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Os desafios da indústria 4.0

Publicado em 02 março 2018

Em meio à crise econômica, social e política, o ano eleitoral tem em abril o lançamento de um estudo encomendado pela Confederação Nacional da Indústria sobre o futuro do setor diante das novas tecnologias, tema em que como outros o Brasil está em atraso.

O cenário, como antecipado na revista Pesquisa Fapesp, é desafiador. Em 759 grandes e médias empresas da amostragem, apenas 1,6% operam na chamada manufatura avançada, com processos conectados.

Mas o ritmo dessa mudança, sobretudo na inteligência artificial, vai depender do caráter humano. Nem todas as tecnologias são neutras, porque dependem do uso em que forem aplicadas e isso foi alvo de debate até do Fórum Econômico Mundial. Além disso, uma parte delas depende de novas infraestruturas futuras como a 5G e investimentos elevados.

O assunto, por outro lado, está no cotidiano de todos. Desde a nova “prótese” representada pelo onipresente celular até os estudos e inovações em robótica, assistentes de voz, fontes de energia, big data, finanças, neurociência, bioinformática e assim por diante. As tecnologias emergentes As chamadas tecnologias de impacto foram analisadas como setores de Inteligência artificial, redes de comunicação, internet das coisas, produção conectada, materiais avançados, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia.

As cadeias produtivas Os setores focados pela pesquisa encomendada a especialistas liderados por Unicamp e UFRJ foram de agroindústria, insumos básicos, químico, petróleo e gás, bens de capital, automotivo, aeroespacial e defesa, tecnologias de comunicação e informação, bens de consumo e farmacêuticos.

Efeito cruzado no uso

As tecnologias não atuam de forma isolada. Algoritmos podem lastrear soluções de cyberssegurança, combinados com redes de informação. Ou ampliar a análise de dados genéticos, junto com biotecnologia sintética. Em tese, aumentar o monitoramento ambiental de fornecedores por satélite e orientar ações. E máquinas com sensores vão “conversar” com outras. Barateamento acelerado Um dos fenômenos é que o preço em dólares de máquinas de impressão 3D cairá de quase US$ 14 mil para pouco mais de US$ 6 mil entre 2007 e 2019 (Ibisworld).

O preço médio de sensores para Internet das Coisas ou IoT cairá de US$ 1,30 para US$ 0,38 entre 2004 e 2020 (Goldman Sachs). E o uso comercial de redes por megabit baixou de 50 para 20 dólares na linha DSL, de 20 para 3 dólares na fibra e de 9 para 1 dólar no cabo entre 2010 e 2015 (Point Topic).

Produto pode virar serviço

Em alguns casos, a projeção de pesquisadores é que a ruptura possa acontecer no próprio conceito, levando produtos a virarem serviços como no caso em teste de aparelhos domésticos (geladeira, máquina de lavar) alugados por tempo e substituídos quando de interesse do cliente. Ou mesmo veículos compartilhados e outros. Logística reversa pode acontecer Um produto futuro poderá, em tese, até ser monitorado em alguns casos depois de fabricado por toda a sua vida útil e retornar novamente como matéria-prima ao ponto de origem.

Novos materiais são limitados no país

O Brasil vai ter limites na capacidade de transformar materiais básicos em produtos de alto valor agregado. Mudar perfil de baixa tecnologia para criar materiais de base de outras indústrias, de baterias a polímeros leves, vai depender de nichos avançados de alguns setores.

Materiais virão, locais ou importados

O uso de novos materiais na indústria como nanotubos de carbono, insumos de impressão 3D e biopolímeros são candidatos ao cotidiano imediato. A pesquisa em nanotecnologia e em biotecnologia devem aumentar no país, com ênfase em setores como farmácia e saúde.

Produtividade pode aumentar

Por um lado, a IoT (inteligência artificial) pode monitorar linhas de produção que gerem riscos aos trabalhadores. Os aumentos de produtividade, por outro lado, podem crescer até 50% em alguns setores. Uma linha paralela digital (twin) de uma linha de produção pode ser comum para ambos os resultados. A pesquisa não aponta efeitos sobre o emprego.

Cientistas de dados

Devem aumentar, entretanto, postos para novos profissionais para a área de inteligência artificial e serão, de acordo com a pesquisa, cientistas de dados. O setor de tecnologias deve contar com “testbeds”, plataformas que simularão para as empresas as possibilidades tecnológicas para cada caso.

Setores mais imediatos

Entre as tecnologias, as relacionadas com a inteligência artificial e produção de materiais nanoestruturados são setores de impactos mais urgentes e de curto prazo no trabalho encomendado pela CNI.

Crescimento explosivo

O mercado global estima que a IoT, ou inteligência artificial, vai crescer de 2 bilhões para 60 bilhões de dólares entre 2016 e 2015 (Tractica).

Nanotecnologia

O setor microscópico tem um crescimento esperado de 15,7 bilhões para 174 bilhões de dólares entre 2010 e 2025, com alta para nanomateriais seguidos de longe por nanoferramentas e pequeno alcance para nanodispositivos (BCC Researcth).

Bioética entra no centro das prioridades

A definição de campos avançados, como na bioenergia para inserção equilibrada nas novas cadeias globais, é um dos pontos delicados no tema. Os bioprocessos envolvem o uso genético de CRISPR/Cas9, ferramenta de corte e edição de genes, e são considerados essenciais no ambiente, na saúde e na agroindústria. Poderia, em tese, melhorar a relação com conhecimentos tradicionais de origem ou o debate sobre a sustentabilidade no campo e nas demais cadeias produtivas.

Redes de infraestrutura

busca de baixo consumo de energia e longo alcance ainda vai manter diversas alternativas de transmissão por mais um tempo. Mas são também o maior desafio no caso de pequenas e médias empresas.

Armazenamento de energia

em tecnologia hegemônica, há baterias chumbo-ácido em automóveis, portáteis de lítio nos eletrônicos ou carros elétricos (e oscilações de rede) e a busca de viabilidade para outras, como células de hidrogênio.

Demandas lógicas do assunto

Entre as ações a serem ajustadas estão financiamento, mudanças organizacionais e políticas públicas adequadas. Afinal, as novas tecnologias podem por exemplo melhorar o monitoramento da biodiversidade e de gestão social ou apenas ampliar a dependência de multinacionais na economia.

Articulação é diferente de outras

A manufatura avançada não depende de inovações radicais, mas de convergência de tecnologias. É preciso atualizar instrumentos de financiamento à inovação, reduzindo fragmentação de governança. Essa é uma questão central no país, não somente para esse assunto.

Movimento sistêmico

Envolve a iniciativa das empresas, os avanços regulatórios, a oferta de serviços e soluções digitais e a articulação com fornecedores. Da porta para dentro, as empresas vão precisar de muita informação decisória – e isso pode aumentar parcerias, oportunidades de start ups, inovação e novos mercados. Da porta para fora, políticas públicas mais modernas, menos clientelistas e de regulação mais clara.

Economia criativa

A pesquisa e desenvolvimento (P&D), a tecnologia da informação (TI) ou a biotecnologia são áreas em curso na indústria 4.0 que também são setores da chamada economia criativa, ao lado de outras como moda, design, música, patrimônio, audiovisual, editorial, teatro ou arquitetura. Esse diálogo precisa ser ampliado.

José Arnaldo de Oliveira é jornalista e sociólogo