa incubada, a Electrocell, mostra como o convívio entre os pesquisadores, dentro do Cietec pode ser produtivo. Ela é fruto da sociedade entre os criadores de outras duas incubadas: a Anodarc, dos engenheiros Volkmar o Gerhard Ett; e a DC-System, do também engenheiro Gilberto Janólio. Eles se conheceram no centro e decidiram entrar no mercado de células a combustível. Especialistas de várias partes do mundo estão estudando esta nova tecnologia, que pode substituir o motor a explosão. Diversas montadoras já têm protótipos. Sua fonte é o hidrogênio obtido a partir da energia solar ou eólica, que não emitem poluentes. A célula também pode ser alimentada por combustíveis tradicionais. Neste caso, sua eficiência na transformação do combustível em energia é 100% maior do que a convencional. "O nosso mercado potencial não é apenas o das montadoras. A célula também será utilizada na substituição de geradores de energia muito comuns em hospitais e hotéis", afirma Gerhard Ett. A célula de combustível da Electrocell já está pronta. A empresa agora negocia seu fornecimento com diversos interessados, inclusive do setor automotivo. Mas as informações são guardadas a sete chaves. R.K. FUNDOS FINANCIARÃO EMPRESAS DE PHDS Os fundos de capital de risco, também conhecidos como venture capital, poderão proporcionar uma grande expansão do número de empresas incubadas de alta tecnologia no ano que vem. "As pequenas empresas de alta tecnologia tom esses fundos como grande fonte de financiamento. Recentemente fomos contatados por possíveis gestores e, ao que tudo indica. São Paulo será alvo da formação de mais um fundo", afirma Sérgio Risota, gerente do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec). Os investidores dos fundos de capital de risco aplicam recursos desde o começo da empresa. Desta forma tornam-se sócios com grande participação (menor que 50%, obrigatoriamente) de empresas com forte potencial de crescimento. O banco Fator é gestor de dois fundos mútuos de empresas emergentes, um em Minas Gerais, outro em Santa Catarina, que foram criados em 1997. Os investidores são fundos de pensão de atuação nacional, como Previ e Centrus, e o BNDESPar. Juntos esses agentes bancam 50% das aplicações. A outra metade é investida por fundos de pensão regionais, como Forluz (dos funcionários da Cemig) e Celos (dos funcionários da Celesc). Nos dois foram aportados R$ 70 milhões. "Estamos trabalhando para implementar um fundo deste tipo em São Paulo. Os atores federais já se mostraram simpáticos ao projeto. Os fundos do Estado estão negociando, mas acreditamos que conseguiremos arregimentar de R$ 40 milhões", diz Sidney Chameh, diretor do Fator. Também no Rio Grande do Sul está funcionando um fundo de capital de risco. O Sebrae, que desde 1998 foi autorizado a integrar fundos que financiam empresas de pequeno porte, de base tecnológica e com potencial exportador, organizou o RS-TEC, que tem investidores como a Azaléa, Gerdau e BNDESPar. O total do fundo é de R$ 12 milhões e o Sebrae entrou com 25%. "Como o investimento médio por empresa é de R$ 400 mil, só o nosso fundo pode financiar 30 microempresários", afirma Américo Ciccarelli, responsável pelo setor de capital de risco do Sebrae nacional.R.K.