Notícia

Jornal da USP

Os caminhos da Bioenergia

Publicado em 21 agosto 2011

Como produzir e utilizar os biocombustíveis da melhor forma e, ao mesmo tempo, minimizar o impacto do meio ambiente? Essa foi uma das questões apresentadas ao professor inglês Jeremy Woods, do Imperial College London, no dia 12 passado, durante o Seminário Internacional de Bioenergia, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP.

Na avaliação de Woods, a emissão de gases nocivos para a atmosfera depende da forma como a terra é e foi gerida e também da sua utilização futura. Daí a necessidade urgente de repensar as políticas nacionais e globais. “É preciso implementar mecanismos de controle que priorizem essas questões”, observou.


Jeremy Woods é especialista em bioenergia. Suas pesquisas focam a interação entre o desenvolvimento, o uso da terra e o uso sustentável dos recursos naturais. Recentemente, ele se tornou codiretor do Instituto Porter, dedicado ao desenvolvimento de biorrenováveis. É também membro do grupo de trabalho da Royal Society. Vem, ainda, realizando, em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), avaliações dos sistemas de bioenergia para o Reino Unido e organizações nacionais e internacionais.

Custos – Woods fez uma apresentação sobre os custos e o desenvolvimento da bioenergia em escala global. “Há muitas terras que podem ser utilizadas para cultivar a nossa energia”, destacou. “As necessidades são cada vez maiores. No entanto, os problemas também são grandes. No Reino Unido, por exemplo, a preocupação é a melhor utilização da terra. Há a dúvida sobre escolher entre campos de futebol e golfe ou terras para cultivar trigo ou ainda reservá-las para os biocombustíveis.

Diante dessa questão, Giorgio Spagarino – estudante da Universidade de Turim que está cursando mestrado no IEE e buscando um duplo diploma na Engenharia Química da Escola Politécnica – lembrou que a preocupação dos italianos é exatamente essa. “A Itália é um país pequeno. Ou comemos ou produzimos bioenergia”, destacou.

O professor Woods deixou claro, no entanto, que é possível se dedicar aos biocombustíveis sem prejudicar a produção de alimentos, desde que se possa organizar a utilização da terra. Esclareceu que só 1,5% das terras do planeta são usadas para biocombustível. “É preciso intensificar as boas práticas da utilização de terras através de critérios de sustentabilidade”, afirmou o professor Woods.

Woods tem se dedicado também às pesquisas sobre o desenvolvimento africano e a sua interface com a segurança alimentar e produção de bioenergia. Ele acredita que o Brasil é um bom exemplo a ser seguido e que o desenvolvimento de projetos na África pode impulsionar o seu crescimento econômico. “A participação dos agricultores africanos é indispensável para o desafio de produzir mais comida para a população global. A África tem 12 vezes mais terra que a Índia, uma qualidade de terra similar e uma população 30% menor. No entanto, a Índia tem uma produção suficiente, ao contrário da África. “Precisam ser construídos modelos para o desenvolvimento de bioenergia e biocombustíveis, de forma que permitam que o investimento e a infraestrutura apoiem e estimulem o produtor rural e a produção local de alimentos”, observou Woods.

Estudos da FAO apontam o Brasil como exemplo em bioenergia. Destaca-se como o segundo produtor e o maior exportador de etanol do mundo. Tem cerca de 1 milhão de veículos movidos pelo combustível de cana-de-açúcar. Embora os Estados Unidos tenham ultrapassado o Brasil em termos de produção e consumo, graças à produção do etanol à base de milho, o Brasil permanece líder em termos de produção, bem como em desenvolvimento tecnológico, na área de etanol à base de cana-de-açúcar. Entre 1975 e 2004, o programa brasileiro de etanol teve sucesso na substituição de aproximadamente 230 bilhões de litros de gasolina. O País mostrou que a produção integrada de etanol à base de cana-de-açúcar diminuiu sua dependência de combustíveis fósseis, reduzindo as emissões de poluentes e beneficiando a economia rural.