Notícia

Jornal da Unicamp

Os bastidores da Xylella

Publicado em 01 março 2000

Por MARISTELA T. SANO
O Jornal da Unicamp publica nesta edição entrevistas com as pessoas da Universidade que fizeram acontecer o seqüenciamento da bactéria que mudou a história genômica no Brasil Ao final da cerimônia oficial organizada no dia 21 de fevereiro, em São Paulo, pelo governo estadual para homenagear os 190 pesquisadores envolvidos no projeto Genoma - Xylella, provavelmente poucas lembranças restavam aos cientistas das noites insones, dos muitos e muitos finais de semana trancafiados nos laboratórios ou ainda do tedioso e desanimador cotidiano dos últimos meses de trabalho, quando os gaps no seqüenciamento pareciam insolúveis. "Acho que, durante a cerimônia, tivemos a mesma sensação de um atleta quando sobe ao pódio para receber a medalha de ouro olímpica", compara o professor do Instituto de Biologia da Unicamp, Gonçalo Guimarães Pereira, coordenador de um dos laboratórios de seqüenciamento da rede Onsa (Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos). "Foi uma mostra de reconhecimento por um trabalho científico extremamente importante, que começa a mudar a história da genômica no Brasil". Apenas quatro dias depois da cerimônia em que todos os integrantes da rede receberam o Mérito Científico e Tecnológico - honraria máxima instituída pelo Estado para condecorar pesquisadores e instituições que contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento da ciência e tecnologia - 15 pesquisadores foram convidados para compor a comitiva que seria recebida no Palácio da Alvorada pelo presidente da República. Os professores da Unicamp Paulo Arruda, João Setúbal e João Meidanis integraram essa comitiva, recebendo do presidente não apenas elogios pela conclusão do trabalho, mas sua certeza de que a finalização do projeto só havia sido possível graças a uma competência em ciência previamente estabelecida entre os pesquisadores paulistas. "É tão inusitada uma homenagem a algo de caráter científico no Brasil que nós realmente nos sentimos muito bem ao recebê-las. Não tanto pelas honrarias, mas pelo que elas representam, ou seja, um reconhecimento da sociedade e do governo a um trabalho científico", afirma o médico hematologista, Fernando Ferreira Costa, coordenador do Hemocentro da Unicamp e também coordenador de um dos laboratórios de seqüenciamento da rede Onsa. Antes de colher os louros da vitória, entretanto, os coordenadores de laboratórios da Unicamp, Paulo Arruda, João Meidanis, João Setúbal, Gonçalo Pereira e Fernando Costa tiveram muito, muito trabalho. Desde o início da grande aventura Xylella, em outubro de 98, até a homenagem prestada pelo governo do Estado, em fevereiro deste ano, contabilizaram-se muitos acertos, alguns erros, grandes conquistas e pequenos percalços. Nada, porém, marcou tanto o grupo quanto o sucesso do trabalho cooperativo da rede Onsa. Sucesso que se deve em grande parte à determinação, ao empenho e à competência dos coordenadores de cada um dos laboratórios. Na Unicamp, especialmente, mais do que conhecimentos técnicos, os cinco cientistas que coordenaram os trabalhos mostraram-se capazes, acima de tudo, de valorizar o espírito de equipe, de despertar o lado criativo de cada envolvido e de incentivar o grupo quando a rotina ameaçava tornar-se tediosa. Nas entrevistas a seguir, os coordenadores falam um pouco da magnitude do projeto Genoma-Xylella. Pelas declarações, é possível notar que, apesar das dificuldades inerentes a qualquer trabalho científico, em nenhum momento houve dúvidas em relação ao sucesso do projeto... uma certeza que só podem ter aqueles que realmente sabem o que estão fazendo e onde pretendem chegar. A CHAVE CERTA O Laboratório de Bioinformática exerceu papel decisivo no seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa. Um feito, especialmente quando se constata que, há menos de três anos, o que havia na Unicamp eram dois determinados professores - João Setúbal e João Meidanis - que estudavam o tema a partir de problemas teóricos. Em 94, Setúbal e Meidanis lançaram em parceria o primeiro livro no Brasil dedicado ao tema. Alguns anos mais tarde, em 97, uma editora internacional interessou-se pelo trabalho e o livro "Introduction to Computacional Molecular Biology" (Uma Introdução à Biologia Computacional) é hoje leitura obrigatória para quem se interessa por bioinformática. Embora com pouca experiência prática, ambos estavam certos de que a área iria "explodir" no Brasil em pouco tempo. O que talvez eles não imaginassem é que estariam no centro do processo quando isso acontecesse. Jornal da Unicamp - Antes do projeto Genoma - Xylella, vocês chegaram a imaginar que essa área iria se mostrar tão promissora e tão vital para a genômica no Brasil? João Meidanis - Nós tínhamos certeza de que a bioinformática era algo que iria estourar, e o livro elaborado por mim e pelo professor Setúbal foi uma grande preparação para o momento em que isso ocorresse. Meu primeiro contato com a área aconteceu em 1990, quando estava nos Estados Unidos fazendo doutorado. Quando voltei, em 92, encontrei o professor Setúbal também interessado pelo assunto e começamos a trabalhar juntos. Ambos sabíamos que era apenas uma questão de tempo até que a bioinformática chegasse ao país. Só não sabíamos quando, nem tampouco tínhamos idéia de como isso iria acontecer. Jornal da Unicamp - E, quando vocês se integraram de fato ao projeto, tudo caminhou como vocês imaginavam ou surgiram dificuldades? João Setúbal - O início, entre janeiro e junho de 98, foi o momento mais difícil, pois ninguém tinha experiência com seqüenciamento em larga escala. Houve, portanto, muito trabalho nessa fase que funcionou na base de "tentativa e erro", com muito mais erros do que acertos. Para a bioinformática, o mais difícil foi realizar a implantação das ferramentas necessárias para recebimento, armazenamento e processamento das seqüências ao mesmo tempo em que elas iam sendo geradas e enviadas pelos laboratórios. Foi mais ou menos como sair dirigindo um carro ao mesmo tempo em que ocorria a colocação da carroceria, dos bancos e até do motor. Jornal da Unicamp -Houve algo inusitado no decorrer do projeto? João Meidanis - Houve algo engraçado. Foi o seguinte: os genes de seres vivos costumam ganhar um nome composto de três letras minúsculas e uma quarta letra maiúscula porque essa última, geralmente, indica alguma coisa de ordem. Por exemplo, há os genes recA, recB, recC. Aí, uma pessoa mandou uma mensagem na rede dizendo que havia encontrado muitas ocorrências no genoma da Xylella de um tal gene nonE. E a pessoa que enviou a mensagem estava achando estranho que ninguém conhecesse o tal gene nonE. Na verdade, ninguém conhecia porque simplesmente o gene não existia. O problema era que, quando determinado gene não tinha nome, aparecia a palavra none (ou nenhum, em inglês). Só que o programa estava preparado para colocar a última letra sempre maiúscula e, por isso, ela pensou tratar-se do nome de um gene. Jornal da Unicamp - Como está hoje o trabalho no LBI? Na conclusão do projeto Xylella, houve uma pausa ou os profissionais continuam em ritmo intenso por conta dos dois outros projetos da Fapesp? João Setúbal - Não houve pausa. Hoje trabalhamos mais intensamente do que no início do projeto Xylella. Mesmo após o anúncio da finalização do projeto Xylella, ainda estamos tendo muito trabalho com ele, dando os retoques finais na anotação da seqüência e ajudando a escrever o artigo descritivo dos resultados. A isso se soma o trabalho nos projetos Xanthomonas e Cana-de-Açúcar. Jornal da Unicamp - Vocês continuam sozinhos no desenvolvimento dos trabalhos de bioinformática? João Setúbal - Não. No projeto Xanthomonas, o trabalho de bioinformática foi dividido. A parte de recebimento, armazenamento e processamento básico das seqüências foi assumida por um grupo de bioinformática criado no laboratório do professor Fernando Reinach, no departamento de bioquímica da USP, especificamente para isso. Esse grupo utiliza as ferramentas criadas pelo LBI no projeto Xylella. E isso está possibilitando ao nosso laboratório a criação de ferramentas novas mais sofisticadas sem ter que nos preocuparmos com a parte de "rotina" do projeto. Um outro grupo de bioinformática foi criado no laboratório do professor Jesus Ferro, na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp de Jaboticabal, e deverá também contribuir para aliviar a carga do LBI, ao mesmo tempo em que cria mais um foco de disseminação da tecnologia de bioinformática no Estado. Jornal da Unicamp - Na sua opinião, quais as perspectivas que se abrem à pesquisa brasileira, em termos de biologia molecular, com o fim do seqüenciamento? João Setúbal - Basicamente, acho que o projeto Xylella e a rede montada para executá-lo criaram as condições para que no Brasil se faça pesquisa em genômica de mesmo nível que nos grandes centros de genômica do Primeiro Mundo. Isso, por sua vez, significa que temos um vastíssimo campo de pesquisas aberto à nossa frente, e o difícil será escolher os melhores caminhos a seguir. Há, entretanto, um problema importante a ser resolvido: embora nossa capacidade de seqüenciamento seja comparável à de grandes centros do Primeiro Mundo, nossa capacidade de análise das seqüências geradas está muito limitada. E isso se deve basicamente à escassez de profissionais em bioinformática. Há um consenso entre os cientistas da genômica de que a chave para uma análise cientificamente produtiva das seqüências está com a bioinformatica. No Brasil temos pouquíssimos profissionais competentes nessa área. Se não houver um esforço de formar mais profissionais desse tipo, correremos o risco de gerar muitas seqüências e não ter como fazer ciência com elas. Jornal da Unicamp - Então, seria a bioinformática a carreira do futuro? João Meidanis - Sem dúvida. É a carreira do futuro. Os especialistas internacionais se pronunciaram afirmando que o sucesso do trabalho se deveu também "ao excepcional alto nível de competência profissional dos dois coordenadores de bioinformática, combinado com a disposição de ajudar a resolver os problemas". Jornal da Unicamp - Enquanto pesquisadores, como vocês se sentem ao ler esse tipo de comentário? João Setúbal - Eu vejo isso como um reconhecimento do nosso trabalho extremamente importante, por duas razões. A primeira é que os especialistas internacionais são pessoas muito destacadas no cenário da genômica mundial, e um elogio vindo deles significa muito. A segunda razão é que grande parte do trabalho que fizemos foge dos padrões tradicionalmente valorizados em nosso meio acadêmico. Então, havia um risco não desprezível de que, mesmo tendo se esforçado intensamente para que o projeto desse certo, no final, nosso trabalho específico de bioinformática fosse visto apenas como um trabalho de suporte sem maior importância acadêmica ou científica. (M.T.S.) CHANCE ÚNICA À primeira vista, pode parecer estranho o envolvimento do Hemocentro da Unicamp no projeto de seqüenciamento de uma bactéria causadora de doenças em vegetais. Afinal, os trabalhos de seqüenciamento realizados até então pelo Hemocentro concentravam-se no DNA-humano. Entretanto, o experiente hematologista Fernando Ferreira Costa viu no projeto uma chance única de conhecer e aperfeiçoar as técnicas de seqüenciamento automático, uma vez que, para seqüenciamento do DNA-humano, os profissionais do Hemocentro usavam apenas o seqüenciador manual. O tempo encarregou-se de mostrar o quanto foi acertada a iniciativa. Graças a ela, hoje o Hemocentro está coordenando cinco laboratórios da rede Onsa, ligados ao projeto Genoma-Câncer. Também graças ao trabalho desenvolvido no projeto Xylella, o Hemocentro recebeu um dos mais modernos e velozes seqüenciadores de genes do mundo, que já está sendo utilizado com sucesso no projeto Genoma-Câncer. Jornal da Unicamp - O Hemocentro já tinha alguma experiência anterior em seqüenciamento genético? Fernando Costa - O nosso laboratório tinha uma experiência grande em seqüenciamento de DNA porque nós já fazíamos isso desde 1990. Mas era um seqüenciamento com objetivos completamente diferentes dos objetivos do projeto Xylella. Era um seqüenciamento de DNA-humano para pesquisar mutações genéticas em doenças hematológicas. Mas, embora trabalhássemos há muito tempo com seqüenciamento gênico, nós nunca havíamos imaginado poder, um dia, participar de um projeto Genoma e muito menos de um projeto Genoma de uma bactéria vegetal. Jornal da Unicamp - Por que então surgiu o interesse do Hemocentro em participar de um projeto ligado ao seqüenciamento genético de um fitopatógeno? Fernando Costa - Quando a Fapesp lançou o programa Genoma-Xylella, a Fundação abriu a possibilidade de vários grupos se candidatarem para participar do projeto. Então, nós vimos aí uma oportunidade para ampliar nossa experiência ao utilizar o seqüenciamento automático que não tínhamos até então. Nós fazíamos apenas o seqüenciamento manual. Foi por isso que nos candidatamos e, felizmente, fomos aprovados. Jornal da Unicamp - Há realmente muita diferença entre fazer um seqüenciamento automático e um manual? Fernando Costa - Para se ter uma idéia, nós gastávamos, na melhor das hipóteses, quatro dias para fazer dez seqüenciamentos manuais. Quando nos inserimos no projeto Xylella e compramos o primeiro seqüenciador automático, não muito veloz, nós passamos a fazer entre 10 e 20 seqüenciamentos por dia. Outros grupos, que adquiriram equipamentos mais modernos, chegavam a fazer até 96 seqüenciamentos por dia. Agora, para o projeto Genoma- Câncer, nós recebemos uma das mais modernas máquinas do mundo, que consegue fazer até 350 seqüenciamentos por dia. Quer dizer, nós passamos de uma coisa muito lenta para uma máquina um pouco mais rápida até chegarmos ao que existe de mais veloz no mundo. Jornal da Unicamp - Quer dizer que a experiência no projeto Xylella realmente valeu a pena? Fernando Costa - A participação permitiu que a gente ampliasse em muito nossa capacidade de seqüenciar. Mesmo não sendo algo na nossa área de atuação, aquela perspectiva inicial mostrou-se válida, principalmente porque foi a participação no projeto Xylella que permitiu nosso ingresso no projeto Câncer. E mais: estou certo de que o projeto Genoma-Câncer só foi possível, com essa magnitude, porque já existiam grupos treinados no decorrer do projeto Xylella. Jornal da Unicamp - Por que vocês não optaram logo de início pela compra de um seqüenciador mais potente? Fernando Costa - No projeto Genoma Xylella, a Fapesp nos enviava os recursos financeiros e cada laboratório fazia a sua opção pelos equipamentos e materiais necessários à pesquisa. Toda a mudança de máquinas no Hemocentro aconteceu com recursos do Xylella. Mas, quando começamos, ninguém tinha uma experiência muito grande com essas máquinas. Então optamos por uma máquina robusta, mais difícil de quebrar, mas que era pouco potente. Aí nós vimos que não precisava ser assim, ou seja, que realmente seria melhor um equipamento maior e com mais capacidade. Como se vê, foi tudo realmente uma aprendizagem. Jornal da Unicamp - A rotina de trabalho do laboratório do Hemocentro foi alterada com a participação no projeto? Fernando Costa - O estresse e o trabalho foram grandes, principalmente da pesquisadora Silvana Bordin, encarregada de se debruçar sobre os computadores. Foi difícil especialmente no início, pela inexperiência e pelos problemas de computação que precisávamos enfrentar e a que não estávamos acostumados. Houve bastante trabalho. Mesmo porque nosso equipamento era pequeno e tinha uma capacidade limitada... Jornal da Unicamp - O que o senhor destacaria como o grande ponto positivo do projeto, além, é claro, da capacitação técnica dos profissionais do Hemocentro? Fernando Costa - Achei extremamente benéfico o entrosamento entre os vários laboratórios participantes. Recebemos a ajuda do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp na preparação de bibliotecas, dos coordenadores da Bioinformática na instalação de computadores, enfim, a interação entre os diversos grupos foi uma forma nova de trabalhar que não é prática comum nem no Brasil nem no exterior. Jornal da Unicamp - Como está o andamento do projeto Genoma-Câncer? Fernando Costa - Nesse projeto, o nosso laboratório está funcionando como uma central de seqüenciamento, que coordena cinco laboratórios. No Hemocentro, há seis pessoas envolvidas em tempo integral no projeto. A previsão de término era de 24 meses, mas nós vamos terminar antes, em janeiro ou fevereiro, 16 meses depois de iniciado. Jornal da Unicamp - Como o senhor vê o futuro da pesquisa genômica no Brasil? Fernando Costa - No Estado de São Paulo, temos hoje um número grande de laboratórios capazes de fazer seqüenciamento e análise complexos não apenas de bactérias, mas de organismos maiores. Entretanto, esse tipo de pesquisa é algo que não pode parar. Deve ter continuidade. E, nesse contexto, acredito sinceramente que a Unicamp, entre todas as universidades, seja aquela que tem o maior potencial de progredir na pesquisa genômica porque possui vários grupos que participaram do projeto e têm experiências complementares. Além disso, tem o maior e mais capacitado Núcleo de Bioinformática do país. Se a Unicamp souber agrupar todos os pesquisadores, ela tem a possibilidade, como nenhuma outra universidade, de progredir na análise genômica. O sucesso nessa área vai depender apenas de os dirigentes apoiarem essa idéia. (M.T.S.) VISÃO DE FUTURO O geneticista Paulo Arruda, professor do Departamento de Genética (IB) e também coordenador do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp (Cbmeg), foi um dos primeiros a acreditar na idéia quase visionária do professor Fernando Reinach de elaborar e desenvolver um projeto genômico no Brasil. Convidado pelo professor José Fernando Perez, da Fapesp, para ajudá-los a viabilizar o projeto, Paulo Arruda passou a fazer parte do trio que daria o início no projeto. Embora faça questão de frisar que a rede Onsa funcionou mais por mérito dos envolvidos do que por um planejamento prévio daqueles que discutiram inicialmente o projeto, Paulo Arruda teve, sem dúvida, uma participação importante no sucesso da rede, uma vez que coube a ele e ao professor Reinach a tarefa de coordenação central, incluindo aí o treinamento de pessoal e a resolução dos problemas mais sérios que surgiram logo no início do projeto, quando os genes começaram a ser seqüenciados. Jornal da Unicamp - Quando e por que surgiu a idéia de se fazer um projeto Genoma no Brasil? Paulo Arruda - Esse projeto começou a ser discutido por um pequeno grupo, muito pequeno mesmo. Foi o professor Fernando Reinach, da USP, quem levou à Fapesp a primeira proposta de se fazer um projeto que causaria grande impacto na Biologia. Para o professor Reinach, o grande mérito do projeto que ele propunha seria não apenas o da descoberta, o do trabalho em si, mas principalmente o da formação de pessoal. Era o projeto Genoma. Jornal da Unicamp - E como o senhor acabou entrando nessa história? Paulo Arruda - O professor Fernando Reinach procurou o professor José Fernando Perez para apresentar sua idéia. Foi então que o professor Perez me convidou para participar dessas discussões e ajudar a bolar como esse projeto poderia ser viabilizado. Algum tempo depois, foram chamados outros professores, tanto da Unicamp quanto de outras universidades, e alguns pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas, porque a idéia central desse projeto era mesmo fazer algo que impactasse a biologia na área vegetal. Jornal da Unicamp - Por que motivo? Paulo Arruda - Há muitos anos, vínhamos discutindo na Fapesp que a área de plantas no Brasil estava muito defasada em termos de tecnologia e isso era preocupante, uma vez que a área é muito importante para o Brasil. Afinal de contas, a agricultura tem papéis econômico e social muito destacados. Eu mesmo tive oportunidade de participar de vários encontros na Fapesp e sempre fiz uma defesa nesse sentido, porque acho realmente importante investir nessa área. Jornal da Unicamp - Quanto tempo se passou entre as primeiras reuniões e o início efetivo do projeto? Paulo Arruda - Muito pouco. Seis meses depois dos primeiros encontros, nós estávamos com o projeto pronto, com uma idéia bastante clara do que deveria ser feito com o corpo do projeto redigido e com o pessoal em fase de seleção. Jornal da Unicamp - Por que a pressa? Paulo Arruda - É que a percebemos logo que a genômica estava evoluindo numa velocidade tal na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Se a gente não tomasse uma atitude rápida, talvez ficássemos para trás. Nós nos impusemos uma atitude: vamos fazer, vamos fazer rápido e vamos botar esse negócio pra funcionar! Mas ninguém tinha idéia de que isso iria se transformar no que se transformou a rede Onsa. Ninguém sentou-se para discutir, por exemplo, a formação da rede. Cada grupo foi providenciando coisas necessárias ao bom andamento do projeto: criou-se uma rede através da Web, a comunicação passou a ficar mais fácil, os contatos começaram a fluir, os dados começaram a ser gerados e tudo isso cresceu sem que alguém tivesse planejado um formato prévio. Jornal da Unicamp - Qual era a função dos laboratórios centrais? Paulo Arruda - Uma das recomendações do Comitê Internacional montado pela Fapesp para supervisionar o projeto era que fossem escolhidos alguns laboratórios para se responsabilizar pelo treinamento de pessoal. Então, criou-se essa denominação de Laboratório Central. No projeto Xylella, o Cbmeg funcionou, ao lado do laboratório do professor Reinach, como laboratório central do projeto. Logo no início, nós organizamos cursos na Unicamp onde havia uma parte de informática, dada pelo pessoal da Bioinformática, e uma parte de biologia molecular dada no Cbmeg para todos aqueles que se interessassem em aprender as técnicas. Construímos também uma biblioteca com o genoma da Xylella, em colaboração com um laboratório da Alemanha. Jornal da Unicamp - Além de realizar o treinamento de pessoal, o Cbmeg tinha alguma outra atribuição? Paulo Arruda - Enquanto laboratório central do projeto, nós nos incumbimos de fazer também a maior parte do trabalho de seqüenciamento e resolver os pontos críticos. E isso realmente ocorreu no início. Mas, ao final, aconteceu algo extremamente positivo: outros laboratórios começaram a desempenhar papel fundamental na resolução dos problemas críticos. Quando a rede chegou a esse ponto, nós passamos a nos dedicar à produção de novas bibliotecas com o intuito de encontrar regiões do genoma que ainda não tinham sido encontradas e não iriam ser encontradas com as bibliotecas existentes. Jornal da Unicamp - Houve alguma conquista importante do Cbmeg? Paulo Arruda - Sim. Foi o Cebmeg quem fez a descoberta que levou à primeira patente do projeto Xylella ... uma patente internacional. Jornal da Unicamp - Que descoberta foi essa? Paulo Arruda - Grosso modo, a coisa funciona mais ou menos assim: a bactéria é transmitida às laranjeiras por meio de um inseto. Esse inseto, quando vai sugar a seiva da planta, transmite a bactéria que, por sua vez, se aloja no feixe vascular, por onde circula a seiva da planta. E nesse local, de algum modo, a bactéria consegue fixar-se. O que nós descobrimos foi a substância que permite a bactéria fixar-se à planta. Jornal da Unicamp - O Cbmeg está envolvido em algum dos outros projetos genoma? Paulo Arruda - Antes mesmo de terminarmos o projeto Xylella, nós já iniciamos o trabalho no projeto Genoma-Cana. O Cbmeg está coordenando esse projeto, que engloba 28 laboratórios. Como coordenadores, somos responsáveis por toda a estratégia de seqüenciamento. E estamos conseguindo bons resultados justamente porque incorporamos boa parte das tecnologias desenvolvidas no projeto Xylella. Não apenas para nós, enquanto pesquisadores, mas também para a universidade, é superimportante que hoje nós estejamos participando de um projeto dessa magnitude e liderando nessa área. (M.T.S.) UM GRANDE TIME Envolvido com pesquisas sobre regulação gênica em organismos superiores, o professor Gonçalo Guimarães Pereira, do Departamento de Genética do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, teve dúvidas quando o professor Antonio Carlos Boschero, então diretor do IB, o procurou para convencê-lo de que era extremamente importante a participação do Instituto no projeto Genoma-Xylella. O pesquisador confessa que, a princípio, relutou. Afinal, por que se integrar a um projeto que pretendia seqüenciar um patógeno de plantas quando, na verdade, essa área de atuação tinha pouca - ou praticamente nenhuma - correlação com as pesquisas que vinham sendo desenvolvidas em seu Departamento?, questionava-se o professor. A resposta a essa pergunta surgiu rapidamente, como ele mesmo afirma na entrevista a seguir. Hoje, o professor tem absoluta convicção de que a participação na rede Onsa funcionou como um passaporte para a integração do Departamento de Genética do IB no projeto Genoma-Câncer, este sim intrinsecamente ligado ao trabalho desenvolvido no Departamento. "Os resultados só foram possíveis graças a um grande time", exulta. Jornal da Unicamp - Como é que um pesquisador dedicado à área de regulação gênica de organismos superiores se envolve em um projeto ligado ao seqüenciamento genético de um fitopatógeno? Gonçalo Pereira - O interesse, na verdade, foi mais do professor Antonio Boschero, na época diretor do IB, do que meu. Foi ele quem nos convenceu de que o Instituto não poderia ficar de fora de um projeto como o Genoma-Xylella. Confesso que, a princípio tive dúvidas sobre a importância desse projeto para o nosso laboratório, uma vez que um fitopatógeno, decididamente, não era nossa área de trabalho. Ao final, essa participação acabou se revelando extremamente estratégica para o IB e nós aprendemos demais com a rede Onsa. Aliás, tão - ou mais - importante que o trabalho em si, foi a capacitação dos pesquisadores brasileiros nessa área. Jornal da Unicamp - Quantos departamentos do Instituto de Biologia se envolveram no projeto? Gonçalo Pereira - Participaram efetivamente do projeto os departamentos de Biofísica, Parasitologia, Bioquímica e Genética. Jornal da Unicamp - Vocês já haviam trabalhado em conjunto anteriormente? Gonçalo Pereira - Não. Foi a primeira vez que se desenvolveu um projeto tão interdepartamental no IB. E, com a intenção de formar e treinar pessoal, nós trabalhamos com muitos alunos de iniciação científica, alguns alunos de doutorado e mestrado e contamos até com a participação de um aluno de segundo grau. A experiência foi extremamente positiva porque conseguimos transmitir a eles a noção de que nada é um "bicho de sete cabeças". Sempre enfatizávamos que tudo é tecnologia e, como tal, pode ser dominada. Jornal da Unicamp - O senhor tinha alguma experiência anterior em seqüenciamento? Gonçalo Pereira - Eu tinha uma noção clara do trabalho porque, enquanto fiz doutorado na Alemanha, havia lá um projeto Genoma sendo desenvolvido. Aliás, tratava-se do seqüenciamento da levedura de cerveja, o primeiro eucarioto - um organismo composto por células que possuem um núcleo - seqüenciado. Para mim, a novidade básica no projeto Genoma-Xylella era a utilização de um seqüenciador automático. Jornal da Unicamp - O domínio dessa nova tecnologia e a experiência obtida foram decisivos para a participação do IB no projeto Genoma-Câncer? Gonçalo Pereira - Sem dúvida. Acho que o seqüenciamento da Xylella realmente funcionou como um grande bate-bola, onde você tem uma oportunidade para começar a "contratar os jogadores" e consegue montar um grande time, apto a disputar uma Copa do Mundo. Graças ao projeto Xylella, hoje temos esse grande time: já sabemos quem é quem, já aprendemos a "dominar a bola", temos competência e capacidade para batalhar e competir com qualquer outro grupo do mundo em genoma. Tanto isso é verdade que nosso projeto Genoma-Câncer está se provando um dos mais produtivos do mundo. Por ter acompanhado de perto a experiência na Europa, posso afirmar que realmente estamos nos saindo muito melhor do que eles. Jornal da Unicamp - Houve alguma grande preocupação em relação ao sucesso do projeto? Gonçalo Pereira - No início, alguns grupos não tinham o costume de trabalhar em equipe e, por isso, sentiram dificuldades em dividir, em cooperar e em entender que, nesse tipo de projeto, ninguém ganharia nada sozinho. Ou seja, só haveria vitória se todos ganhassem. Como a experiência era completamente nova, ninguém sabia o que iria acontecer e todos temiam pelo sucesso do trabalho integrado. Então, houve uma mudança de mentalidade. Talvez esse tenha sido o grande ganho do projeto. Jornal da Unicamp - Vocês passaram por algum momento extremamente crítico? Gonçalo Pereira - Acho que não porque o papel do coordenador era justamente evitar esses momentos difíceis. Ainda hoje eu costumo dizer aqui no laboratório o seguinte: "Eu não acredito em Deus. Mas também não acredito no diabo". Ou seja, não existe mágica. Isso que fazemos é ciência, é um protocolo e esse protocolo tem que dar certo porque é feito para dar certo! Então, eu digo: "Se não está dando certo, o erro é seu. Acredite nisso! Porque, a partir do momento em que você acredita que o erro é seu, você deixa de acreditar em coisas do "além". Eu acho que aí entra a experiência do pesquisador. Seguir o protocolo é relativamente fácil, qualquer um pode aprender. Mas aqueles que não tiverem experiência vão apanhar muito mais. Uma das grandes vantagens da rede Onsa foi que as pessoas que tinham experiência conseguiram ajudar aquelas que não tinham. E, hoje, estou certo de que todos nós somos capazes de gerar sozinhos um projeto genoma. Jornal da Unicamp - E como está caminhando o projeto Genoma-Câncer aqui no laboratório? Gonçalo Pereira - Estamos envolvidos nesse projeto porque o laboratório tem interesse em regulação gênica, e o câncer é justamente um problema de regulação gênica. Nós agora obtivemos, junto à Fapesp, o equipamento mais moderno que existe no mundo para fazer chip de DNA, e toda a Unicamp deve se beneficiar com isso. Jornal da Unicamp - Como funciona esse equipamento? Gonçalo Pereira - É um equipamento que consegue avaliar a programação celular de um determinado organismo que tenha genes seqüenciados. Então, você vai, por exemplo, conseguir comparar a célula de um pulmão sadio com a célula de um pulmão tomado pelo câncer. E aí você vai poder perceber, por exemplo, que no pulmão canceroso há uma série de genes que não aparecem no pulmão normal. Isso nos levará à conclusão de que esses genes devem ser os responsáveis pelo processo, e portanto deverão ser os alvos para terapias anticâncer." (M.T.S.)