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O Povo

Ora (direis) ouvir estrelas

Publicado em 14 janeiro 2019

O conhecimento sobre os astros estão em constante evolução, sempre em busca de encontrar respostas para a curiosidade humana acerca da origem e do funcionamento da infinidade de corpos celestes e fenômenos que nos avizinham no espaço.

No Ceará, o estudo em astrofísica é campo fértil tanto para quem se interessa pelo assunto seja na perspectiva amadora, seja na científica.

Os laços com a área, inclusive, são de longa data. Foi do município de Sobral, à época do eclipse total de 29 de maio de 1919, de onde saíram as primeiras provas da Teoria da Relatividade Geral do físico alemão Albert Einstein.

"As placas fotográficas tomadas lá forneceram a primeira prova da Teoria de Relatividade Geral. A partir delas, a Física mudou para um outro patamar e Einstein ficou mundialmente famoso.

Sobral não foi ainda devidamente creditado por ter sido palco dessa revolução. Embora o eclipse de 1919 tenha sido observado também nas ilhas Príncipe, os dados de Sobral foram superiores", afirma o astrônomo e astrofísico brasileiro Augusto Damineli, professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O centenário ocorre neste ano, mas as comemorações do centenário do eclipse histórico para a ciência já estão ocorrendo desde maio de 2018.

"O cearense, o brasileiro, tem que saber que a comprovação dessa teoria começou no Ceará. Estamos fazendo várias atividades em alusão a isso", confirma Dermeval Carneiro, professor de Física e Astronomia, e diretor do Planetário Rubens de Azevedo, em Fortaleza.

Mas a relação cearense com a Astrofísica não ficou no passado. Fortaleza, por exemplo, já conta com curso de pós-graduação na área, desde 2017, que foi de onde saiu a assinatura cearense em recente descoberta de um novo exoplaneta, que é um tipo de planeta situado fora do sistema solar.

O astrofísico Daniel Brito, da Universidade Federal do Ceará (UFC), participou da equipe de pesquisadores responsáveis pelo reconhecimento do planeta batizado de IC 4651 9122b.

Daniel é responsável pela orientação dos cursos de mestrado e doutorado em Astrofísica, do Departamento de Física da UFC, onde os interessados podem desenvolver projetos em duas linhas de pesquisa: Astrofísica Estelar Observacional e Exoplanetologia."São pouquíssimas universidades no mundo nas quais existem pesquisadores que colaboraram nas descobertas de exoplanetas. Aqui no Brasil, a UFC é uma delas. A descoberta feita pela gente é um marco na história", comemora Daniel.

A criação dos cursos é vista como um passo importante para que se formem mais pesquisadores no campo e, com isso, possibilitar novas pesquisas e descobertas que firmem o Estado no cenário internacional.

"O cenário é muito bom. As nossas pesquisas estão indo de vento em popa. Temos parcerias com dois grandes projetos internacionais. "Obviamente, se a UFC quiser entrar num cenário maior, ela tem que investir na construção de telescópio, de espectrômetros, um investimento em instrumentação científica. Mas isso é para médio e longo prazo. Para curto prazo, nós estamos muito bem com os projetos", amplia o docente.

Daniel ainda ressalta que o investimento na área, em não se tratando de construção de instrumentação, não seria "alto" uma vez que se pode realizar pesquisas a partir da análise de dados, por exemplo, obtidos através de telescópios instalados em outros países ou no espaço."Não precisa criar um grande laboratório para fazer pesquisa. Precisa de um bom computador e uma boa rede de internet. Nós trabalhamos com consórcios de telescópios espaciais e terrestres. Então, para nós, é tratamento de dados. Até certo ponto, é barato fazer", explica.

Ora (direis) ouvir estrelas!

O verso do título "Ora (direis) ouvir estrelas" foi retirado do soneto número XIII da coletânea de sonetos Via Láctea, inserido no livro de estreia de Olavo Bilac - "Poesias" (1888)

Ora direis ouvir estrelas

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto

A via-láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.