Notícia

Jornal da USP

Os 16 cavaleiros do Brasil

Publicado em 27 agosto 2000

As lutas bipolarizadas fascismo versus antifascismo, comunismo contra capitalismo, iniciadas no começo deste século, tem sido analisadas em todos os cantos do mundo sob as mais variadas formas e linhas de pesquisa, obtendo resultados muitas vezes antagônicos, em que são priorizadas, na maioria dos casos, análises envolvendo grandes regiões, notórias personagens históricas e as ideologias que marcaram nossa época (socialismo, liberalismo, anarquismo, nazismo, fascismo e comunismo). "A militância antifascista: comunistas brasileiros na Guerra Civil Espanhola (1936-1939)", dissertação de mestrado defendida no último dia 28, no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, traz uma nova visão sobre o tema. A partir de documentos encontrados em São Paulo e Rio de Janeiro, a autora Thais Battibugli fez uma releitura da questão utilizando dados sobre a trajetória de 16 militantes do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB, atual PSB), que lutaram na Espanha, atuando nas Brigadas Internacionais ou no Exército Republicano, opositores do golpe militar desfechado pelo general Francisco Franco, o qual, no final do conflito, acabou instaurando um regime ditatorial que terminou nos anos 70, com a restauração da monarquia espanhola. "O objetivo inicial do estudo era acompanhar o processo de formação política que levou 14 militares e dois civis brasileiros a se engajarem na luta internacional antifascista", explica Thais. "Ao mergulhar nessas trajetórias individuais, foi possível analisar uma série de questões interligadas, formadoras do contexto da época e tradicionalmente discutidas de outras maneiras." Experiências individuais Segundo a pesquisadora, a metodologia utilizada buscou pesquisar fontes primárias ainda muito pouco exploradas pela historiografia, como arquivos vindos de Moscou, do Judiciário e da Polícia Política Brasileira, além do material do Arquivo Histórico do Itamaraty (AHI), jornais e revistas da época e entrevistas concedidas por alguns dos ex-voluntários. "Os arquivos de Moscou reúnem documentação da Internacional Comunista, em grande parte relativa ao PCB e seus militantes", explica Thais. "O material foi copiado em Moscou para o Arquivo Edgard Leuenrolh, no início dos anos 90, totalizando dez microfilmes, os quais foram abertos após o esfacelamento do regime soviético em 1989." A primeira parte da dissertação. "Os militantes", relata a militância dos brasileiros que combateram pela República Espanhola, desde sua entrada no PCB, passando pela guerra na Espanha, até seu retorno ao País e o fechamento do partido, em maio de 1947. "A preocupação desse momento foi conhecer as motivações que os levaram à militância e as experiências pelas quais passaram ao longo desses anos, originando mudanças em suas concepções políticas", relata Thais. "A experiência do grupo", segunda parte do trabalho, enfoca a atuação desses militantes enquanto agrupamento organizado, formado no convívio das prisões políticas entre 1936 e 1937. Além disso, de acordo com a pesquisadora, "foi feita uma análise, em segundo plano, mas não menos importante, da repressão que vitimou a maior parte do grupo durante o regime militar de 1964, ilustrando a longa perseguição política que sofreram". Espanhóis brasileiros Durante o desenvolvimento da pesquisa, a qual teve o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (fase de Iniciação Científica) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp (Mestrado), Thais foi encontrando farto material sobre os voluntários brasileiros que se envolveram no conflito. "Um dos fatos mais interessantes é que todos aparecem como sendo brasileiros, inclusive os espanhóis que haviam emigrado para o Brasil e que retornaram à Espanha para lutar na Guerra Civil", relata. Na maioria dos casos, os combatentes eram comunistas, que tinham se iniciado na política dentro dos quartéis, na época agitados pela insatisfação com o governo de Getúlio Vargas, alimentada pelas difíceis condições de trabalho e pelo crescimento dos movimentos populares a partir da promulgação da Constituição de 1936. "Além disso, havia uma tradição de agitação política nos quartéis desde o movimento abolicionista, passando pelo tenentismo e pela participação de militares na Aliança Liberal, que colocou Vargas no poder em 1930." Entre os militantes brasileiros, destaca-se a atuação de Êneas Borges de Andrade, piloto que morreu em combate; Alberto Besouchet, o qual morreu misteriosamente; e Apolônio Carvalho, hoje residente no bairro do Leblon, Rio de Janeiro. "O PCB desconfiava que Besouchet fosse trotskista o que, na época, para as outras correntes comunistas, equivalia a ser fascista", afirma Thais. "Há dados que comprovam que os partidos comunistas francês e espanhol o investigaram e, provavelmente, o assassinaram por lutar em uma milícia trotskista." Para a pesquisadora, uma das experiências mais emocionantes talvez tenha sido a de Apolônio Carvalho, que lutou nas Brigadas Internacionais durante o conflito espanhol e concedeu duas entrevistas para Thais. Em 1939, com a vitória de Franco, fugiu para a França, conseguiu um emprego na Embaixada Brasileira, onde continuou aluando em prol de sua causa através da confecção de cartas falsas destinadas à libertação de antigos companheiros, detidos em campos de concentração pelo governo francês, que tinha receio dos republicanos exilados, vistos como integrantes da peste vermelha, da ameaça comunista. Com a invasão alemã, se refugiou no sul do país e lutou na Resistência Francesa, chegando a se tornar coronel de uma tropa de cerca de 2 mil pessoas, "a qual foi responsável pela libertação do sudoeste do país sem ter o apoio aliado", enfatiza Thais. Outro caso curioso narrado no estudo foi o de Alcedo Batista Cavalcante que, ao chegar na Espanha, pediu a garantia de que, se falecesse em combate, sua mãe e seu pai receberiam do PCB uma pensão vitalícia. "Ao negarem o cumprimento de seu pedido, Cavalcante voltou para o Brasil, mas não abandonou a militância, sendo reincorporado ao exército em 1951", explica a pesquisadora. "Esse ato foi considerado pela cúpula do PCB como uma ação grave, de desafio à organização, que pregava a disciplina, a abnegação e o respeito às decisões da cúpula partidária, visando à criação e à manutenção de uma identidade única da militância." O estudo termina relatando que muitos combatentes brasileiros foram reincorporados ao exército com a nova Constituição de 1988, recebendo, na maioria dos casos, a patente de coronel reformado e o reconhecimento da importância de suas ações para a luta contra o fascismo. "Em síntese, eram militantes que pensavam a prática política e deram sua contribuição, direta ou indiretamente, para o restabelecimento das liberdades democráticas no País", declara Thais. "O PCB, por sua vez, tornou-se um partido com grande apoio popular, mas sofreu, em 1947, o revés de uma elite jamais satisfeita com a sua popularidade." Mais informações: (0xx19) 230-0512, 9601-3345 ou e-mail thaisbat@aquarium.com.br.