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Os “Barry Allens” da natureza

Publicado em 17 dezembro 2018

Por Edenilson de Sousa

Isso é unanimidade. Todo mundo fica meio que “babando” e de olhos vidrados na TV, computador ou no celular quando o Flash corre à velocidades superiores a da luz pra salvar alguém – 299.792,55 km/s (s = segundo), segundo o primeiro postulado Teoria da Relatividade Geral de Einstein, de 1915 – deixando o multipoderoso Superman no chinelo (coitado do kryptoniano….Coitado nada! (risos)).

Mas…(e como tem sempre aquele “mas” básico de sempre) Barry Allen não é o único detentor da supervelocidade que fica zanzando pelo mundo das HQs (histórias em quadrinhos) da DC comics. Na vida real, e particularmente na natureza, existem “máquinas de correr” que são igualmente incríveis e que merecem nossa atenção. Quem insiste em considerar o Homo sapiens “surpreendente”, pode tirar seu cavalinho da chuva. Nossa conversa agora é com esse panteão aqui em baixo.

Muitas espécies no ambiente, terrestres e aéreas, possuem capacidades motoras (e atributos genéticos suficientes) para galgar incríveis velocidades à curtas distâncias – cujo comportamento é necessário para delimitar e perseguir presas igualmente rápidas, como é o caso do guepardo (Acinonyx jubatus Scherber, 1775) – também chamado de chita -, sob o encalço de antílopes (indivíduos da Famíla Bovidae, Ordem Artiodactyla).

Considerado o animal terrestre mais veloz do planeta, trata-se -se de um indivíduo felino garras de garras retráteis (usadas como aparatos de aplicação e atrito para o impulso na corrida), cauda, patas longas e uma coluna vertebral flexível lhe conferem substancialmente equilíbrio e propulsão para conjurar incríveis 105-115 km/hora em distâncias curtas.

Existem registros de que os “bichanos” alcançam 100 km/hora em 3 segundos, enquanto o esportivo ultraleve de quatro rodas Koenigsegg Agera R atinge em 2,9 segundos (lê-se “conizegue aguira erre“ – por que não somos obrigados a ler palavras complicadas, sinto muito)…diferença insignificante de tempo, não é? Falando em Koenigsegg, quem não queria ter um carro daqueles! O interessante da história é que um carro dessa linha foi utilizado nas gravações do filme Ned for Speed (2014). Respeite carro, hein?

Mas…vamos ficar com os nossos guepardos mesmo: alguns estudos apontam que esses organismos corredores podem suplantar essa velocidade média estimada, chegando até 145 km/hora, mas os relatos são incertose não apresentam qualquer embasamento.

Outros organismos também apresentam velocidades impressionantes:

1. Zebra (Equus zebra Linnaeus, 1758; Família Equidae), 64 km/h. As zebras das montanhas habitam declives e planaltos em áreas montanhosas da África do Sul e da Namíbia (Sudoeste da África).

2. Coiote (Canis latrans Say, 1823; Família Canidae), 69 km/h. Os coiotes são encontrados em todas as partes dos Estados Unidos, exceto no Havaí. Eles também são encontrados no México, na América Central e na maior parte do Canadá.

3. Êider-dedredão (Somateria mollíssima Linnaeus, 1758; Família Anatidae), 76 km/h. Este pato de grandes dimensões caracteriza-se pelo seu seu pescoço curto e pelo bico cuneiforme. O macho, com a plumagem preta e branca, é fácil de identificar, a fêmea é acastanhada com listas escuras no dorso e nos flancos.

4. Gnu-de-cauda-preta (Chonnochaetes taurinus Burchell, 1823; Família Bovidae), 80 km/h. é uma espécie chave em planícies e ecossistemas de savanas do sudeste da África ao centro do Quênia. É altamente sociável e soberbamente adaptado para uma existência migratória.

5. Leoa (Panthera leo Linnaeus, 1758, Família Felidae), 80 km/h. Os leões africanos vivem na maior parte da África subsaariana, exceto nos habitats do deserto e da floresta tropical. Os leões já foram exterminados da África do Sul, onde permanecem nos Parques Nacionais Kruger e Kalahari Gemsbok e possivelmente em algumas outras áreas protegidas.

6. Gazela-de-thompson (Eudorcas thomsonii Gunther, 1884; Família Bovidae), 80 km/h. É considerado por alguns autores como uma subespécie da gazela ruiva e foi anteriormente considerado um membro do gênero Gazella dentro do subgênero Eudorcas , antes de Eudorcas ser elevado ao status de gênero.

7. Pronghorn (Antilocapra americana Ord, 1815; Família Antilocapridae), 98 km/hora. O pronghorn é o único membro sobrevivente da família Antilocapridae e está na América do Norte há mais de um milhão de anos.

8. Agulhão-vela (Istiophorus platypterus Shaw, 1792; Família Istiophoridae) é conhecido por ter uma distribuição natural no Oceano Índico e no Oceano Pacífico. Consta do Guinness Book como sendo o animal aquático mais rápido, chegando a 110 km por hora.

9. Falcão-peregrino (Falco peregrinus Tustall, 1771; Família Falconidae), 320 km/h. É uma das aves de rapina com uma distribuição quase cosmopolita, ou seja, ocorre em todos os continentes, exceto na Antártida. Sua alimentação varia de aves à morcegos, que são capturados em pleno voo através de rápidas investidas ou perseguições.

Agora, depois que vocês viram que existem n animais velozes e furiosos/máquinas cheias de nitrox do Hotweels na natureza, já imaginaram se tivesse, hipoteticamente, uma categoria de “animal mais rápido” na festa do Oscar®? Parece loucura, mais nenhum deles ganharia o posto de animal mais rápido da Terra. Se segura na cadeira que lá vem bomba – ou senta que lá vem história! (os jargões clássicos do Castelo Rá-Tim-Bum nunca perdem sua majestade).

Em meados de 2016, o biólogo pesquisadores do Instituto Max Planck para Ornitologia da Universidade de Constança, na Alemanha, e das universidades do Tennessee e de Boston, nos Estados Unidos se depararam com dados impressionantes sobre o morcego Tadarida brasiliensis I. Geofroy, 1824, um pequeno morcego com meros 12 gramas de peso da Família Molossidae (Classe Mammalia). Os resultados apresentaram que o organismo alcança – estão sentados? – cerca de 160 km/hora, e o consideraram o “verdadeiro Barry Allen.” Em outras palavras, a criatura mais rápida – pelo menos aérea – existente no mundo atual. Apesar do nome, o T. brasiliensis não é exclusivo do Brasil. Também pode ser encontrado no Chile, Argentina, Uruguai e nos Estados Unidos.

As conclusões foram apresentadas em um artigo publicado em novembro na revista Royal Society Open Science. Até agora, o recorde de velocidade de voo na horizontal medido por pesquisadores pertencia a pássaros da família Apodidae, como o andorinhão-preto (Apus apus Linnaeus, 1758) presente em todos os continentes, exceto na Antártida e nas Américas, e capaz de alcançar 100 km/h.

Mas, ai vem a dúvida: outros animais se sobrepõem facilmente em velocidade se comparar a do T. brasiliensis com as espécies já citadas aqui. Diante desse pressuposto, porque ele apresenta ser mais rápido?

Em tese, algumas espécies se movem mais rápido (como acabamos de ver). Mas não pela própria força. O próprio falcão peregrino (F. peregrinus) consegue sua velocidade máxima (320 km/h) mergulhando na vertical. Mas não vá pensando que é grande coisa, já que humanos (H. sapiens) em queda livre podem ultrapassar a velocidade do som. O T. brasiliensis alcança seus 160 km/h em linha reta, com a força das próprias asas!

Para medir a velocidade do mamífero voador, foi utilizado um radiotransmissor de menos de 1 grama preso às costas dos espécimes pesquisados, segundo o estudo. Os dados que registraram a velocidade foram armazenados em um avião em miniatura controlado remotamente, que perseguindo-os no ar (quem lembrou do Desenho “Esquadrilha Abutre” levanta a mão…não?…Ninguém?). A bióloga Dina Dechmann, que participou do experimento, alegou que não foi fácil perseguir os “danadinhos.”

Então DC comics, tem inúmeros candidatos tetrápodes, bípedes e aéreos almejando a vaga do Flash. Ele que se cuide!

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