Notícia

Diário de Pernambuco

Os brasileiros conectados podem ser 33 milhões

Publicado em 08 março 2000

Por Miriam Leitão
Os brasileiros conectados poder ser 3,3 milhões ou oito milhões. Depende de quem pesquisa. A Fapesp, o órgão responsável pela regulação da Internet brasileira, registra diariamente mil novos domínios ".br". O comércio eletrônico no Brasil tem mostrado os mesmos problemas da economia real: logística ineficiente e falta de padronização. Ou o produto não chega ou não serve. A Ernst & Young apresentou em dezembro uma pesquisa feita em seis países para medir o crescimento do mundo virtual e conhecer o seu consumidor. O Brasil ficou de fora por falta de estatísticas confiáveis. O Ibope, numa pesquisa em nove capitais, registrou que em junho do ano passado existiam 33 milhões de brasileiros conectados e que em seis meses a proporção havia aumentando 30%. Em dezembro, o Ibope refez a pesquisa e achou os mesmos 3,3 milhões, o que significava que no segundo semestre do ano passado a entrada na rede ficou estagnada. Alguém acredita? A Tech Web divulga que há 5,1 milhões de brasileiros conectados; a Associação de Mídia Interativa, seis milhões; o Datafolha, 7,6 milhões; o Yankee Group, oito milhões. O tamanho do mercado virtual hoje está no mínimo mal dimensionado. O que os especialistas no assunto têm feito é estudar casos de empresas nacionais. Ninguém duvida das potencialidades da Internet também para o Brasil. - Pela primeira vez na história do capitalismo uma empresa pode ofertar seu produto para o maior número de pessoas possível, dando ao mesmo tempo um tratamento personalizado - diz o professor Paulo Fleury, da Coppead. E vai ganhar quem conquistar e tornar fiel a maior quantidade de clientes. - Isto se faz com atendimento pessoal, navegação amigável, entrega eficiente e preço baixo - lista o consultor Sérgio Romani, da Ernst & Young. É por isso que quanto maior o cadastro de clientes e maior o trânsito na página, mais vale o negócio. Nessa nova lógica surgem números absurdos, como o caso do Lokau, um site de leilões criado há menos de seis meses e "avaliado" em US$ 200 milhões. A Siciliano.com, braço virtual da tradicional livraria, vende em média 1500 pacotes de livros por dia e já possui uma base de dados de 70 mil clientes. Pelo computador os livros saem em média 18% mais baratos que nas 60 lojas da empresa. Com 40 pessoas cuidando das vendas virtuais, seu executivo Bruno de Carli explica que precisa triplicar o movimento para empatar nos custos. - Estou otimista, chego lá até o final do ano. O Ponto frio retira pela Internet apenas 0,6% do faturamento bruto, mas o negocio cresce 80% ao ano. Quem usa a Internet compra mais, o dobro do tíquete registrado na loja. Ainda assim, como na Siciliano, faltam ganhos de escala. - Gasta-se muito em propaganda - explica o diretor Eduardo Keller. Falta de escala é só um dos problemas no Brasil. Abrir um site e começar a vender é relativamente simples. Um projeto bom e seguro pode custar menos de R$ 20 mil. O que os administradores estão descobrindo é que difícil mesmo é separar e entregar mercadoria. A Saraiva.com, assim como as concorrentes, anuncia livros esgotados porque não tem acesso ao estoque das editoras. A Siciliano usa os Correios na entrega. - Mais de 70% das empresas usam os Correios, que não têm capacidade de rastrear o produto. Os problemas podem desencantar o consumidor que está experimentando pela primeira vez - adverte Fleury. Um amigo do professor comprou um CD no site Submarino.com. Depois de sete dias avisaram que não tinham o produto no estoque. Cancelada a compra, foi até a loja de CDs mais próxima do bairro. Três dias depois, a encomenda cancelada do site chegou pelo correio. - As empresas fazem anúncios em todo o Brasil e não sabem se têm condição de entregar - diz Fleury. Romani, da Ernst & Young, também acha que o gargalo está na logística. - Na Americanas.com, distâncias mínimas entre duas entregas têm preços muito diferentes. Imagino que estejam usando operadores diferentes, mas o consumidor não deveria pagar por isso - diz, Rubens Teixeira, da Brasilpar, vive de comprar e vender empresas, as de Internet inclusive. Ao descobrir a Closet.com, um atacadista de camisas finas que só atende em São Paulo (mil camisas vendidas na Internet no Natal), decidiu experimentar. A camisa que comprou já foi devolvida três vezes porque medidas de roupa no Brasil não são padronizadas. - Pedi tamanho 37, 38 e 40. O negócio é bom mas a falta de padrão é um problema que ele vai ter de explicar ao cliente - conta. Talvez o cliente virtual não queira explicações. A Internet é uma novidade, mas alguns dos seus problemas são velhos. Nos Estados Unidos 5% das compras de Natal deram problemas de entrega. Apesar de toda febre, apenas 1% das vendas do varejo americano em 99 foi feita pela rede. A adoção no Brasil tem sido expressiva, mas há muito a fazer para melhorar o nível do serviço. A logística ineficiente do país se reflete tanto na vida real, quanto na virtual. Uma pesquisa da Universidade de North Eastern, com os 15 CEOs das operadoras de logística estrangeiras funcionando no Brasil, mostra que 90% dos seus clientes aqui são também estrangeiros. Não tem sido fácil para elas convencer o empresariado brasileiro de que o assunto é importante.