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A Tribuna (Santos, SP)

Os alquimistas estão de volta

Publicado em 10 agosto 2009

Abacate, penas de galinha, cascas de arroz ou xixi. O que esses quatro "produtos" têm em comum? Simples, a partir deles, alguns cientistas veem grande possibilidade de se produzir biocombustíveis, mais baratos e menos poluentes do que os derivados de petróleo, fonte de eterna tensão política e econômica no mundo.

Parece coisa de alquimista da Idade Média, mas, na verdade, trata-se do puro princípio com que Antoine Lavoisier, no século 18, moldou a química moderna: na natureza nada se cria, nada de perde, tudo se transforma.

É assim, por exemplo, que pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, acreditam que o abacate apresente vantagem em relação a outras oleaginosas estudadas ou usadas para a produção de biocombustível, como a soja.

Terceiro maior

O motivo é que do mesmo fruto é possível extrair as duas principais matérias-primas do biodiesel: o óleo, da polpa, e álcool, do caroço, que é composto, em média, por 20% de amido.

"Isso, por si só, é uma grande vantagem, já que da soja é extraído somente o óleo e a ele é adicionado o álcool anidro", explicou Manoel Lima de Menezes, professor do Departamento de Química da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru.

O Brasil é o terceiro produtor mundial de abacate, com cerca de 500 milhões de unidades produzidas por ano. Cultivado em quase todos os estados, mesmo em terrenos acidentados, a produção se dá o ano todo, com 24 espécies que frutificam a cada três meses.

Maior produtividade

Segundo Menezes, seria possível extrair de 2,2 mil litros a 2,8 mil litros de óleo por hectare de abacate, volume muito superior, por exemplo, a quatro das principais oleaginosas usadas hoje na produção de biodiesel no País: soja (440 a 550 litros por hectare), mamoma (740 a 1 mil litros/hectare), girassol (720 a 940 litros/hectare) e alg o d ã o (280 a 340litros/ hectare).

Jádo caroço, estima-se que seja possível extrair 74 litros de álcool por tonelada -- valor próximo ao da cana-de-açúcar, que possibilita a extração de 85 litros por tonelada, enquanto a mandioca fornece 104 litros por tonelada.

Os estudos feitos na Unesp indicam que as características do biodiesel do óleo de abacate são bastante semelhantes às verificadas com o biodiesel de soja. A exceção é a cor. Enquanto o biocombustível de soja é amarelo, o do abacate, em razão da clorofila, é esverdeado.

Mais barato

Como o objetivo é usá-lo co-mo fonte energética, a cor não interfere na qualidade final do produto. O mesmo, por exemplo, não acontece quando o óleo do abacate é voltado para aplicação medicinal. Nesse caso, "clarificar levaria à perda de suas propriedades, ao passo que a coloração escura não tem apelo comercial na produção de cosméticos", explica Menezes. A viabilidade econômica do biodiesel de abacate não foi foco dessa etapa do estudo, nem é a especialidade desse grupo de pesquisa. O custo do biodiesel ainda é alto. Produz-se óleo de soja a um custo de R$ 1,20 o litro. O álcool anidro para adicionar é comprado a R$ 0,74 o litro.

Porém,de acordo com as análises, como o abacate tem a vantagem de oferecer as duas matérias-primas, o produto final teria, em tese, um custo mais baixo do que o da soja.

(Redação com Agência Fapesp)