Notícia

Gazeta de Piracicaba

Origem interestelar

Publicado em 26 abril 2020

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Uma população de asteroides de origem interestelar habita o Sistema Solar studo realizado no Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IGCEUnesp), em Rio Claro, identificou 19 asteroides do tipo Centauro de origem interestelar. Os Centauros são objetos que orbitam o Sol na região compreendida entre os planetas gigantes do Sistema Solar. Artigo a respeito, intitulado An interstellar origin for high inclination Centaurs, foi publicado nesta semana na revista Monthly Notice s da Royal Astronomic al Society. A pesquisa contou com apoio da Fapesp. “ O Sistema Solar formou-se há 4,5 bilhões de anos em um berçário de estrelas, com os seus sistemas de planetas e asteroides. A proximidade entre as estrelas favorecia fortes interações gravitacionais que levavam à troca de material entre os sistemas. Assim, alguns objetos atualmente no Sistema Solar devem ter-se formado em torno de outras estrelas.

No entanto, até recentemente, não tinha sido possível distinguir os objetos interestelares capturados daqueles formados em torno do próprio Sol. A primeira identificação foi feita por nós em 2018 ”, diz a autora do estudo, Maria Helena Moreira Morais, à Agência Fapesp. Graduada em física matemática pela Universidade do Porto (Portugal) e doutorada em dinâmica do Sistema Solar pela University of London (Reino Unido), Morais é atualmente professora do IGCE-Unesp e realizou o estudo agora publicado em parceria com Fathi Namou ni, pesquisador do Observatoire de Nice, na França. A primeira identificação a que Morais se refere, a do asteroide Ka' epa ok a' awela, foi objeto de reportagem publicada na Agência Fapesp em 2018. O nome significa, em língua havaiana, “ O travesso de Júpiter ”, porque esse asteroide se mantém sempre próximo de Júpiter, mas orbitando o Sol no sentido oposto ao dos planetas. Assim como o Ka' epa ok a ” awela, os Centauros identificados na pesquisa têm órbitas muito inclinadas em relação ao plano orbital dos planetas. “ Para investigar a origem desses objetos, construímos Espaço Estudo pode fornecer informações sobre berçário estelar do Sol uma simulação computacional que funciona como máquina do tempo, fazendo retroceder suas trajetórias até 4,5 bilhões de anos no passado. Essa simulação permitiu-nos identificar onde esses objetos se encontravam naquela época ”, explica Morais.

Os planetas e asteroides originados no próprio Sistema Solar Nasa formaram-se a partir de um fino disco de gás e poeira que orbitava o Sol. Por essa razão, todos eles se moviam no plano do disco há 4,5 bilhões de anos. Se os Centauros em questão tivessem se originado no Sistema Solar, eles também deveriam mover-se no plano do disco naquela época. “ No entanto, nossa simulação mostrou que, há 4,5 bilhões de anos, esses objetos giravam em torno do Sol em órbitas perpendiculares ao plano do disco. E o faziam em uma região afastada dos efeitos gravitacionais do disco original ”, informa a pesquisadora. Esses Centauros não pertenciam originalmente ao Sistema Solar e devem ter sido capturados de estrelas próximas durante a fase de formação planetária.

A descoberta de uma população de asteroides de origem interestelar é um passo importante para compreender, por meio de futuras observações e possíveis missões espaciais, as diferenças e semelhanças entre objetos formados no Sistema Solar e de fora. “ O estudo dessa população poderá fornecer informação sobre o berçário estelar em que o Sol se formou, o processo de captura de objetos interestelares no Sistema Solar primordial e a importância do material interestelar no enriquecimento químico do Sistema Solar ”, diz Morais. O artigo pode ser acessado pelo link https: academic. oup. com/mnras/article/494/2/2191/5822028.