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Orquestra neural

Publicado em 24 agosto 2009

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP

Neurocientista Miguel Nicolelis relembra o professor Cesar Timo-Iaria, da USP, e fala na reunião da FeSBE sobre a possibilidade de restaurar comportamentos motores pela leitura da música cerebral

Agência FAPESP Para entender o cérebro é preciso entender como funciona uma orquestra neural." Com essa imagem, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), abriu a conferência Just follow the music na 24ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), que está sendo realizada até o dia 22 de agosto em Águas de Lindoia, em São Paulo.

Ao explicar o título da palestra, relembrou seu mentor intelectual, o professor César Timo-Iaria (1925-2005), titular de neurofisiologia da Universidade de São Paulo (USP), onde Nicolelis se graduou em medicina. Ele colocava Wagner para nós ouvirmos e iniciava suas aulas pela astronomia. Quando perguntei como faria para encontrá-lo na faculdade, respondeu: Siga a música.

Nicolelis foi homenageado na reunião da FeSBE com o Prêmio Professor Cesar Timo-Iaria. Para mim tem um significado fundamental, muito profundo porque é uma homenagem ao meu orientador de tese, que é um dos maiores neurocientistas da história do Brasil e do mundo. Timo-Iaria foi um patrimônio do Brasil, não só um grande cientista mas um grande homem, grande brasileiro, então é uma honra enorme ser o primeiro agraciado, disse à Agência FAPESP.

O neurocientista apresentou ao público as ideias que nortearam suas pesquisas sobre o cérebro, destacando que não existe a ditadura do neurônio único. O que existe são circuitos. Essa ideia, conta, vem do psicólogo canadense Donald Hebb que, em 1949, publicou Organização do Comportamento, um dos livros mais citados e menos lidos da neurociência.

Como Hebb não tinha provas experimentais de suas teorias, porém, a publicação não teve impacto imediato. Mas sua contribuição foi imensamente maior. Ele criou uma nova era sem que ninguém percebesse, apontou.

Segundo Nicolelis, durante mais de 100 anos o ponto de vista da neurociência foi o de mandar uma informação para o cérebro e tentar decodificar o que o cérebro fazia com aquela informação. Ou seja, a idéia era entender o funcionamento do cérebro de fora dele. Mandava-se um sinal (visual ou tático) e tentava-se decodificar o que ocorreu.

Mas esse ponto de vista está incompleto. É preciso entrar na perspectiva do cérebro para entendê-lo.

"Sob essa abordagem, o sinal que eu mandei e que para mim não tem significado, para você tem um significado já adquirido antes mesmo de olhar pra ele. Ou seja, o fato de que você sabe que vai olhar ou tocar alguma coisa, como a sua história pregressa dominou ou influenciou a definição da dinâmica do seu cérebro durante toda a sua vida, faz com que esse evento já tenha um significado para você antes mesmo que ele ocorra", explicou.

Em outra palavras, o cérebro não é um agente passivo, não é um decodificador de informação, ele é um modelador de realidade.

Interface cérebro-máquina

O que eu estou tentando fazer na minha pesquisa é mudar o ponto de vista da neurofisiologia para dentro do cérebro e ver o mundo de lá para fora, em vez de fora para dentro. E quando fazemos isso, tudo muda, porque quando racionalizamos o cérebro em casinhas, mostramos nossa maneira cartesiana de ver o mundo. Mas o cérebro não evoluiu sobre esses preceitos, ele não evoluiu sobre a lógica das ciências humanas, disse o neurocientista, que se denomina um 0relativista do cérebro.

Seu trabalho atesta a ideia de que o cérebro vai aos poucos se libertando do corpo, ou seja, a ideia segunda a qual o cérebro define a nossa percepção do que é o corpo que o abriga.