Notícia

Correio Popular

Organismos monitoram qualidade da água

Publicado em 20 fevereiro 2005

Usar organismos vivos pode ser uma solução simples e barata para monitorar a qualidade da água, sobretudo em áreas rurais. A técnica, estudada por uma pesquisadora da região, requer equipamentos de pouca sofisticação e pode significar resultados preliminares rápidos para os órgãos ambientais.
Além da simplicidade, a vantagem do biomonitoramento e que os organismo vivos utilizados para monitorar a qualidade da água são sedentários, portanto, permanecem no local avaliado um determinado período, registrando informações importantes para a conclusão da analise.
Usualmente, a qualidade da água é avaliada com base em parâmetros físico-químicos, como pH, níveis de fósforo, nitrogênio, oxigênio, transparência, entre outros. "A vantagem desse tipo de avaliação (físico-química) é que o resultado é instantâneo. A desvantagem é que  são parâmetros que podem sofrer alterações com maior facilidade", avalia a pesquisadora Mariana Pinheiro Silveira, da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna)  "Quando usamos os organismos bentônicos (animais que vivem no fundo de lagos e rios) temos o sedentarismo deles a nosso favor."
Mariana ressalta que ouso do biomonitoramento não exclui a avaliação físico-químico. Ao contrário, ambas devem ser realizadas concomitantemente para um resultado mais seguro. "O uso dos macroinvertebrados bentônicos é uma ferramenta a mais. E para um país em desenvolvimento, como o nosso, é interessante possuir esse tipo de avaliação  afirma a bióloga.

Simplicidade
O grupo dos organismo bentônicos usados por é moluscos Mariana— em  seu estudo habita pedras, gravetos, restos vegetais de rios e lagos e pelo menos uma fase de seu ciclo de vida. E composto por insetos aquático  (principalmente em fase de larvas e ninfas), moluscos e alguns vermes.
"Para a maioria das pessoas são animais desconhecidos. Mas a libélula, por exemplo, passa todo o estágio antes de virar adulta na água. E é utilizada no biomonitoramento", diz Mariana.
Segundo a pesquisadora, o uso do conjunto de animais presentes no mesmo ecossistema aquático ajuda a garantir maior precisão. "A gente avalia a abundância de determinados animais. Há espécies que vivem em águas menos oxigenadas, por exemplo. Isso é que vai nos dando os parâmetros para analisar a qualidade da água."
Para coletar os organismos, a equipe envolvida na pesquisa utiliza redesmalha fina. "Esses animais são visíveis a olho insetos nu, mas são muito pequenos", diz Mariana.
Em rios, a coleta é feita contra a correnteza, malha fina pois caso  os pequenos animais  desprendam de pedras ou gravetos ficara mais fácil pegá-los. A busca também inclui revirar galhos e aglomerados de pedras. Os organismos são guardados em uma determinada quantidade de álcool 70% e levados
para o laboratório, onde e feita a triagem, avaliação e identificação. "Separamos os animais e os analisamos em um microscópio estereoscópico. Após a identificação é que calculamos a riqueza da espécie, sua diversidade etc.", diz Mariana.
A metodologia para a coleta de animais em águas paradas (lagos, lagoas, tanques) e diferente. "Usamos dragas para retirar os organismos", explica a pesquisadora. A avaliação em laboratório segue um processo bastante semelhante ao usado em organismos coletados em águas correntes.

Resultados
Os resultados saem rapidamente. Os pesquisadores conseguem identificar o animal a partir de chaves usadas em análises taxonómicas (de classificação). Essas chaves contêm características específicas dos animais, que entrarão para um ou outro grupo, conforme particularidades observadas em laboratório. "A gente ainda conhece muito pouco da fauna brasileira A falta de taxonomistas (pessoas que estudam a classificação) desses organismos é uma dificuldade para a pesquisa", indica Mariana.
Apesar disso, os pesquisadores conseguem desenvolver índices bióticos a partir das analises feitas em laboratório. Os índices são números que sintetizam as respostas de tolerância ou sensibilidade dos organismos à poluição.
"Esses índices já foram desenvolvidos nos Estados Unidos e Inglaterra, mas estamos tentando fazer isso no Brasil, para termos um resultado fiel à nossa fauna", afirma.
Um dos maiores benefícios da aplicação do biomonitoramento das águas é a garantia da melhora do meio ambiente e também a proteção da saúde humana.
Para a agricultura, significa avaliar como os compostos químicos de defensivos agrícolas podem afetar a qualidade da água —muitas vezes utilizada para irrigação e até mesmo para o consumo humano. "Estamos procurando desenvolver ensaios de biotoxicidade, a fim de determinar o nível de tolerância e a concentração máxima de compostos químicos que os organismos suportam", diz a bióloga. "No campo - temos um conjunto de vários poluentes atuando juntos. Queremos ver como esses compostos atuam, um por um, sobre a fauna"

Engatinhando
O biomonitoramento é uma técnica utilizada desde a década de 1970 nos Estados Unidos. Os pesquisadores se baseiam na presença ou ausência dê determinados organismos da fauna para caracterizar a qualidade da água.
"A biodiversidade desse grupo faz com que seja possível classificar a poluição — orgânica ou química", afirma Mariana.
O trabalho da bióloga começou na Universidade Federal do Rio de Janeiro
 quando o biomonitoramento foi escolhido como tema de sua tese de mestrado A pesquisadora avaliou o impacto por esgoto,e desmatamento na bacia do Rio Macaé (RJ). Há dois anos, Mariana está na Embrapa e hoje o foco de seu estudo é a avaliação da resposta do organismos ao uso de produtos agroquímicos. Além de trabalhar na bacia do Rio Pardo-Mogi, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ela também desenvolve um estudo sobre a qualidade da água de tanques (pesqueiros) da cidades do Interior do Estado.