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FGV EASP

Os desafios à integração dos conhecimentos

Publicado em 01 setembro 2016

Na busca da integração de saberes, contra a hiperespecialização, "a questão de maior interesse contemporâneo não é a das fronteiras intracientíficas em geral, mas sim entre as ciências humanas e as ciências naturais".

A opinião é do filósofo e sociólogo Sérgio Paulo Rouanet, que fez no dia 17 de agosto a conferência A Ciência e suas Fronteiras, dentro da programação da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência.

Rounet também tratou das "fronteiras entre a ciência e suas margens: a religião, a moral e a política" e da universalidade do conhecimento, que "não está mais ameaçada por fronteiras epistemológicas, mas continua ameaçada por fronteiras geográficas".

As questões levantadas pelo conferencista foram discutidas por quatro pesquisadores: o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor da FGV-SP; a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e da Universidade de Chicago, EUA; o físico Paulo Nussenzveig, do Instituto de Física (IF); e a farmacologista Leticia Veras Costa Lotufo, do Instituto de Ciências Biomédicas(ICB).  A moderação foi do jornalista Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e superintendente de Comunicação Social da universidade.

 

Tradição

Manuela Carneiro da Cunha disse que além das fronteiras citadas por Rouanet há uma quarta, entre a ciência e os sistemas de conhecimento tradicionais.

Segundo ela, a racionalidade defendida pelo Círculo de Viena influenciou a antropologia de modo desviante.  "Procurou-se a racionalidade em sistemas adivinhatórios, por exemplo, e isso levou a um tipo de cientificismo na antropologia.  Chegou-se ao ponto de tentar utilizar estatísticas para relacionar traços culturais."

Manuela considera um marco importante de mudança de atitude foi o fato de a Convenção sobre a Diversidade Biológica, estabelecida na ECO 92, ter introduzido a questão dos conhecimentos tradicionais.

A Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos, criada em 2012, mudou completamente o rumo da questão, segundo ela, pois "quer não só levar em conta os conhecimentos tradicionais como também usar toda literatura chamada de cinzenta, por não ser sancionada pelos padrões científicos, avaliada por pares e consagrada em periódicos científicos".

Rouanet concordou com Manuela em relação à necessidade de desaparecer a intolerância da ciência em relação ao saber tradicional, mas ressaltou que "também deve desaparecer a intolerância dos que se consideram porta-vozes da tradição contra a cultura científica".

Para ele, às vezes há uma supervalorização da natureza e de aspectos culturais: "Não vejo nenhuma justificativa possível, mesmo numa moralidade mínima, para a mutilação clitoridiana em certas culturas.  A supervalorização da tradição pode redundar em irracionalismo, e o culto do irracionalismo tem um nome: fascismo”.

 

Interdisciplinaridade

 

Rouanet disse que na tradição vitalista europeia (inspirada no filósofo alemão Wilhelm Diltrey) "existe uma diferença de princípio entre as ciências naturais, voltadas para a explicação empírica, e as ciências histórico-hermenêuticas, as ciências do espírito, voltadas para a interpretação, não para a explicação causal".

Na tradição positivista, ao contrário, as ciências humanas podem ter o mesmo status científico das ciências naturais, mas para isso "seus enunciados devem descrever regularidades causais, permitir previsões e ser validáveis empiricamente pela observação e pela experiência, em contextos que permitam a repetição e o controle por parte de outros investigadores", explicou Rouanet.

Ele comentou que para os positivistas e a fronteira real ocorre entre os enunciados das ciências sociais empíricas depuradas de todo julgamento de valor -- semelhantes às ciências naturais, por tanto -- e os enunciados supostamente científicos (na opinião deles) de disciplinas sociais que se permitam formular julgamentos de valor.

A oposição a essa restrição dos positivistas provém da chamada Escola de Frankfurt, ao comparar a teoria social tradicional com a teoria crítica, segundo Rouanet: ao tomar partido pela transformação de uma realidade humanamente insuportável, a teoria social crítica não perde sua cientificidade, "ao contrário, só nesse momento ela se torna verdadeira científica".

"Mas isso pressupõe justamente justamente a operação mais abominada pelos positivistas, a introdução expressa dos julgamentos de valor".  Essa introdução só seria justificável, de acordo com Rouanet, com "a extinção do grande abismo entre fatos e normas, o que significa o fim do grande interdito positivista, que condena as proposições normativas e axiólogicas à esfera do incognoscível".

Rouanet explicou que, diante disso, os frankfurtianos teriam que demonstrar que essas proposições podem ser tão validáveis quanto as proposições descritivas das ciências naturais.  "Esse foi o papel da teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas.  Ele mostrou que as duas classes de proposições são validáveis em contextos argumentativos semelhantes:, os discursos."

Para Bresser-Pereira, a discussão sobre interdisciplinaridade deve considerar as diferenças entre as ciências: "Apesar de a distinção entre ciências naturais e ciências sociais ser fundamental, há uma distinção anterior, entre as ciências metodológicas [matemática, lógica, estatística e outras] e as ciências substantivas, compostas pelas naturais e sociais".

Ele ressaltou que nas ciências metodológicas usa-se o método hipotético-dedutivo e nas ciências substantivas o método científico, no qual são observadas regularidades e tendências da realidade e elaboradas hipóteses, posteriormente desenvolvidas teoricamente e testadas.

De acordo com Bresser-Pereira, a "boa economia" é uma ciência substantiva, mas economia a neoclássica dominante não: "Ela adota o método hipotético-dedutivo das ciências metodológicas e ao transformar de ciência substantiva em ciência metodológica passa a ser axiomática, pura lógica, e tudo pode ser reduzido à matemática".

"Os pesquisadores que fazem isso com a economia tornam-se donos de uma ciência em prejuízo dos demais, que não têm condição de discutir porque não estudaram tanta matemática como esses economistas", disse.

Leticia Veras Costa Lotufo exaltou os avanços significativos proporcionados pela especialização na biologia, mas lamentou a extinção da figura do cientista generalista.

A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são essenciais para a redução do distanciamento provocado pela especialização, segundo ela: "Não conseguimos fazer uma ciência de qualidade, evoluir nas nossas redes de pesquisa, se não incluirmos nas nossas equipes pessoas de outras disciplinas naturais e sociais".  Citou como exemplo recente no Brasil de articulação de disciplinas a mobilização de instituições e pesquisadores de várias áreas em função das ameaças do zika vírus.

Paulo Nussenzveig citou o curso de ciências moleculares da USP como um exemplo de iniciativa de sucesso em termos interdisciplinares.  Podem-se candidatar à seleção para o curso alunos matriculados em qualquer curso de graduação da Universidade.  Nos dois anos iniciais, todos aprendem matemática, física, química, biologia e computação e começam a desenvolver um projeto de iniciação científica.  Depois desse ciclo básico, cada aluno propõe ao coordenador uma grade das disciplinas (de graduação ou pós-graduação de qualquer curso da USP) que deseja frequentar.  Para Nussenzveig, iniciativas assim são importantes porque "são os jovens que desenvolverão a interdisciplinaridade que precisamos".

Valores

No que se refere à relação com valores, Leticia disse que a ciência deveria caminhar muito bem ao lado da moral, "mas temos de considerar que a discordância é fundamental para a evolução do pensamento científico e a quebra de determinados paradigmas, seja uma discordância nos fatos que embasam uma teoria ou quanto aos limites de uma teoria ou ainda para identificar o que é suficiente para a quebra de uma conduta moral estabelecida".

No entanto, ao mesmo tempo que parece ter havido uma evolução grande nos aspectos morais da ciência, parece a comunidade científica deu um passo muito grande atrás na observância de regras básicas de convivência, de acordo com Leticia: "Aquilo que parecia estar indo muito bem, sem precisar estar escrito, de cinco anos para cá foi preciso ser formalizado pela Fapesp e pelo CNPq em códigos de ética para os cientistas, para a definição do que é ético em termos de autoria e no uso de recursos públicos para a pesquisa, além de ser preciso haver canais para a denúncia de fraudes e plágio".

Bresser-Pereira comentou que as ciências sociais dependem de interpretação e talvez façam parte de uma disciplina mais ampla, que são as humanidades.  Para ele, elas são ciências muito modestas, com baixo poder de previsibilidade e profundamente influenciadas por valores e ideologias.  "Por isso que os marxistas e a Escola de Frankfurt dizem que a distinção entre uma ciência social imbuída de valores e uma ciência social desvinculada de valores é essencial.  Não crio que isso seja possível.  É impossível fazer uma ciência social sem valores."

Ainda nessa discussão sobre a entre a ciência e a sociedade, Nussenzveig defendeu a atividade científica não depende essencialmente do Estado.  Citou como exemplo de uma nova postura em relação a isso os novos rumos da Fundação Instituto de Física Teórica, que está ampliando sua sede com a construção de um centro científico e um teatro digital (e planetário) e reformando o antigo casarão que abrigava o instituto (que foi absorvido pela Unesp) para ser utilizado em projetos com jovens do ensino médio, especialmente os provenientes de escola públicas.  Ele também mencionou a constituição de um instituto com verba doada por João e Branca Moreira Salles para financiamento privado de ciência.

Globalização

Em relação as fronteiras nacionais e culturais, Leticia disse que a evolução tecnológica é maravilhosa, mas traz questões que merecem muita reflexão, como no caso da globalização do sistema de educação: "Até que ponto isso respeitas nossas fronteiras culturais e nosso conhecimento tradicional?  Até que ponto não vamos massificar tudo e perder a riqueza da diversidade?"

"É absolutamente impossível fazer ciência social desligada da nação", afirmou Bresser Pereira.  Como exemplo, citou a ciência política moderna: "Ela é fundamentalmente dominada pelos americanos e seu pressuposto fundamental, nunca explicitado com clareza, é que a sociedade e a política americanas são as ideias a as dos outros devem ser comparadas a elas.  Mas hoje a democracia americana é uma desgraça, tão horrível quanto a nossa, e a democracia europeia é infinitamente superior".

por Mauro Bellesa - publicado 25/08/2016 09:45 - última modificação 26/08/2016 09:40