Notícia

Agência C&T (MCTI)

Origem do chocolate

Publicado em 15 novembro 2007

Uma descoberta feita por arqueólogos em Honduras revelou que o cacau já era utilizado em bebidas na América Central cerca de 500 anos antes do que se imaginava. A bebida, no entanto, era diferente do conhecido chocolate consumido em rituais pelos astecas.

Os cientistas identificaram resíduos do composto químico teobromina, encontrado apenas na planta de cacau, em potes de cerâmica datados de 1150 a.C. — cinco séculos antes do registro mais antigo de consumo de cacau de que se tinha notícia até então. Os resultados do trabalho serão publicados esta semana no site e em breve na edição impressa da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas).

A equipe coordenada por John Henderson, do Departamento de Arqueologia da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, analisou dez potes de cerâmica encontrados em escavações na área atualmente conhecida como Puerto Escondido, em Honduras. Segundo os autores do trabalho, em tempos mais recentes a famosa bebida de chocolate — servida em ocasiões especiais, principalmente pelas elites do império Asteca — era feita de sementes de cacau.

A bebida primitiva, cujos resíduos foram encontrados em Puerto Escondido, era provavelmente produzida pela fermentação da polpa da fruta, como a maioria das bebidas alcoólicas produzidas por indígenas nas Américas do Sul e Central.

De acordo com os pesquisadores, o estilo cuidadosamente decorado da cerâmica em que se encontravam os resíduos de cacau indica que a bebida era servida em cerimônias importantes ligadas a casamentos e nascimentos.

A análise química não foi capaz de determinar se a bebida era derivada da polpa ou das sementes, pois a teobromina ocorre em ambas as partes da planta. O álcool que eventualmente possa ter sido usado desapareceu rapidamente, por sua volatilidade e suscetibilidade a ataques microbianos.

O estudo, no entanto, indica que a hipótese do uso primitivo do cacau ser feito com fermentação da polpa da fruta é coerente com o fato de que esse tipo de aguardente era produzido em várias parte do mundo em épocas remotas, incluindo a China durante o Neolítico.

Os potes de Puerto Escondido teriam sido desenhados para servir bebidas e eram comparáveis àqueles em que o cacau era servido em períodos mais recentes utilizados em rituais. Havia, no entanto, diferenças de formato, que podem implicar que a bebida antiga era feita pela fermentação da polpa.

Enquanto os potes mais recentes têm um tipo de bico que pode indicar a produção de uma espuma — um passo comum na preparação padrão de chocolate —, os potes de Puerto Escondido tinham gargalo longo, impróprio para a espuma, mas adaptado para servir líquidos.

Além disso, os potes não apresentavam vestígios de aditivos comumente utilizados em bebidas de chocolate na região, como mel e pimenta, o que seria mais uma indicação de que a bebida utilizada devia ser mesmo a aguardente de polpa fermentada de cacau. Esse tipo de bebida, dizem os pesquisadores, pode chegar a 5% de álcool por volume.

O artigo Chemical and archaeological evidence for the earliest cacao beverages, de John Henderson e outros, pode ser lido por assinantes da Pnas em www.pnas.org.

Fonte: Agência FAPESP