Notícia

Correio Popular

Os bens mais preciosos de um povo

Publicado em 21 maio 2013

Por Karina Fusco

Tudo o que acontece com um povo precisa ser preservado para que as futuras gerações conheçam a história. E uma maneira eficaz de fazer isso é registrando danças, fazeres, ofícios e manifestações culturais que integram o patrimônio cultural imaterial. Foi para favorecer a documentação desses valores da sociedade que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (lphan) criou, em 2000, o Instrumento de Registro de Bens Culturais Imateriais. Desde então, o Ministério da Cultura tem lançado mecanismos para se pensar a política de registro e salvaguarda desses bens brasileiros.

Em Campinas, a historiadora Daisy Serra Ribeiro é a responsável pela Coordenadoria do Patrimônio Cultural, ligada à Secretaria Municipal de Cultura, e está diretamente envolvida no resgate da cultura da cidade. No momento, ela cuida das regulamentações para começar a receber solicitações de registros de manifestações culturais campineiras e desenvolver um inventário sobre elas no Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc).

Em conversa com a Metrópole, ela fala da importância de documentar os patrimônios do município, dos projetos em andamento, dos avanços e das expectativas em relação a eventos que tratam do tema, como o Seminário Nacional de Patrimônio Imaterial, iniciado dia 14 e que termina hoje. “Esses bens contam como se formou nossa cidade, explicam como determinadas manifestações culturais surgiram ou foram modificadas. Se não os preservarmos, que registro teremos de quem somos e como nos constituímos como cidadãos dessa localidade?“, questiona.

Metrópole – Como e quando surgiu a proposta de fazer um inventário sobre o patrimônio imaterial de Campinas?

Daisy Serra Ribeiro – Ano passado, o Ministério da Cultura abriu um edital para projetos relacionados a vários temas do patrimônio, com verba do Fundo Nacional de Cultura (FNC). Nós participamos com dois projetos, um de recuperação da Estação Cultura e outro de patrimônio imaterial, propondo a realização de um inventário para iniciar um mapeamento das manifestações e tradições culturais de Campinas. Eles não foram selecionados, mas entendemos que deveríamos dar sequência para buscar avanços no tema, acompanhando as legislações federal e estadual que, desde 2000, garantem o registro e planos de salvaguarda a bens culturais imateriais.

Qual é a previsão para que o inventário seja concluído?

Ainda não iniciamos os trabalhos, porém, tivemos evoluções importantes este ano, como a adesão ao Sistema Nacional de Cultura. Agora buscamos assinar um Termo de Cooperação Técnica com o Iphan para utilizar a metodologia do Inventário Nacional de Referências Culturais. Significa que procuraremos conhecer as manifestações de uma cidade com um milhão de habitantes e isso leva tempo. Esperamos iniciar a atividade ainda este ano, mas a pesquisa requer parcerias e convênios. Estimo que um inventário desse porte leve cerca de dois anos para apresentar resultados.

Quais são os patrimônios já levantados por vocês?

Ainda não há dados oficiais, por estarmos implantando a atuação. Até então, só atuávamos com o instrumento do tombamento. A demanda da secretaria indica um estudo de manifestações de matriz africana, como o jongo e a capoeira, bens já registrados nacionalmente. Temos, porém, exemplos de patrimônio imaterial em diversas áreas, como a lenda do Boi Falô, de Barão Geraldo, o escravo Elesbão, os grupos de Folia de Reis e as famílias circenses que continuam na cidade até hoje.

Algum deles foi objeto de pesquisas aprofundadas no município?

Podemos destacar os dossiês sobre capoeira e jongo feitos pelo Iphan com participação das comunidades, consideradas fontes legítimas para documentar a pesquisa. Como temos grandes universidades na cidade, com produção de excelentes estudos acadêmicos, uma possibilidade é nos aproximarmos delas para realização dos estudos. Tivemos uma experiência anterior de parcerias com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em relação aos bens imóveis e obtivemos bons resultados.

E como é esse projeto que está sendo elaborado para concorrer a um prêmio do Ministério da Cultura na categoria Imigração?

Está em andamento um edital do Ministério da Cultura sobre grupos de imigração e nós temos em Campinas um bairro chamado Friburgo, com moradores de origem alemã. Alguns imóveis remanescentes da região foram tombados recentemente pelo Condepacc. As famílias preservam suas memórias e praticam algumas tradições, como as danças e as festas. Estamos dialogando com esse grupo para apoiar o projeto e concorrer ao prêmio.

Também será implementado um núcleo de patrimônio imaterial, não é? Como ele funcionará?

O Núcleo de Patrimônio Imaterial e Educação Patrimonial contará com duas especialistas culturais de carreira e terá entre suas funções um pouco disso que estamos fazendo, ou seja, apoiar as comunidades de Campinas, aproximar e conhecer suas histórias, como nesse projeto de Friburgo. Em relação aos bens culturais imateriais, receberemos os pedidos de registros e analisaremos a documentação para dar os pareceres. Ainda buscaremos a possibilidade de firmar parcerias para a realização do inventário e, no segundo semestre, teremos um fórum de pesquisadores do patrimônio de Campinas. Acredito que é necessário educar para preservar e trazer o sentimento de pertencimento da população com a cidade.

Qual o objetivo do seminário que termina hoje?

A meta dessa segunda edição é ampliar o debate sobre as manifestações culturais de matriz africana e a salvaguarda da capoeira e do jongo em Campinas, apresentando novos desafios e possibilidades para a implementação de políticas públicas nacionais do patrimônio em âmbito municipal. Para Campinas, esse debate é importante para ampliarmos o conhecimento sobre o tema, proporcionando para a população o direito constitucional à cultura e, dentro desse entendimento, ao patrimônio cultural do município.

karina.fusco@rac.com.br