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Os avanços da ciência no Brasil, editorial de "O Estado de SP"

Publicado em 02 março 2001

Onze instituições de pesquisa e Universidades, localizadas em Campinas e cidades vizinhas, acabam de anunciar que estão unindo esforços para melhor difundir os resultados dos seus trabalhos científicos e tecnológicos, para uso das empresas e de toda a sociedade. Segundo se informava, elas respondem por 10% a 15% das pesquisas científicas realizadas em todo o país, empregando recursos da ordem de R$ 1 bilhão por ano. Há dias, junto com o noticiário sobre a divulgação, pelas revistas "Nature" e "Science", da identificação quase completa da estrutura do genoma humano, informava-se que o Brasil está colocado em segundo lugar entre os países que mais contribuíram com informações para o banco de genes internacional que propiciou aquela vitória científica. Lembramos que recentemente, em 22/1, reportagem de "O Estado de SP", de Simone Biehler Mateos, mostrava que a ciência brasileira tem dado saltos, de fato, prodigiosos - sobretudo na área de biotecnologia voltada para a medicina e a agricultura. Em apenas três anos, o país se tornou líder mundial no estudo genético de pragas agrícolas, mas também passou a produzir um numero de seqüências de genes humanos só superado pelos EUA. Para o Projeto Genoma Humano (HGP) internacional, só no cromossomo 22, nossos cientistas identificaram mais de 200 genes novos - o que significa um terço do total encontrado. Fora isso, o país chegou a desenvolver nova estratégia de seqüenciamento genético, que pretende patentear. A propósito, no ano passado foi inaugurado em SP o maior centro de estudos genéticos da América Latina, voltado para doenças genéticas hereditárias. A liderança brasileira tem sido expressiva no estudo de determinados tipos de câncer. Mais de 95% dos fragmentos de genes identificados em tumores de cabeça e pescoço foram seqüenciados pelo Hospital do Câncer de SP. E em dois anos os pesquisadores esperam descobrir os 20% dessas seqüências que ocorrem só nos tecidos doentes (os marcadores), o que permitira fazer diagnósticos mais precoces do que os atuais. Deve-se, especialmente, 'a Fapesp, e também ao Instituto Ludwig de SP, o grande salto brasileiro nas pesquisas genéticas. Conseguiu-se dominar as técnicas a ponto de seqüenciar o DNA completo de um ser vivo - para isso escolheu-se a Xylella fastidiosa, bactéria causadora do amarelinho, que atinge os laranjais brasileiros. Graças ao talento de jovens cientistas brasileiros, o país também ganhou respeito internacional na bioinformatica, uma área critica da genética que consiste na arte de usar computadores para remontar o quebra-cabeca de milhões de fragmentos de DNA e analisar os genes. Esses jovens conseguiram não só dominar o que se fazia nos países avançados, mas criar novos programas (softwares) para o setor. É verdade que há anos o Brasil tem a agronomia para a região tropical mais desenvolvida do mundo. E com o domínio da tecnologia de analise biomolecular essa área avança, entre nos, com rapidez cada vez maior. Já são notórios os resultados práticos dessas pesquisas e sua influencia na produtividade agrícola. Em 95 a Embrapa lançou cerca de 20 tipos de plantas geneticamente melhoradas. De três anos para cá, coloca no mercado quase 100 por ano, criando plantas altamente produtivas, adaptadas a climas específicos e resistentes a pragas. Conseguiu-se, por exemplo, "tropicalizar" a soja (tornando o país o segundo maior produtor do mundo) produzir cenouras na entressafra (e mais produtivas); um tipo de feijão que produz 40% mais por hectare; um cajueiro anão que dá frutos mais doces; um algodão que já nasce verde, marrom ou creme, dispensando corantes químicos. O mais recente lançamento da Embrapa é uma arma biológica contra o gafanhoto, a primeira desse tipo que se conseguiu desenvolver: um fungo especializado em eliminar o inseto (quando no mundo inteiro a praga é combatida com produtos altamente tóxicos). É de se concluir que tudo o que se investe em pesquisa científica, no país, repercute na produção - e certamente no emprego - de forma excepcional e muito mais rapidamente do que se imagina. (O Estado de SP, 26/2) JC e-mail